Nadir Plasencia

Março 2024









GEOLOGIA DE ENGENHARIA

SÓCIA APG Nº O888

Natural de Viana do Castelo, é geóloga na EDP, responsável pelas geo-soluções de engenharia nos projetos para produção elétrica. Irremediavelmente fascinada por esta área, acha deliciosa tanto a fase de projeto, como a de acompanhamento de obra. O que mais gosta no seu trabalho? Não ser repetitivo e exigir inovação constante.

(...) estar na expectativa de que uma determinada falha que apareceu num túnel paralelo, aparecesse num segundo túnel, e ela não aparecer. Isso deixa-nos um bocadinho angustiados. Há momentos em que nós temos uma determinada perspetiva e antevemos um determinado modelo geológico que não se concretiza. Mas isso é normal. Isto acontece-nos porque lidamos com a natureza"

Foi entre a calma dos montes e vales de Vieira do Minho e, ainda à superfície, que encontrámos a Nadir. Mas foi a 350 metros de profundidade, na central hidroelétrica de  Frades I (EDP), que a fomos conhecendo. Gosta e gostava de imensa coisa, mas a Geologia, semeada desde que era mais alta do que as irmãs, levou a melhor. Queria algo prático, e o gosto pela física, engenharia civil e Geologia estrutural conduziram-na à Geologia de engenhariaCozinhada numa ótima geofornada da FCUP, tem dedicado grande parte da sua vida profissional a projetar e a pôr de pé empreendimentos para produção de energia. Não há falha que lhe falhe, mesmo quando não passa exatamente onde espera, e é com um brilhozinho nos olhos que a ouvimos falar dos imensos projetos em que já participou: "É tudo delicioso!" Venham conhecer esta bonita geóloga vianense, que quase se deixou levar pelo (en)canto de uma diaclase, mas viu - e vê - a eletricidade ao fundo do túnel.


Entrevista 

Central hidroelétrica de Frades I/II (Vieira do Minho), setembro de 2023


1. Nome, data e local de nascimento?

Nadir de Sousa Plasencia. Nasci no dia 21 de março de 1965, em Viana do Castelo. Sou filha de mãe vianense e o meu pai era espanhol, de Valência.

2. Conte-nos, como se fosse para leigos, o que faz profissionalmente na sua atividade como geóloga.

Neste momento faço muito pouca atividade de Geologia, mas a verdade é que comecei nesta empresa, EDP, como geóloga. Fui contratada como geóloga em 1989. A minha atividade é muito vocacionada para a Geologia de engenharia, focada fundamentalmente em projetos de aproveitamentos hidroelétricos, isto é, barragens, centrais, túneis hidráulicos, mas também já colaborei em muitos estudos para subestações, parques eólicos, e até plataformas fotovoltaicas flutuantes. Por exemplo, esta plataforma-piloto do Alto-Rabagão e os painéis fotovoltaicos do Alqueva também tiveram a minha colaboração, mas mais no que diz respeito às amarrações das plataformas. E é fundamentalmente isso.

3. Então podemos dizer que é uma geóloga que está na área da energia?

Sim, estou na área da energia. Não na pesquisa e exploração do produto para a produção, mas na conceção, desenvolvimento, acompanhamento e também na manutenção das estruturas que são utilizadas para a produção de energia. Claro, muito focada na energia hidroelétrica.

4. Em que ano ingressou no curso de Geologia?

Entrei no curso de Geologia na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto em 1983, está agora [setembro de 2023] a fazer quarenta anos. Éramos por aí uns 40 caloiros na altura e éramos, e somos, um grupo bastante engraçado.

5. Ainda mantém contacto com esse grupo?

Sim. Mantemos contato, diria que com a maior parte. Posso dizer que o Facebook veio dar uma grande ajuda nisso, porque houve um período em que o contato era muito reduzido. Mas agora acabamos por estar digitalmente mais próximos. Com um grande conjunto de colegas desse ano ainda só fizemos um encontro e está na altura de fazer outro, agora que se completam quarenta anos da entrada na faculdade.

6. Desse grupo, uma boa parte deles trabalham em Geologia, ou alguns saíram da área?

Desse grupo, muitas colegas foram para o ensino e outros foram para empresas ou ficaram na academia. Ficou muita gente na área.

7. Ensino secundário?

Sim, sobretudo ensino secundário.

8. Há algum colega desse ano que seja assim conhecido como a Nadir?

Ah… (risos) Eu não sou conhecida. Desse mesmo ano, o [António José] Guerner [Dias], que é professor na FCUP [Faculdade de Ciências da Universidade do Porto], a Manuela Carvalho, que é Professora no ISEP [Instituto Superior de Engenharia do Porto], a Luísa Borges, que trabalha na Câmara Municipal do Porto, o Paulo Bravo, que não conhecem mas vão conhecer porque têm de o entrevistar, que é geólogo profissional na área da prospeção, ligado ao LNEG. Também o Álvaro Pinto [Diretor Executivo do Centro de Ciência Viva do Lousal] e a esposa dele, a Carmen, que também é geóloga, mas está no ensino.

9. As pessoas que iam para o ensino, era por escolha, certo?

Nós tínhamos três ramos: educacional, científico e científico-tecnológico. Eu fui para o científico-tecnológico, mas houve muitos colegas que foram para o ensino, optaram por seguir logo essa carreira. Eu fiz quatro anos de licenciatura e tinha o estágio integrado [4+1]. Nesse último ano, vim para Braga e estive a estagiar na Direção de Estradas de Braga [posteriormente integrada na Junta Autónoma das Estradas, atualmente Infraestruturas de Portugal]. O meu orientador era um engenheiro civil e o meu tema de estágio foi a Inventariação e caracterização de pedreiras e respetivos inertes - atualmente chamados de agregados - do distrito de Braga, para fins rodoviários. Foi um ano sem ganhar nada, monetariamente. A certa altura, decidi candidatar-me a uns concursos que havia na altura ao nível das escolas – as escolas tinham vagas e abriam elas próprias os concursos – e eu ainda cheguei a dar aulas na escola secundária D. Maria II e na Alberto Sampaio [Braga], durante uns meses, para ganhar algum dinheiro. Foi uma experiência interessante e foi aí que percebi que até gostava de ensinar.

10. A que anos deu aulas?

Eu dava aulas ao 9º ano, de geografia. Sem habilitações próprias, porque era geóloga. Mas quando me candidatei, a escola preferiu ter uma geóloga a dar a geografia em vez de uma pessoa formada em história. Como a decisão era da escola, assim foi. Depois dei também noções básicas de saúde, mas aí já com habilitações próprias, porque era do 1º grupo de Geologia/Biologia.

"(...) desde pequenina que ele me trazia amostras de mão e eu achava aquilo muito giro!"

11. Esse foi o seu primeiro trabalho remunerado?

Sim, foi o meu primeiro trabalho remunerado. Depois cheguei a fazer uns trabalhos a título individual, a recibos verdes, com esse engenheiro que foi meu orientador, porque ele às vezes tinha alguns trabalhos particulares e precisava de apoio na parte da Geologia. Cheguei a colaborar com ele. Depois, candidatei-me à EDP e entrei.

12. Antes de entrarmos nessa fase da sua vida, conte-nos, porque escolheu Geologia?

Isso é uma história muito engraçada, porque eu gosto de imensa coisa e gostava de imensa coisa. Eu tenho um tio que é geólogo [José Edmundo Magalhães] e vivíamos em Moçambique. Vivi lá até aos 10 anos de idade. Desde pequenina que ele me trazia amostras de mão e eu achava aquilo muito giro, saber o que cada amostra era e identificar as rochas. E esse meu tio trabalhava com o Martins Carvalho. Já agora, o Martins Carvalho vivia no mesmo prédio que eu, em Moçambique. Por isso, quando me candidatei à faculdade, coloquei também Geologia. Outro dos cursos que pus na minha candidatura foi biologia, mais para o fim da lista. (risos) Se tivesse entrado em biologia também tinha gostado. 

13. Mas não estava aqui a ser entrevistada! (risos)

Mas acho que também teria gostado. (risos) Pus também engenharia civil. Curiosamente, não tive Geologia no secundário. Quis escolher, mas não havia essa opção no liceu onde estava.

14. Mas por que razão colocou a Geologia em primeiro?

Talvez pela influência da proximidade do meu tio. Sabia da importância da Geologia na engenharia civil e também na pesquisa e prospeção de água. O meu tio e o Martins Carvalho trabalhavam muito na prospeção de água para as linhas de caminhos-de-ferro. Eu era muito pequenita, mas sem dúvida que foi uma influência. Com o meu tio, continuei a ter contacto, o Martins Carvalho, só o voltei a encontrar na faculdade.

15. E lembrava-se de si?

Lembrava-se e sabia o meu nome.

16. Também, com o nome Nadir, fica mais fácil!

Eu lembrava-me dele também, porque ele e a esposa, que na altura ainda não tinham filhos, gostavam muito de nos ver a nós, que éramos cinco, em escadinhas. Na altura ainda fazíamos escadinhas, porque eu era a mais alta, porque era mais velha, e as minhas irmãs mais pequeninas, agora já não é assim, que elas são mais altas que eu. (risos) Mas foi engraçado ele reconhecer-me, porque eu não fui falar com ele, sou extravertida mas nem tanto, e ele era meu professor. Também nunca disse na faculdade que era sobrinha de um geólogo. Só muito mais tarde é que o doutor Fernando Noronha veio a saber que eu era sobrinha do José Edmundo Magalhães.

"Depois de entrar no curso, nunca pensei em mudar, mas tinha traçado o objetivo muito claro de trabalhar na Geologia aplicada"

17. Como é que foi a entrada no curso de Geologia? Foi ao encontro das expectativas que tinha?

Os primeiros anos foram um bocadinho difíceis. Quando se entra para um curso, a ideia que se tem é que se vai aprender coisas que são úteis para o que se quer fazer na vida profissional, mas eu não me via a trabalhar em mineralogia, nem em cristalografia. Mas, por exemplo, a Geologia estrutural achei espetacular. (nostálgica) Tem muita física, e eu sempre gostei muito de física. E aí eu já comecei a ver o interesse e a aplicação da Geologia naquilo que eu achava que ia fazer um dia na vida. Depois de entrar no curso, nunca pensei em mudar, mas tinha traçado o objetivo muito claro de trabalhar na Geologia aplicada. Não queria trabalhar na investigação nem queria dar aulas. Portanto, seria hidrogeologia ou Geologia de engenharia. Depois, a partir do terceiro ano do curso, comecei a dar-me com engenheiros civis, porque tinha um namorado que era engenheiro civil. Cheguei a assistir a algumas aulas na FEUP [Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto]. E eu era um bocado crítica, fui assistir às aulas de Geologia geral, dadas por um engenheiro civil e eu achava que aquilo podia ser dado de outra forma. Devia ser dado com um objetivo a nível da utilização da Geologia, e não aquela Geologia tão pura. Só no quarto ano é que tive cadeiras de opção, mais direcionadas para aquilo que eu perspetivava que fosse o meu caminho.

"(...) nunca gostei muito daquelas aulas muito teóricas e monótonas"

18. Foi uma aluna média ou boa?

Não fui uma aluna má. Fiz o curso direitinho. As notas também não foram más.

19. Gostava de participar nas aulas ou era mais calada?

Nunca fui calada. Quando tinha de falar, falava. Era uma aluna participativa. Mas às vezes até dizia umas coisas que não tinham nada a ver com nada. Lembro-me de uma altura em que o professor [Fernando] Noronha se virou para mim e disse "Oh minha senhora, o cu não tem nada a ver com as cuecas!" (faz um ar envergonhado, depois risos) Geralmente só intervinha quando achava que tinha sentido. Aliás, também nunca gostei muito daquelas aulas muito teóricas e monótonas.

20. Qual foi a cadeira que mais gostou?

Não posso dizer que tenha sido só uma. Gostei muito da Geologia geral. Gostei imenso da hidrogeologia e da Geologia da engenharia, que era dada pelo professor Costa Pereira. Era um professor que não fez carreira académica, mas que tinha um conhecimento daquilo que era a realidade empresarial, que tinham uma vivência enorme. Porque uma coisa é estarmos a estudar um tema ou uma disciplina por si, e outra coisa é termos a perspetiva de que aquilo que estamos a aprender vai ser útil se aplicado na realidade empresarial, que é a Geologia que vamos utilizar para resolver problemas. Mas havia também outra coisa muito importante, que era a relação entre pessoas e empresas, para a qual esses professores que vinham de "fora" nos conseguiam alertar. Por exemplo, como nos devíamos comportar, questões de ética, coisas que surgiam nas conversas que, sinceramente, eram uma grande mais-valia e que só as tínhamos porque esses professores estavam inseridos no meio empresarial. Não tenho dúvida nenhuma disso. Agora, gostar, gostei. Gostava de mineralogia, não posso dizer que não, mas não via a aplicação daqueles conhecimentos. No entanto, até tem, mas para mim não tinha, porque eu não me via a trabalhar numa área em que necessitasse de ter um conhecimento muito aprofundado desses temas.

Nadir com o professor Cotelo Neiva e o engenheiro Celso Lima

" (...) nós aprendemos muitas coisas juntas, mas ela também me ensinou muito mais do que eu lhe ensinei a ela"

21. Há algum colega, pode ou não ser contemporâneo, que admire particularmente?

Tenho muitos. Pessoas que nos marcam e com quem nós sentimos que aprendemos e que acabam por fazer parte de nós como profissionais, assim o primeiro que me vem à cabeça é o professor Cotelo Neiva. Comecei a trabalhar com ele pois era consultor da EDP. Quando eu comecei a trabalhar na EDP, quem estava cá há já algum tempo era outra geóloga, a professora Isabel Fernandes [atualmente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa]. Acabávamos as duas por tirar dúvidas com o professor Cotelo Neiva e era com ele que aprendíamos imenso. A referência seguinte, a nível profissional, não podia deixar de ser a Isabel [Fernandes]. A verdade é que nós aprendemos muitas coisas juntas, mas ela também me ensinou muito mais do que eu lhe ensinei a ela, porque já cá estava há algum tempo. Outras referências, o professor Martins Carvalho, que a certa altura foi nosso consultor na área da hidrogeologia. Trabalhei e aprendi imenso com ele. Da faculdade, com quem eu acho que aprendi mais e que me foi mais útil, sem dúvida que foi, além do professor Martins Carvalho, o professor Costa Pereira. Isto não quer dizer que os conhecimentos adquiridos nas outras disciplinas não sejam levados também para a nossa vida, e nisto posso dizer que os conhecimentos da Geologia estrutural foram fundamentais para a minha atividade. E, portanto, as aulas do professor Frederico Sodré Borges e os seus compêndios estão sempre ao meu lado. Quando queremos estudar qualquer empreendimento desta envergadura, a Geologia estrutural é fundamental. Gostei também muito de ter o doutor Noronha como meu professor. De referência profissional, a quem eu recorri e que me deixaram marcas, foram estes.

Escavações de Frades I em 2002, com Jorge Quelhas (marido da Nadir) e os professores Evert Hoek e Paul Marinos. 

22. Naquilo que é a sua vida profissional, qual é a atividade ou o exercício que mais prazer lhe dá?

A minha atividade profissional agora tem muito pouco de Geologia. Eu tenho uma equipa com geólogos, engenheiros civis de geotecnia e estruturas e um arquiteto. É uma equipa multidisciplinar pela qual sou responsável, portanto, eu de há uns anos para cá, deixei de fazer Geologia. Isso custa-me um bocadinho, não vou mentir, porque o trabalho de campo, as saídas, etc, é muito agradável. O nosso trabalho nunca é monótono!


23. Gostava mais do que fazia antes ou do que faz agora?

É tudo delicioso! (risos) Na fase de projeto juntava-se ali uma quantidade de informação, que às vezes não é assim tanta como isso, e temos que fazer muita "geopoesia". Há um limite a partir do qual, mesmo que tivéssemos todo o tempo e todo o dinheiro do mundo, deixa de fazer sentido continuar a estudar. Por outro lado, há prazos para as coisas se concretizarem, para os projetos serem terminados. E, portanto, há limites para tudo, de maneira que tem de sair uma interpretação daquilo que nós perspetivamos que vai ser encontrado durante a obra. Depois, durante a obra, é evidente que reduzimos o risco dessas situações imprevisíveis poderem aparecer, mas a imprevisibilidade não se anula. No ambiente geológico, e quando se trabalha no terreno, é que vamos ver se se confirmam as perspetivas ou não. Quando estamos a falar de obras subterrâneas com centenas de metros de profundidade e quilómetros ou dezenas de quilómetros de extensão, às vezes é complicado prever tudo. A nível de contratação, é necessário saber pôr nos nossos contratos com os executantes aquilo que vai ser encontrado/detetado durante a execução, para haver ferramentas para se lidar contratualmente. Tudo é importante, tanto a fase de estudo, a fase de preparação do concurso, a preparação para a execução, onde é preciso fazer uma reflexão profunda para perceber o que devemos e não devemos esperar, quais as variáveis e quais os limites máximos e mínimos, se devemos ou não esperar e, depois, acompanhar a execução dos trabalhos. Gerir uma equipa também é um desafio.

" Quando me virei ao contrário vi o rio a pique… e apanhei um susto, porque estava numa situação de eminente deslizamento pela encosta abaixo "

24. Toda a atividade profissional tem um lado mais difícil, qual é o exercício que menos gosta?

Nesta fase da minha vida, já não tenho muita paciência para fazer logging de sondagens. É um trabalho maçador. Até mesmo fisicamente é difícil. Antigamente, com o professor Cotelo Neiva, punham-lhe as caixas de sondagens nuns tripés para não ter de estar curvado. Agora, como é que se faz? É ali curvadinhas, com as caixinhas no chão. Mas a mim fizeram-me uma coisa muito engraçada. Eu estava no fim da gravidez e estavam a terminar duas sondagens. Estava numa fase em que não conseguia ir à obra fazer os logs das sondagens. Então, levaram-me as caixas das sondagens ao Porto e puseram-nas lá para eu classificar. Foi há 27 anos.

"(...)  está-se sempre a queixar que eu nunca quero fazer desvios para ver uma determinada barragem porque já as conheço todas (...)"

25. Consegue identificar um evento especialmente marcante na sua carreira?

Num estudo de um local para uma barragem, tínhamos acabado de mandar fazer as trincheiras para levantamento geológico e eu fui lá fazê-lo. A certa altura, vi uma diaclase espetacular a "chamar por mim", comecei a trepar pela encosta para medi-la. Medi e registei. Quando me virei ao contrário, vi o rio a pique… e apanhei um susto, porque estava numa situação de eminente deslizamento pela encosta abaixo. Sentei-me e fui a escorregar pela encosta, a arrastar-me para voltar outra vez para a base da trincheira. Tinha trepado demasiado para um sítio que não devia e estava numa zona muito íngreme. Subi naturalmente, mas não medi o risco. Também já cheguei a passar umas noites sem dormir. Por exemplo, quando estamos dentro de um túnel e estamos à espera de encontrar uma falha que previmos que aparecesse e ela não há meio de aparecer. Fica-se na dúvida se já estamos ou não na falha. Será que já estamos a aproximar-nos? Será que deveria ter classificado aquilo de outra forma? A pessoa fica sempre a pensar se fez bem ou não, se deu as indicações corretas. Às vezes levamos as preocupações connosco para casa.

"Quando estamos a falar de obras subterrâneas com centenas de metros de profundidade e quilómetros ou dezenas de quilómetros de extensão, às vezes é complicado prever tudo"  

26. Nestes anos, já houve algum momento que identifique como um falhanço, ou uma situação embaraçosa?

Acho que isso nunca me aconteceu. O que aconteceu, não que tenha sido um embaraço, foi estar na expectativa de que uma determinada falha que apareceu num túnel paralelo, aparecesse num segundo túnel, e ela não aparecer. Isso deixa-nos um bocadinho angustiados. Só depois é que percebemos e relacionamos as coisas e chegamos às conclusões. Há momentos em que nós temos uma determinada perspetiva e antevemos um determinado modelo geológico que não se concretiza. Mas isso é normal. Isto acontece-nos porque lidamos com a natureza. No túnel de acesso de outra central, estávamos a contar com uma falha com uma determinada pendente e, afinal, era relativamente diferente, pelo que afetou paralelamente um túnel durante centenas de metros. Isso acabou por ser complicado, porque afetou o volume de contenção que teve de ser aplicado nesse túnel. Por isso, nestas obras complexas, o contrato de execução tem de conter uma série de alíneas, que permitam ao gestor do contrato lidar com estes imponderáveis.

27. Qual é a sua publicação favorita? Pode ser um livro, carta, artigo...

Um livro que eu gosto muito é o "Ingeniería Geológica" do [Luis Gonzalez de] Vallejo. Só tenho pena de não ter sido eu a escrever aquele livro. Acho-o muito completo, muito interessante. Volta e meia vou lá consultar coisas. Enquanto dei aulas usei muito esse livro, parece-me muito bem organizado e estruturado.

28. Tem, ou já teve, algum hobby extra-Geologia?

(hesita um pouco, olhando ao redor) Acho que não tenho nada. (risos)

29. O seu hobby é a Geologia! (risos) E quando vai de férias?

É uma desgraça quando vou de férias. Gostamos os dois [Nadir e o marido] de coisas muito semelhantes, que é tudo o que está muito ligado à engenharia (risos). E muita geotecnia – ele é engenheiro civil com opção de geotecnia. É um gosto e algo que nos une também. Fizemos um viagem à Suécia, a Estrasburgo, e a primeira coisa que fizemos quando lá chegámos foi visitar as estações subterrâneas do metro. É que são muito giras, são muito bonitas. O revestimento do interior das estações é em betão projetado, mas depois têm pinturas por cima, lindíssimas. Uma das estações tem rocha à vista! Uma obra dos anos 70, muito interessante! Têm infiltrações, mas desviam a água, fazem a drenagem, aproveitam-na. 

30. E visitam pontes, barragens?

Isso é o meu marido. É terrível, porque depois está-se sempre a queixar que eu nunca quero fazer desvios para ver uma determinada barragem porque já as conheço todas e ele quer conhecê-las, ele gosta. E pontes também, e eu também gosto muito de pontes. Aliás, se tivesse seguido engenharia civil, tinha sido projetista de pontes. Acho uma estrutura muito desafiante e muito interessante.


Intraclasto

Central Hidroelétrica de Frades I

Como intraclasto, a Nadir partilhou connosco o significado do projeto de Frades, onde fomos ao seu encontro. O Projeto Frades I era inicialmente designado por aproveitamento hidroelétrico da Venda Nova II. Foi o primeiro projeto que a Nadir, como geóloga da EDP, teve o privilégio de acompanhar desde a fase de conceção, lançamento de concurso, construção. Atualmente, continua a acompanhá-lo em contexto de manutenção. Este é um projeto integralmente subterrâneo, não detetado à superfície, para o qual a contribuição da Geologia foi fundamental: tratam-se de túneis hidráulicos em carga, não revestidos. Durante a fase de primeiro enchimento do aproveitamento hidroelétrico, o ginásio da Nadir foram os quase 200 graus da galeria de ventilação, os quais tinha de subir e descer diariamente. Além da arte geológica não revestida, vale a pena mencionar os painéis de azulejos de Graça Morais, que fazem parte do Roteiro de Arte em Barragens: os 22.126 azulejos Viúva Lamego, podem agora ser visitados a 350 metros de profundidade.


Geomanias

Rocha preferida? Granito

Mineral preferido? Quartzo

Fóssil preferido? Trilobite

Unidade litostratigráfica preferida? 

Complexo Xisto-Grauváquico

Recursos minerais metálicos ou não metálicos? Não metálicos

Era, Período, Época ou Idade preferido? Quaternário

Trabalho de campo ou de gabinete? Campo


Martelo ou microscópio? Martelo, sem dúvida

Amostra de mão ou lâmina delgada? Amostra de mão

Pedra mole ou pedra dura? Pedra dura

Ortóclase ou Ortoclase? Ortoclase 


Teaser da Entrevista