
Anabela Reis
Abril 2026
GEOQUÍMICA AMBIENTAL
SÓCIA APG Nº O886
Beirã de Oliveira do Hospital, formada em Coimbra, é professora na UTAD e atual diretora do Departamento de Geologia. Isto das pedras não estava nos seus planos, mas uma professora e uma caixa de minerais mudaram-lhe o rumo. Especialista em Geoquímica Ambiental e fã de policiais, faz ambos, investigando os culpados da contaminação dos rios de montanha através dos sedimentos.
"Eu não sou daquelas pessoas que diz: 'Sempre quis ser geóloga'. Em pequena, talvez nem soubesse bem o que era o trabalho de um geólogo! (...) Mas houve uma sucessão de acontecimentos (...) Recordo-me de estar na marquise de casa, sentada no chão, a preparar uma caixinha com rochas e minerais. (...) há momentos na vida que nos marcam, embora na altura não imaginemos"
Foi de regresso à mesma sala onde teve a sua primeira aula na Universidade de Coimbra – a mítica sala do relógio – que nos sentámos com Anabela Reis, a única pessoa de que há registo na história da Terra a responder argilito à pergunta "rocha preferida". Nascida em Oliveira do Hospital, traz consigo aquela combinação clássica de quem cresceu perto da natureza. Mas, como tantas boas histórias, começou sem plano: nem sabia que a Geologia era profissão. Chegou lá por conspiração de circunstâncias: uma professora entusiasmada, uma caixa de cartão com minerais, algum cansaço de biologia e uma candidatura feita mais por intuição do que por convicção. No caos de provas gerais, greves e exames tardios, foi entre freiras, professores memoráveis e trabalhos de campo com episódios que os manuais prudentemente omitem que acabou convencida. Hoje é docente na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e trabalha com sedimentos fluviais, aquelas particulazinhas que parecem inocentes, até começarem a contar coisas. Pelo caminho, houve amostradores desviados para usos criativos, campanhas com níveis de água discutíveis e uma entrevista de emprego nas escadas do departamento. Venham conhecer esta orgulhosa e meiga beirã, que olha para um punhado de sedimentos e não vê "terra": vê histórias. E, mais importante, tem paciência para as ouvir.
Entrevista
Museu da Ciência, Universidade de Coimbra, setembro de 2025
1. Nome, a data e o local de nascimento.
Chamo-me Anabela Reis, nasci a 14 de abril de 1970 em Oliveira do Hospital, que neste momento é uma cidade – na altura era uma vila – do distrito de Coimbra. Localiza-se nas faldas da Serra da Estrela e sou beirã! (risos)
2. Conte-nos, de forma simples, mas que abranja todas as suas valências profissionais, o que faz profissionalmente?
Profissionalmente, sou docente no Departamento de Geologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro [UTAD]. A minha especialização é em geoquímica ambiental, digamos assim. Eu digo que sou principalmente professora porque, de facto, acaba por ser a componente que ocupa mais tempo. Não só com as aulas, com os alunos, mas também com a parte burocrática. Neste momento, também estou responsável pela direção do departamento e, portanto, a parte da gestão também me ocupa algum tempo. Não é nada demais, porque temos um departamento muito saudável. Somos poucos, mas é um departamento simpático, damo-nos bem, cada um tem as suas valências, valências muito boas. Mas, em termos de investigação, trabalho com sedimentos fluviais. Sedimentos atuais, portanto, acaba por ser uma parte que eu posso classificar como sedimentologia e geoquímica. E porquê? Este gosto pelos sedimentos vem desde o meu trabalho de mestrado e, de facto, os sedimentos são muito importantes ao nível dos ecossistemas fluviais. Eu trabalho essencialmente na geoquímica dos sedimentos, na parte química, na retenção de contaminantes, porque os sedimentos – as particulazinhas que são transportadas pelos cursos de água – têm uma enorme capacidade de retenção de contaminantes: são depósitos. São também um veículo de transporte de contaminação muito importante. E, caso a coisa corra mal, os contaminantes que estão agarrados aos sedimentos podem voltar para a água. E a água é um meio mais fácil de interação com os seres vivos. Nos sedimentos também há contacto com organismos e, mesmo os contaminantes estando retidos nessas partículas sedimentares, passam na cadeia trófica através dos micro-organismos, peixes, etc. Eu tenho estudado essencialmente metais, fósforo também, e tenho alguns estudos sobre a relação entre solos e sedimentos, porque o meu trabalho tem sido desenvolvido particularmente em rios de montanha – que ainda por cima são mais difíceis de estudar! Essencialmente, tenho trabalhado em Trás-os-Montes. Comecei por fazer um trabalho no rio Águeda, na minha tese de mestrado. Foi, digamos, uma introdução, e gostei muito. No doutoramento, fiz campanhas de amostragem durante três anos para avaliar a evolução da contaminação, das próprias características dos sedimentos, da qualidade, da composição, e também a influência sazonal. Nos rios de montanha há muita atividade! (risos) Em épocas em que o caudal fluvial é mais reduzido, os sedimentos sossegam, assentam; em épocas com mais caudal, os sedimentos vão todos embora. (risos) O rio é como que lavado. E, de facto, trabalhar num rio, estar num rio e, num ano, no inverno, ver a variação e a magnitude dos caudais impressiona! E depois, como são rios de montanha, o nível da água sobe de forma muito mais significativa; há uma dinâmica, uma competência no transporte de sedimentos. E não só… também há muitas árvores! (risos)
"(...) nos rios de montanha, todos os anos os sedimentos são lavados. O rio é como que lavado (...) há muita atividade! (risos) (...) em épocas com mais caudal, os sedimentos vão todos embora. (...) E, em épocas em que o caudal fluvial é mais reduzido, os sedimentos sossegam, assentam"
3. É uma área de trabalho desafiante…
É, de facto, é um desafio! Houve uma altura, no meu trabalho de doutoramento, em que eu coloquei nos cursos de água, em vários pontos mais calmos, uns coletores – que construí! – para amostrar os sedimentos transportados em suspensão, com uns tubos e tal. Já havia uns trabalhos feitos e eu adaptei a forma de fixar, digamos assim, os amostradores nos cursos de água. Correu tudo mal! Ainda recolhi alguma coisa, mas correu tudo mal! Algumas pessoas, nas povoações, acharam aquilo estranho e aproveitaram tudo o que fazia parte dos amostradores, que tinham uma base de betão. Deu-nos um trabalho enorme transportar aquelas bases para a água, foi horrível! Tinham uns suportes em aço, para fixar o tubo. Numa represa de um ribeiro cheguei a ver uma dessas minhas bases a servir de mecanismo de comporta, de mini-comporta. Vi coisas muito engraçadas!
4. Alguém por lá tem um amostrador como centro de sala. (risos)
Se calhar! (risos) Essa foi das partes mais cómicas do trabalho de campo, e a mais frustrante. Um desses amostradores que fixei no pilar de um pontão esteve lá pouco tempo, a água levou tudo. No departamento, os nossos técnicos, que são de facto fantásticos, faziam muito trabalho de campo com todos os colegas. Eram, e são, companheiros, realmente. Havia um senhor, com mais idade, o senhor Nélson, e lembro-me de ter estado metida no rio com o nível da água quase pelos ombros (por causa do amostrador). Eu tinha daquelas botas com alças, a água começou a entrar para dentro, o que era perigoso, mas tinha uma corda à volta da barriga, e o senhor Nélson estava a segurar! Eu acho que aquilo não valia de nada! (risos) O Tito e o Álvaro estavam na margem, assim, a olhar: "Não pode ser boa da cabeça!". Portanto, já divaguei completamente. Eu começo a falar dos sedimentos e perco-me! Em suma, eu trabalho com sedimentos atuais e com a contaminação que lhes está associada, como metais e fósforo, e agora também tenho feito algumas incursões nos microplásticos e poluentes emergentes. Há muito trabalho feito sobre vários temas, mas os rios de montanha não são assim tão estudados, porque são mais difíceis. É mais fácil amostrar sedimentos em zonas de albufeira ou de estuário, em áreas de deposição, o que também é importante, claro. Mas, em termos de transporte, é interessante termos uma noção das quantidades envolvidas. Nos trabalhos que tenho feito, temos considerado bastante as zonas agrícolas e a atividade agrícola, porque, sendo uma contaminação dispersa, as cargas também o são e podem ser elevadas, sobretudo quando combinadas com o fósforo. Aliás, o fósforo é outra questão, que é tratada por uma colega e amiga do departamento de solos, a Marta Reboredo, que trabalha nessa área, e depois cruzamos informação.

Em trabalho de campo para o doutoramento.
5. Em que ano e quando ingressou no curso de Geologia?
Eu ingressei no ano letivo de 1988/89, no curso de Geologia, aqui na Universidade de Coimbra. Mas 1988 foi um ano de grandes mudanças no acesso ao Ensino Superior. Foi implementada a PGA, a celebre prova geral de acesso, que era uma prova de português e conhecimentos gerais. Os exames nacionais foram substituídos pelos exames de acesso. Eu vim fazer o exame de matemática aqui, no Departamento de Matemática. Ora, nesse ano, com toda esta confusão já instalada, os professores do ensino superior resolveram fazer greves. Hoje já não nos conseguimos mobilizar daquela forma, e é pena, porque acho que tínhamos muito a reivindicar. Houve greves a nível nacional, inclusive aos exames, e, portanto, alguns estudantes fizeram exames em setembro, outros em outubro, outros em novembro, dependendo da universidade e dos departamentos. Isso atrasou o lançamento das notas finais e nós só ingressámos em fevereiro de 1989! Nessa altura, os alunos [mais velhos] já estavam em plena época de exames, por isso nem houve propriamente uma praxe muito intensa, pelo menos nessa fase. Lembro-me da nossa primeira aula, aqui na sala do relógio, de Mineralogia e Cristalografia, com a professora Ana Neiva, que nos disse logo que tínhamos de trabalhar, porque, se tivéssemos média inferior a 14, não fazíamos nada da vida. Ela era muito engraçada e tinha qualidades muito boas. Mas, como eu estava a dizer, entrámos tarde na universidade e éramos uns 40, talvez. Depois alguns mudaram de curso, mas devemos ter ficado uns 35. Éramos um grupo grande, mas muito engraçado!
6. Quem foram alguns dos seus colegas?
O João [Caldeira de Oliveira], que é professor aqui em Coimbra, no colégio Rainha Santa. É das pessoas com quem mantenho contacto. A Anabela Veiga está no Politécnico de Leiria e também faz parte do Centro de Geociências. O Paulo Caessa é um "geólogo do mundo". O Carlos Castela é um apaixonado pela Geologia (e História), a Clara, o Américo, o Carlos, o Luís Flor… são professores em escolas secundárias, e outros colegas de Engenharia Geológica, como o Luís Miguel Abrantes e, bem… o meu marido, que foi meu colega! (risos) Do mesmo ano! Mas ele depois desviou-se um bocadinho e mudou para Engenharia Geológica, queria algo mais prático. Chama-se Nuno Pupo e trabalha em Geologia na Mota-Engil, no Departamento de Geotecnia.O J

Grupo de caloiros de Geologia, Coimbra, ano letivo 1988/89.
'Eu tinha daquelas botas com alças, a água começou a entrar para dentro, o que era perigoso, mas tinha uma corda à volta da barriga, e o senhor Nélson estava a segurar! Eu acho que aquilo não valia de nada! (risos) O Tito e o Álvaro estavam na margem, assim, a olhar: "Não pode ser boa da cabeça!".'

"Eu sempre gostei muito de História e de romances policiais, desde pequena, com os livros dos Cinco e por aí fora. E a Geologia tem isso: tem História e tem também o lado de detetive! Descobrem-se coisas e depois tenta-se perceber o significado, construir teorias: será que é, será que não é? Procurar evidências…"
7. E quando percebeu que queria seguir Geologia?
É muito engraçado – se calhar não tem piada! –, mas eu não sou daquelas pessoas que diz: "Sempre quis ser geóloga". Em pequena, talvez nem soubesse bem o que era o trabalho de um geólogo! Mas houve uma sucessão de acontecimentos. Há mesmo momentos na vida que nos marcam, embora na altura não imaginemos. Tive a sorte, acho eu, de crescer no campo e sempre fui muito ligada à natureza: plantas, animais… e também às rochas! Tinha algumas amostras e, quando entrei para o ciclo – agora o quinto ano –, tive uma professora de ciências naturais muito engraçada, a professora Helena Assunção. Ela era muito viva a dar aulas e, quando chegámos à parte das rochas e dos minerais, desafiou-nos a fazer uma coleçãozinha. E eu fiz mesmo: uma caixinha de cartão, com divisórias também em cartão, onde organizei algumas das rochas que já tinha e alguns minerais. Lembro-me de ter as rochas principais, por exemplo, a pedra-pomes como rocha vulcânica. E também devia ter um basalto, que alguém me terá dado ou que arranjei não sei bem onde, porque as amostras circulavam muito entre os miúdos, trocavam-se coisas. Recordo-me de estar na marquise de casa, daquelas envidraçadas, de madeira, cheia de plantas da minha mãe, sentada no chão a preparar a caixa e a escolher as amostras. São daquelas memórias que ficam bem arrumadinhas… Depois, ao longo do percurso escolar, nunca tive Geologia. No liceu onde andei, a Escola Secundária de Oliveira do Hospital, havia mais alunos inscritos em Biologia e acabava por ser essa a disciplina lecionada. Como a primeira parte do programa era Biologia, não chegávamos à parte da Geologia. Portanto, no 12.º ano, já estava um bocadinho farta da Biologia.... não posso dizer isto muito alto, mas estava. Quando me candidatei à universidade, procurei cursos ligados à natureza. Uma das opções foi Geologia, em Coimbra, e acabei por entrar aqui. Mas, mesmo assim, não tinha a certeza de que era isto que queria. Até chorei no dia em que fui ver as colocações, ainda se iam ver ao liceu José Falcão, onde os resultados eram afixados! Vim um bocadinho receosa, a medo, e aconteceu tudo muito rápido: saíram os resultados e, numa semana, tivemos de arranjar alojamento; na semana seguinte já estávamos a ter aulas. Foi uma adaptação muito rápida e confesso que esse primeiro ano – que, na prática, foi meio ano – me custou bastante. Custou-me sair de casa, do "ninho". Mas o ambiente aqui era muito bom. Tive a sorte, uma vez mais, acho eu, de ficar num lar de freiras. Hoje já nem devem existir! (risos) Havia vários lares, para além das repúblicas, que eram sobretudo masculinas, embora já houvesse algumas femininas. Os lares estavam preparados para receber raparigas e, normalmente, eram geridos por freiras. Eu era uma ave rara para os meus colegas! (risos) Mas divertia-me imenso.

8. E o que aconteceu para ficar no curso de Geologia?
Podia ter mudado de curso, e ainda pensei nisso, mas, de facto, alguma coisa ficou. As aulas de mineralogia, depois as de petrologia… e o interesse começou a crescer. Foi um período exigente. Muitos de nós tivemos de fazer o primeiro e o segundo semestre até setembro. Em outubro já começava o segundo ano! Mas, nessa altura, eu já estava mais ambientada. Diverti-me imenso no segundo ano. Tinha as amigas do lar, os colegas, e era muito comum juntarmo-nos aqui na universidade. As minhas amigas do lar vinham ter comigo, ficávamos no átrio, no bar, e elas acabaram por conhecer também os meus colegas do curso. Havia um ambiente muito bom. Acabei por me sentir muito confortável, também na vida do lar. (risos) Era muito engraçado: tinha estabilidade, às vezes fazíamos umas pequenas partidas às freiras. Era um ambiente tranquilo e confortável. Partilhávamos os quartos, duas a duas, tínhamos refeições, sala de televisão, sala de estudo… no fundo, tudo o que era preciso e com conforto. Por vezes alguns grupos de fado faziam-nos serenatas, vínhamos todas para as janelas, mas não nos podiam ver…
9. Para além das aulas, envolveu-se em alguma atividade extracurricular?
Acabei por não me envolver muito. Talvez por feitio, sempre fui mais reservada, mais tímida. Mas diverti-me bastante durante os anos que cá passei! E fiquei muito ligada, tanto ao espaço físico como ao espaço humano. O nosso ano era muito engraçado. E depois vieram os primeiros trabalhos de campo, as primeiras saídas… e há outra coisa que talvez tenha influenciado estas minhas opções. (risos) Eu sempre gostei muito de História e de romances policiais, desde pequena, com os livros dos Cinco e por aí fora. E a Geologia tem isso: tem História e tem também o lado de detetive! Descobrem-se coisas e depois tenta-se perceber o significado, construir teorias: será que é, será que não é? Procurar evidências… E acho que acaba por ser um bocadinho isso. E, dentro da Geologia, a área de que mais gosto é a Geologia Sedimentar.

Saída de Campo no Cabo Mondego.
"(...) o doutor Conde, ele era fantástico! Nós entendíamos aquela distração, aquela espécie de "loucura boa", porque era genuína. Ele vivia a Geologia de forma muito intensa, mas nunca era aborrecido. Perdíamo-nos nas aulas! Os acetatos dele e as sebentas eram o máximo."
10. Foi essa a disciplina que mais gostou durante a licenciatura?
Essa é uma pergunta difícil! Escolher uma cadeira é complicado, porque tudo faz sentido. Mas marcaram-me muito as aulas de Cristalografia, levámos logo com aquilo de início, assim de chofre: Mineralogia e Cristalografia! E o primeiro contacto com os minerais ao microscópio… entra-se noutra dimensão, começa-se a perceber o porquê de muita coisa. Gostei muito também de Geologia Estrutural, com o doutor [Luís Eduardo Nabais] Conde, ele era fantástico! Nós entendíamos aquela distração, aquela espécie de "loucura boa", porque era genuína. Ele vivia a Geologia de forma muito intensa, nunca era aborrecido. Perdíamo-nos nas aulas! Os acetatos dele e as sebentas eram o máximo. As sebentas eram feitas por capítulos e, de repente, o capítulo terminava abruptamente: provavelmente porque ele estava a escrevê-lo e foi fazer outra coisa! (risos) Eu ainda tenho isso tudo guardado. E depois tentávamos, entre colegas e com o que ele dizia nas aulas, completar o raciocínio. A disciplina de Depósitos Minerais também foi muito gira, acho que também a tive com ele; a professora Lídia Catarino, na parte da microscopia, também era muito interessante. A professora Helena deu-nos a Paleontologia, muito organizada. Mas a Petrologia Sedimentar foi, de facto, espetacular. Nesse ano foi com o professor [Rui] Pena dos Reis. Depois a Sedimentologia, com o professor Pedro Proença e Cunha, também foi muito gira. E o professor Callapez era um máximo, também com aquela "loucura boa", mas muito engraçado! Os trabalhos de campo eram divertidíssimos porque aconteciam sempre coisas inesperadas. Lembro-me da primeira Geologia de Campo, na Ericeira. Andávamos a fazer o trabalho de campo em grupos e, num dos grupos estava um colega que era extraordinariamente divertido, o Américo. Este grupo passou por um depósito de lixo com televisões antigas e caixas com sapatos velhos. Resolveram trazer uma caixa de televisão e nesse dia, antes do jantar, no bar do parque de campismo, todos tirámos uma fotografia "na televisão". (risos) No regresso, para Coimbra, uns vieram de autocarro, outros nos jipes do departamento, muito velhos! O professor Pena dos Reis tinha uma caravana, que tinha levado para o parque de campismo. Quando saiu, a caravana levava atrás, como num casamento, vários sapatos (que tinham encontrado na tal lixeira), pendurados, com cordas! (risos) Connosco estava também o professor Jorge Dinis, que costumava acordar-nos cedo com uma voz bem forte: "Toca a acordar! Vamos levantar, alvorada!". Uns dias depois, já perto do fim, um colega imitou-o, mas já estavam todos cansados começaram a responder das tendas: "Vai-te embora!", "És um chato!". Quando um deles saiu da tenda… era mesmo o professor Jorge Dinis! (risos) Levavam cornetas, era sempre uma verdadeira alvorada! Essa Geologia de Campo foi mesmo uma paixão. Era a do terceiro ano, embora, na prática, tenha sido quase no segundo, porque o primeiro foi muito condensado. Depois fizemos outra mais séria, com o professor [Martim] Portugal Ferreira. Essa já foi mais exigente. Mas ele fazia uns desenhos dos afloramentos e das estruturas que eram uma coisa deliciosa. Tinha cartas fantásticas, não sei onde ficou o espólio dele, mas eram coisas mesmo fantabulásticas. A Geologia de Portugal foi outra cadeira de que gostei muito. Fiz uns esquemas que pareciam quase uma história, ainda os tenho guardados, e até serviram depois para o meu marido estudar!
11. No seu dia a dia profissional, qual é a atividade que a Anabela gosta menos de fazer?
Isso é uma resposta que não posso dizer muito alto… (risos) mas acho que é a parte das aulas teóricas. O desinteresse dos alunos, o desligarem. Entendem que está tudo disponível nos PowerPoints e, com frequência, não querem saber da bibliografia. Há também outra circunstância: fui a mais nova a entrar na UTAD, em 1996, e também a última durante bastante tempo. Quase todos os anos, mudava de disciplina. Como não temos propriamente um curso de Geologia estruturado, temos a Licenciatura em Biologia e Geologia, a parte da Petrologia Sedimentar é dada em conjunto com a Petrologia Metamórfica, num semestre, que ficou sempre com os colegas mais velhos. Depois acabei por enveredar mais pelas cadeiras ligadas à Geologia do Ambiente. Dou, por exemplo, uma parte de Ecotoxicologia, trabalho os sistemas fluviais e, ao fim de muitos anos, fiquei com a regência de Hidrologia. Sempre gostei muito de água, portanto, tinha mesmo de ir parar aos rios! (risos) E, nos rios, não é só a água, é também a parte dos sedimentos. As aulas práticas, essas sim, gosto muito! O problema é que, hoje em dia, com cursos de três anos, há pouca margem para trabalho de campo. Não temos meios. Fazemos, normalmente, duas saídas por ano: levamos os alunos ao Maciço Calcário Estremenho, à Serra de Aire e Candeeiros, para contacto com rochas sedimentares. Realiza-se também uma saída em Trás-os-Montes, na zona do Maciço de Morais, mas tudo muito reduzido. Não há autorização da universidade para mais, e também não há financiamento para mais. Os transportes ficaram caríssimos nos últimos três ou quatro anos. Alugar um autocarro é muito difícil. Ainda assim, vamos conseguindo fazer mais algumas atividades, porque a nossa colega Elisa Preto Gomes, através do Museu de Geologia Fernando Real, vai arranjando algum apoio, alguns beneméritos, e assim conseguimos pagar os autocarros. Em Vila Real, há saídas dentro do próprio campus, onde há alguns afloramentos e o Jardim Geológico, e na área urbana da cidade.

'Eu estava lá a fazer trabalho de laboratório, na parte prática do mestrado, a lavar e separar sedimentos, quando o professor Portugal Ferreira entrou e, ao subir as escadas, disse: "Olha esta menina, ainda bem que a encontro! Vou arranjar-lhe um emprego! Quer ir dar aulas para a UTAD?".'
12. Há algum Geólogo, contemporâneo ou não, que admire muito?
Outra pergunta difícil! (risos) Os dois geólogos que mais me marcaram foram o professor Portugal [Ferreira], com quem fiz a tese de mestrado – e foi pela mão dele que fui para Vila Real –, e o doutor Conde. O doutor Conde era nosso amigo. Andava muito connosco, ia aos nossos jantares, e até lhe fizemos um doutoramento honoris causa! (risos) São duas pessoas muito importantes para mim e davam-se bem. O doutor Conde dava-se bem com toda a gente, mas eles, em particular, tinham uma boa relação, apesar de serem diferentes, com posturas distintas. O professor Portugal era mais sério, sobretudo em Coimbra. Em Coimbra era diferente, mas em Vila Real parecia estar mais à vontade, tanto nas aulas como no trabalho de campo. Orientou vários colegas da UTAD. E é curioso, porque aqui no departamento [em Coimbra] era uma pessoa um pouco controversa, mas em Vila Real era visto de forma um pouco diferente.
13. Há alguma carta, livro ou artigo, de geociências, de que goste particularmente?
Sim. Há muitas, mas a Carta Geológica de Portugal, à escala 1:1 000 000, ou mesmo a 1:500 000, acho fantástica! Temos um território com uma diversidade geológica extraordinária! Temos aqui registo de uma grande parte da história da Terra que consegue observar-se em afloramento em muitos locais. E eu acho que a carta é bonita! Até a mais antiga, do professor Carlos Teixeira, é muito interessante! A Folha 2, da carta 1: 200 000, que inclui o Maciço de Morais, é fantástica! Tem ali muito trabalho e muita imaginação… mas imaginação fundamentada! É uma carta mesmo bonita. E eu acho que tenho de falar do "Tucker" da Petrologia Sedimentar [livro Sedimentary Petrology de Maurice Tucker e Stuart Jones]. Eu andava sempre a requisitar o Tucker, porque não podíamos ter o livro muito tempo. Às vezes a dona Albertina telefonava-me, "Já há colegas que estão a precisar!". (risos)
14. Qual foi o momento mais marcante da sua carreira profissional?
Eu acho que foi a ida para Vila Real, para a UTAD. Houve vários momentos importantes, mas esse foi, de facto, o mais marcante, porque representou uma grande mudança. E foi curioso como aconteceu. Na altura, o edifício situado nas traseiras deste [Museu da Ciência], na Rua da Matemática, chamava-se Instituto da Água, uma estrutura criada pelo professor Portugal Ferreira; o rés-do-chão era ocupado pela Geologia e o primeiro andar pela Biologia. Eu estava lá a fazer trabalho de laboratório, na parte prática do mestrado, a lavar e separar sedimentos, quando o professor Portugal Ferreira entrou e, ao subir as escadas, disse: "Olha esta menina, ainda bem que a encontro! Vou arranjar-lhe um emprego! Quer ir dar aulas para a UTAD?". Eu, que estava a fazer o mestrado e tinha ouvido tantas vezes que, seguindo a via científica, não teria emprego, fiquei a olhar para ele e disse: "Claro que quero!". No Departamento de Geologia da UTAD precisavam de alguém para substituir um docente com dispensa de serviço letivo, ao abrigo das Bolsas do PRODEP. E foi assim que fui para a UTAD e lá continuo até hoje. Esse momento marcou-me muito, também porque foi uma coisa inusitada, surgiu. Outro momento importante foi, no ano seguinte, ter ido para Inglaterra, para a Universidade de Reading, discutir os dados do meu mestrado com dois professores. Na altura, o Postgraduate Research Institute for Sedimentology tinha um grande peso, sobretudo ligado à indústria petrolífera do Mar do Norte. Um desses professores, o Andrew Parker, acabou por ser meu orientador de doutoramento. E houve ainda outro momento muito marcante: quando recebi duas bolsas, uma da Gulbenkian e outra da FCT. Fiquei mesmo surpreendida, "Como é que isto é possível?". Eu era uma aluna média, até um bocadinho preguiçosa, dispersava-me, não era muito objetiva. Via os meus colegas a estudar de forma muito mais focada, enquanto eu me perdia. Nas aulas, era recomendada bibliografia e eu passava horas aqui na biblioteca, gostava de consultar os livros recomendados. Metade daquilo não interessava nada para o que era a matéria a ser, objetivamente, avaliada. Talvez fosse um pouco desorganizada, mas depois, no meu percurso, fui ganhando autonomia, sobretudo no doutoramento. Fiz trabalho de campo cá e depois estive em Inglaterra graças às bolsas. Não defendi o doutoramento lá, talvez pudesse ter sido interessante, mas não tinha condições para isso. Tinha três anos de dispensa de serviço, concedido pela UTAD, e não era possível prolongar mais. Ainda assim, o trabalho foi sempre acompanhado e foram tempos muito bons.

" O problema é que, hoje em dia, com cursos de três anos, há pouca margem para trabalho de campo. Não temos meios. (...) Os transportes ficaram caríssimos nos últimos três ou quatro anos. Alugar um autocarro é muito difícil."
15. E teve assim algum momento difícil, complicado ou um falhanço?
Há sempre momentos difíceis. Não tenho, assim, nada de que me recorde que me tenha marcado negativamente (traumatizado). Havia aqueles momentos de angústia, normais, em que pensamos: "Olha, nem sei porque me meti nisto, não tenho jeito para isto e nem sei como é que me vou desembaraçar". Mas, no dia das minhas provas de doutoramento, comecei a chorar! Durante as provas! Apresentei o trabalho e, quando me sentei e começaram a falar para mim, tentei responder e comecei a chorar. Se tivesse um buraco, tinha-me escondido lá dentro. Depois olhava para os meus colegas – só via olhos – e a pensar, "Olha, o que é que lhe vai dar?". (risos) Eu tinha sido mãe há pouco tempo, ainda estava naquela fase das emoções à flor da pele. Há coisas que nem percebemos muito bem, mas foi muita coisa junta. E estava uma professora no júri, a professora Rita Fonseca, da Universidade de Évora, que é uma delícia de pessoa – gosto imenso dela –, e parece-me que ela própria ficou embaraçada, nem sabia muito bem o que fazer. (risos) Mas lá consegui engolir duas ou três vezes em seco e a coisa seguiu. A primeira pergunta pareceu-me assim uma coisa muito estranha, quase vinda do além. Depois concentrei-me e correu bem. A defesa demorou umas três horas! Digamos que, a partir de meio, com as partes mais sérias dos dois arguentes já feitas, o professor Portugal começou a falar bastante sobre História de Portugal, sobre a D. Urraca, porque estava a ler um livro sobre esse período; nessa altura já estava por tudo. (risos) Há estes momentos mais embaraçosos. Tive momentos assim fortes, mas que, no fundo, não posso dizer que me tenham marcado negativamente.

"Depois a Folha 2, da carta 1: 200 000, que inclui o Maciço de Morais, é fantástica! Tem ali muito trabalho, muita imaginação… mas imaginação fundamentada! É mesmo bonita."
16. Qual foi o local mais bonito que já viu por causa da Geologia?
Talvez não seja assim tão viajada quanto isso. Já vi alguns locais muito bonitos, mas confesso que não consigo deixar de me lembrar, quase de forma imediata, das nossas ilhas. A Madeira, com as suas especificidades… Porto Santo é muito interessante, muito peculiar, muito bonito. Mas os Açores... nos Açores está tudo ali tão próximo de nós, a terra está viva, ali, sente-se. As paisagens são maravilhosas! E Porto Santo é muito engraçado, sobretudo pela parte dos corais fósseis, a formação é muito interessante. Portanto, há pontos em Portugal e nas ilhas que acho tão bonitos, pela sua simplicidade. Não são aquelas imagens grandiosas que estamos habituados a ver, como as designadas "maravilhas do mundo", mas as nossas ilhas têm qualquer coisa de especial. A primeira vez que fui aos Açores foi num curso de formação de professores e os percursos que fizemos foram fantásticos. Muitos pormenores, muita diversidade de litologias e morfologias vulcânicas, as águas... de facto, há recantos das ilhas, recantos geológicos (e não só), absolutamente espetaculares.

17. Se pudesse viajar no tempo geológico, a assistir a um evento concreto em segurança e confortável, qual escolheria? E acompanhada de que bebida?
Eu acho que escolheria a abertura do Atlântico! Ver a construção das litologias que hoje observamos em afloramentos, ver como é que aconteceu mesmo. Devia ser engraçado conseguirmos fazer um filme rápido e assistir a este período da história da Terra. Mas também gostava de viajar como uma partícula de sedimento num rio! (risos) Devia ser uma viagem engraçada… e depois acalmava no mar. E para bebida, para acompanhar, nos últimos tempos – no verão – quando tenho mais trabalho e chego a casa muito cansada, com a cabeça cheia de assuntos, tomo um gin tónico, com especiarias. Se é a minha bebida de eleição? Uhm… gosto de beber vinho, com algumas refeições. Uma boa refeição pede sempre um bom vinho.
18. Tem algum talento escondido ou hobby fora da Geologia?
Eu tenho vários interesses. Gosto de fazer coisas, sobretudo trabalhos manuais. Nada sério, ao meu nível! Mas faz-me bem, ajuda-me a organizar a cabeça e a desligar. Uma das coisas que faço mais, quando tenho tempo, é jardinagem. Gosto muito. Moro num prédio, mas estou numa zona afastada de Vila Real; as janelas são viradas para o Alvão e o Marão, e nas traseiras temos um jardim grande (virado para o Alvão) e sou eu que cuido dele. Às vezes está mais bonito, outras nem tanto, é um bocadinho o conceito de jardim selvagem. Vou deixando crescer algumas plantinhas e gosto de ir colocando espécies que resistam ao verão e ao inverno, o que nem sempre é fácil. Penso também nas abelhas, nas borboletas… tenho até um comedouro para os pássaros. E é daquelas coisas: às vezes levanto-me muito cedo e vou tratar das plantas e isso funciona quase como um reset. Acalma, faz muito bem.

Intraclasto
Sedimentos lavados, trabalhos dobrados

Como intraclasto, a Anabela trouxe-nos um saquinho com terra – ai, ora essa – com sedimentos! Pequena, discreta, aparentemente inofensiva, mas com estatuto: é a primeira amostra colhida para o seu doutoramento, diretamente do rio Sôrdo, afluente do Corgo, ali no Vale da Campeã (às vezes a toponímia tem sentido de humor). Foram muitas horas a lavar sedimento sujo e, como ainda não há 5àsec para lavar sedimentos, lá se foi o glamour que imaginamos para um doutoramento. Mas a água lava tudo… menos as más línguas, e estes sedimentos acabaram por se chibar: trazem metais, resultado da exploração e tratamento de minério das minas de ferro de Vila Cova, ativas até aos anos 90. O rio fez a sua parte. A Anabela fez o resto.
Geomanias
Rocha preferida? Argilito
Mineral preferido? Talvez as argilas! (risos)
Fóssil preferido? Talvez a trilobite!
Unidade litostratigráfica preferida?
A unidades jurássicas da Bacia Lusitânica
Recursos minerais metálicos ou não metálicos? Não metálicos
Era, Período, Época ou Idade preferido? Mesozoico
Trabalho de campo, gabinete ou laboratório? Gosto dos três, mas talvez tenha mais afinidade com o laboratório
Afloramento ou corte favorito? Cabo Mondego
Pedra mole ou pedra dura? Pedra mole!
Diáclase ou diaclase?
Diaclase, foi como aprendi
