Hélder Pereira

Julho 2026







ENSINO

SÓCIO APG Nº O1528

Lisboeta de origem e algarvio por acidente geológico, é professor de Biologia e Geologia e adora pôr os miúdos a fazer ciência. Não ficou a ver navios: foi tripulante do JOIDES Resolution e da Expedição 339 da IODP, contou as histórias escondidas à vista de todas nas rochas do Algarve e é agora um homem do Cretácico, dedicado aos vertebrados que então faziam "praia" por lá.

"E, mais do que os milhões de anos, os Jurássicos, os Cretácicos e todo o "geologuês", o mais importante é a relação emocional que se cria com o território e com as histórias que estão escondidas à vista de toda a gente"

Foi sob o sol algarvio de agosto, entre os estratos inclinados da Praia dos Arrifes, que fomos ao encontro de Hélder Pereira. Professor do ensino secundário por conspiração quando o aluno ainda era ele, é investigador nas horas vagas e divulgador científico sempre que lhe dão ouvidos. Nascido em Lisboa, mas com firmware alentejano, chegou ao Algarve em 1992 para ficar um semestre. Continua por lá. Bem, continua quando não está a ciriquitar pelo mundo, porque o Hélder tem uma certa dificuldade em estar quieto: entre campanhas em navios científicos, aulas em direto a partir do meio do Atlântico e publicações na Science, convenceu-se de que comunicar ciência é tão importante como fazê-la. De década em década arranja um novo desafio. Nesta calhou-lhe um doutoramento sobre o Cretácico do Algarve, onde anda a reconstruir ecossistemas costeiros com 120 milhões de anos, triando quilos de sedimentos à procura de fósseis de peixes, anfíbios, répteis, dinossauros, tartarugas e até coprólitos de térmitas. Sim, há mesmo gente para tudo. Numa altura em que tanto se discute o futuro da Geologia, talvez valha a pena lembrar que ela continua a depender, sobretudo, de bons professores, que pegam nos alunos e os convencem de que a ciência também se faz fora dos manuais e da sala de aula. Venham conhecer este geólogo que continua a acreditar que as melhores descobertas aparecem quando não sabemos bem o que estamos à procura e que, se insistirmos o suficiente, a sorte é como os fósseis dos Arrifes: sai sempre.


Entrevista 

Praia dos Arrifes, Albufeira, agosto de 2025


1. Nome, data e local de nascimento.

Hélder Pereira, 5 de julho de 1974, Lisboa.

2. Conte-nos, de forma simples, o que faz profissionalmente.

Profissionalmente sou professor do ensino secundário. Leciono biologia e Geologia, ciências naturais, e basicamente é isso: tento abrir novos horizontes à criançada, metê-los a fazer pequenos projetos de investigação, utilizando dados científicos reais, em vez de usar só o material e as figuras que habitualmente encontramos nos livros de texto. A ideia é metê-los a fazer ciência sem que eles se apercebam de que, no fundo, estão a seguir as pisadas dos cientistas. E isso tem a ver com o meu próprio percurso, porque também fui brincando aos cientistas nas diferentes fases da minha carreira. Basicamente é isso. Sou professor, provocador, estimulador de mentes e ideias. (risos)

3. Que idades têm os seus alunos?

São alunos do ensino secundário, do 10º ao 12º ano, portanto entre os 15 e os 18 anos de idade.

4. Os alunos do secundário ainda são recetivos a esse tipo de projetos ou vão perdendo o entusiasmo com a idade?

Eu vou tendo contacto, às vezes, com miúdos mais pequenos, noutras atividades que faço, em pequenos percursos guiados e visitas de estudo com alunos mais novos, e de facto é fantástico esse deslumbramento que ainda têm. Depois vão crescendo, vão filtrando cada vez mais e acabam por ter alguma vergonha de se expor e de fazer perguntas. Apesar disso, alguns deles, no secundário, mantêm essas características e é muito giro estimulá-los e fazer esse tipo de atividades também com essa malta. Aliás, antes do doutoramento fiz quase uma espécie de mestrado com um grupinho deles. Começaram no trabalho de campo, seguiram para o laboratório e, por fim, apresentaram os resultados num congresso organizado pela equipa do Rui Dias, no Centro de Ciência Viva de Estremoz [Congresso Nacional Cientistas em Ação]. Durante muitos anos fomos participando nesse evento e, para além das aulas normais e daquilo que é lecionar os conteúdos dos currículos, fui sempre fazendo um bocadinho mais, com pequenos projetos de investigação, em que eles depois tinham a oportunidade de apresentar os resultados do seu trabalho aos colegas. Alguns deles tiveram ainda a possibilidade de conhecer o professor António Ribeiro, que é uma personagem que toda a gente conhece na comunidade geológica. Agora já há uns anos que não vou, mas aquilo é espetacular. É um projeto muito giro. E, basicamente, é isso: abrir horizontes à criançada e, ao mesmo tempo, ir tendo projetos que me obriguem a ler coisas novas e a explorar.

Com alunos no Congresso Nacional Cientistas em Ação, em 2015, em Estremoz.

5. Em que ano e onde ingressou no curso de Geologia? E como reagiu a família a essa escolha?

Vim parar ao Algarve um bocadinho por acaso, em 1992. Ingressei no curso de Ensino de Biologia e Geologia, portanto fui preparado para ser professor do ensino básico e secundário. A família também não fazia muita ideia ao que eu vinha, nem imaginava que eu alguma vez pudesse vir a ser professor. Lembro-me sempre de uma história. Estava eu e umas colegas, uns meses antes, no 12º ano, a estudar em conjunto em casa de uma delas e, a certa altura, a mãe veio trazer-nos um lanche e virou-se para elas: "Ai, o vosso colega parece um professor." (risos) No fundo, estávamos ali a puxar uns pelos outros, e aquilo acabou por ser quase um prenúncio daquilo que viria a ser a minha carreira futura: enveredar pelo ensino, sem que esse fosse propriamente o meu sonho. Foi uma casualidade, mas da qual gosto muito. É uma profissão em que se lida com muita gente nova e, lá está, em que podemos estimulá-los, desenvolver o espírito crítico e levá-los a ver o mundo com outros olhos. É, de facto, uma profissão muito... falta-me agora a palavra... muito rewarding. (risos) Raios partam! Só me vem "reconfortante", mas não tem nada a ver. É rewarding, pronto. Que desgraça, estou a precisar de férias. (risos) [gratificante]

6. Porque veio parar ao Algarve?

Mero acaso, mero acaso. Vim cá parar aos trambolhões. As minhas origens são alentejanas, mas nasci e cresci em Lisboa. Quando chegou a altura do acesso ao ensino superior, nem fazia ideia de que existia a Universidade do Algarve. Havia aqueles livrinhos com os guias de acesso ao ensino superior, onde apareciam os cursos. Não havia internet nem nada dessas coisas. Concorri a um número limitado de opções, não entrei na primeira fase e vim cá parar nas vagas da segunda ou terceira fase. Supostamente era para passar aqui um semestre e voltar à capital. Mas, ao fim de seis meses, percebi que estava onde queria e que era um sítio espetacular. Comecei a viajar um pouco pelo interior e aquilo fez-me lembrar a serra, um pouco as minhas origens do Alto Alentejo, com os xistos… lá está, já havia ali qualquer coisa da Geologia a germinar. Fui ficando. Nunca mudei de curso, fui fazendo outras atividades paralelas, mas acabei por ficar. E é um sítio que, tirando o querido mês de agosto, tem uma enorme qualidade de vida. Conseguimos facilmente chegar ao mar, às arribas, e temos sítios fantásticos para trabalhar e visitar.

Numa saída de campo, com Rui Dias (UE) e Alexandre Araújo (UE), em 2007.

7. E porque escolheu o curso de Ensino de Biologia e Geologia?

Também porque queria ser biólogo. Agora isto é quase um sacrilégio dizer... (risos) O meu sonho, como o de muita gente da minha geração, a qual cresceu a ver os documentários da BBC no fim de semana, com o David Attenborough, era por aí. A comunicação era extraordinária e cresci a pensar que, quando fosse grande, queria fazer uma coisa parecida. Foi daí que veio a paixão pela biologia. A Geologia apareceu quase como um complemento. Na escola, na altura, praticamente nem lhe chamavam Geologia. Falava-se um bocadinho de rochas e minerais dentro da geografia, no ensino básico, ali no final dos anos 80. Depois entrei no curso. O primeiro ano foi aquele ano mais chato, com as matemáticas, as físicas, os cadeirões... Mas, mais tarde, quando começámos a ir para o campo, aí apaixonei-me pela Geologia, porque comecei literalmente a ver o mundo com outros olhos. Percebi que está tudo ligado: a rocha dá origem ao solo, o solo condiciona a vegetação, a vegetação condiciona a fauna, e por aí fora. Foi uma descoberta.

8. E quando percebeu que era mesmo a Geologia que queria seguir?

Diria que a partir do segundo ano, com as primeiras saídas de campo. No início parecíamos burros a olhar para um palácio. A primeira vez que uma pessoa tenta interpretar um afloramento, ainda não tem os olhos treinados. Mas isso também é fascinante. E foi precisamente essa parte que ainda hoje continua a entusiasmar-me: perceber que existem histórias escondidas à vista de toda a gente. As histórias que as rochas e as paisagens nos contam. É isso que ainda hoje me mantém completamente apaixonado pela Geologia.

9. No fundo, acabou por fazer as pazes com a biologia através da Paleontologia…

É verdade. (risos) A Paleontologia acabou por ser, no fundo, o melhor dos dois mundos.

10. Quem foram os professores que mais o marcaram durante o curso?

Lembro-me muito bem da professora Delminda Moura, que nos deu Geologia do Quaternário. Foi uma das primeiras disciplinas verdadeiramente dentro das Geociências. Na altura, ela estava também a terminar o doutoramento e tinha tudo muito fresco. Andámos pelo Algarve Central a estudar as famosas areias de Faro-Quarteira, que na altura ainda levantavam alguma discussão relativamente à sua idade. Depois veio a Formação Lagos-Portimão, os primeiros fósseis da região, os pectinídeos, os ouriços... Foi assim que comecei a conhecer melhor a história geológica do Algarve. Tivemos também uma disciplina absolutamente fantástica: Geologia de Portugal. Como éramos a primeira turma do curso e ainda não havia docentes da casa para assegurar essa cadeira, convidaram três grandes nomes da Geologia portuguesa. O Paleozoico foi dado pelo professor Tomás Oliveira, o Mesozoico pelo professor Miguel Ramalho e o Cenozoico pelo professor Galopim de Carvalho. Foi um privilégio. Foi mesmo espetacular. Aprender diretamente com aquelas pessoas foi uma oportunidade única. Na altura não havia ninguém no quadro da faculdade para assegurar essa disciplina, e fizeram o convite a esses três grandes vultos. Mais tarde mantive contacto com o Tomás, porque acabámos por ser cofundadores da Associação DPGA [Associação para a Defesa e Divulgação do Património Geológico do Alentejo e Algarve], ligada à divulgação e proteção do património geológico. Era impressionante vê-lo trabalhar. Pegava numa cana, apontava para um mapa geológico à escala 1:500 000 e começava a falar de um afloramento específico com um detalhe extraordinário. Foi realmente aprender com os melhores. Chegou a estar prevista uma saída de campo para conhecermos alguns locais paleozoicos por aqui, mas acabou por nunca se concretizar. Depois fui-me dedicando cada vez mais a aprender a história geológica do Algarve, que é extraordinária e envolve vários oceanos, o nascimento e a destruição de cadeias montanhosas.

Vista para a "biblioteca" da Praia dos Arrifes, "escritório" do doutoramento do Hélder.

"Sou professor, provocador, estimulador de mentes e ideias."

11. Acabou por assistir, enquanto estudante, à grande evolução do conhecimento sobre a Geologia do Algarve durante os anos 90…

É verdade. Foi precisamente nessa altura que muito desse conhecimento estava a ser construído e tive o privilégio de acompanhar essa evolução.

12. Quando era estudante universitário, considerava-se um aluno médio, bom ou muito bom?

Um aluno bom. Ainda há pouco tempo fui procurar as classificações e terminei o curso com média de 16 valores.

13. Isso era uma média muito boa para a altura, que antigamente a escala não era como é hoje. E era um aluno mais calado ou mais participativo?

Dependia das situações. Em contexto de sala de aula era mais calado. Nas saídas de campo era bastante mais participativo.

14. Envolvia-se também em atividades extracurriculares?

Sim, desde o início! Como eu já tinha o bichinho da ciência e o curso era vocacionado para o ensino, nós sabíamos que, no final, aquilo que nos esperava era a profissão de professor. Mas eu queria experimentar fazer ciência. Por isso ofereci-me para fazer trabalho voluntário, o chamado trabalho de escravo. (risos) Andei a ajudar uma colega mais velha, que estava a estudar a erosão costeira nas arribas entre Quarteira e Vale do Lobo, e esse foi o meu primeiro contacto com a forma como se faz ciência a sério: saídas de campo, recolha de dados, tratamento da informação...

15. Quem era essa colega?

Era a Filomena Correia. Já há muitos anos que não a vejo. Creio que depois acabou por trabalhar como funcionária pública, penso que num município, já nem me recordo se em Faro ou em Olhão. Na altura estava a fazer a tese de mestrado e eu ajudava-a nas tarefas de medição. Havia pontos de controlo onde íamos acompanhando o recuo das arribas ao longo dos invernos. É um processo descontínuo, mas havia anos em que desapareciam dez metros de arriba de uma só vez. Era impressionante. E foi por essa altura, ainda durante a licenciatura, que surgiu a oportunidade de apresentar uma comunicação num congresso. Na altura organizava-se aqui um encontro regional, o Congresso do Algarve, onde havia comunicações de várias áreas, incluindo a científica. Acabei por dar continuidade a esse trabalho sobre o recuo das arribas e foi aí que tive a minha primeira experiência como aprendiz de cientista.

16. Qual foi a disciplina de que mais gostou durante o curso?

Tive disciplinas muito giras na área da biologia, claro, mas dentro da Geologia creio que a disciplina de que mais gostei foi Geologia de Portugal. Perceber que aquelas três pessoas reuniam tanto conhecimento condensado em tão pouco tempo foi extraordinário. Era uma disciplina lecionada de forma muito intensiva, mas foi também aí que tomei verdadeira consciência da geodiversidade do nosso país e de quão diverso é este cantinho à beira-mar plantado. Apesar de ser um território pequeno, Portugal é muito diverso do ponto de vista geológico, e isso vê-se logo na carta geológica, na enorme variedade de cores que apresenta.

"(...) isto é como os melões: só sabemos se são bons depois de os abrir. Com as turmas acontece exatamente o mesmo"

17. É uma disciplina que, embora com a redução de anos da licenciatura vá perdendo o carácter obrigatório, dá uma visão de conjunto da Geologia portuguesa.

Precisamente. Depois, mais tarde, tudo isso foi fazendo ainda mais sentido, à medida que fui acompanhando o acumular de conhecimento sobre a Geologia de Portugal. Nesse aspeto também foi muito interessante ler, há pouco tempo, os livros do Rui Dias, em que ele conta a história geológica do país numa linguagem muito acessível. Falta apenas o terceiro volume!

18. Na sua vida profissional, o que lhe dá mais prazer? E o que menos gosta de fazer?

Na minha atividade principal, que é o ensino, aquilo de que mais gosto é do contacto diário com os alunos, sobretudo das aulas práticas e, obviamente, das saídas de campo. Aquilo de que menos gosto é da burocracia. Da papelada. Detesto fazer atas. No ensino secundário estivemos, durante algum tempo, um pouco à margem desse aumento da burocracia, mas ela também já nos chegou. Cada vez há mais formulários para preencher e mais tarefas administrativas. Sempre que me calha fazer a ata de uma reunião de departamento tento despachá-la o mais depressa possível.

19. Ano letivo após ano letivo, sente algum desgaste ou continua a manter o entusiasmo?

De um modo geral há algum desgaste, mas isto é como os melões: só sabemos se são bons depois de os abrir. Com as turmas acontece exatamente o mesmo. Há turmas com quem é um enorme prazer trabalhar. Muitas vezes os alunos são o espelho daquilo que têm em casa. Quando trazem de casa aquilo que não devia ser a escola a ensinar – educação, respeito, responsabilidade – tudo se torna muito mais fácil. Quando isso não acontece, quando há dificuldades em cumprir regras, chegar a horas ou perceber que os resultados dependem do esforço e da dedicação, torna-se naturalmente mais difícil trabalhar com essas turmas. Mas continuo a gostar muito daquilo que faço. Costumo dizer aos meus amigos que o dia em que começar verdadeiramente a queixar-me será sinal de que está na altura de mudar de vida. Felizmente esse dia ainda não chegou. Apesar de nunca ter sonhado ser professor, continua a ser uma profissão que me dá muito gozo.

A preparar uma maquete com alunos em 2007.

20. Mas agora é também aluno! Conte-nos como surgiu esta decisão do doutoramento.

Durante dois anos trabalhei com um grupinho de alunos num projeto em que andámos a estudar os depósitos mais recentes daqui, do Neogénico, da Formação de Lagos-Portimão. Para além dos abundantes fósseis de gastrópodes e bivalves, em particular pectinídeos, ouriços-do-mar e por aí fora, também abundam restos de peixes. Começámos a levar material para o laboratório, a lavar e a triar, e eles foram acompanhando as várias etapas do processo científico. Pelo meio começaram a aparecer outros restos fósseis que não podiam ser da mesma idade. Morfologicamente eram diferentes e percebi que se tratava de material acumulado, proveniente das unidades do Cretácico que aqui também afloram. Isso desencadeou todo um processo de pesquisa mais exaustiva desse material in situ, precisamente durante a pandemia. Estávamos todos fartos de estar em casa e contactei um antigo aluno meu, a quem eu já tinha falado deste sítio. Aluno esse de quem costumo dizer, na brincadeira, "Bem, dei cabo da vida do rapaz", porque acabou por escolher Geologia, penso eu que por influência de algum professor... (risos)

21. Esse aluno é o Filipe Ribeiro [FCUL], que está atualmente na Suécia?

É esse mesmo! O mundo é pequeno. Foi com o Filipe que voltámos aqui ao campo e, ali na livraria da Praia dos Arrifes, numa das lombadas da arriba, encontrámos uma pequena placa dentária de um peixe picnodontídeo. A partir daí foi começar a fazer o perfil, identificar os níveis mais ricos em material, levar umas sacadas para o laboratório e... foi o início da história. Depois a ciência tem destas coisas: nunca sabemos o que vamos encontrar. Foi fantástico perceber que, para além dos peixes, havia muito mais histórias escondidas ali. E é isso que estamos a tentar fazer: contar essa história, juntando as várias peças do puzzle. Já a parte do doutoramento, era uma ideia que já me tinha passado pela cabeça e que fazia parte dos meus projetos de vida há muitos anos. Depois, por várias razões, nunca se proporcionou. Nunca tinha encontrado um tema que me fizesse dizer: "É isto mesmo que eu gostava de estudar." Entretanto, a vida foi dando muitas voltas. Fui fazendo uma série de outras coisas para além do ensino, adquirindo outras competências e acumulando outras experiências. Depois, parece que tudo se encaminhou para chegarmos a este ponto. Estou a utilizar técnicas relativamente simples, que também não exigem um grande investimento, e isso permitiu aproveitar o tempo da pandemia e do pós-pandemia para ir executando as várias etapas deste projeto. A partir de determinada altura percebemos que tínhamos em mãos uma série de material inédito que não fazia sentido ficar perdido numa gaveta de uma coleção privada. Foi aí que resolvi avançar com um projeto de doutoramento. O objetivo é terminá-lo no próximo ano e, depois, continuar a fazer prospeção e explorar outros locais da região, porque certamente há mais sítios para descobrir.

22. Quando é que vamos poder conhecer os resultados?

Daqui a um ano! Os vários capítulos estão a ser preparados e darão origem a várias publicações. Algumas já estão praticamente concluídas, outras ainda em preparação. Mas, dentro de um ano, teremos um conjunto de histórias muito interessantes para contar.

23. Nisto da investigação, o que o entusiasma mais: descobrir um novo local, fazer o trabalho de campo ou analisar o material no laboratório?

Complementam-se. O campo é, sem dúvida, primordial. Por muito desenvolvimento tecnológico que exista, nada substitui o trabalho de campo. Mas, neste tipo de investigação que estou a desenvolver, depois do campo vêm muitas horas de laboratório, a processar amostras, lavar sedimentos e fazer a triagem. E isso é igualmente entusiasmante. Ainda me lembro do momento em que encontrei o primeiro dente de lagarto. Pensei logo: "Epá, isto é uma coisa diferente. O que será?" Depois começa o trabalho de procurar na bibliografia, comparar e tentar perceber a que grupo pertence aquele espécime. Acho que é precisamente esse equilíbrio entre o campo e o laboratório que torna este trabalho tão apaixonante.

24. Foi essa a descoberta que mais prazer lhe deu?

Sim! Material fóssil de peixe, de diferentes tipos, quer tubarões, raias, quer peixes ósseos, é bastante abundante. Outros grupos são mais raros e esse, em particular, foi o que me deu mais gozo, porque foi completamente inesperado. Estamos aqui numa sequência que, do ponto de vista sedimentológico, sabemos que corresponde a um ambiente marinho e, de repente, começamos a encontrar fósseis de organismos que viveram em terra. O desafio passa então a ser imaginar e perceber como é que conseguimos contar esta história, para que as peças todas encaixem umas nas outras. E foi engraçado porque começou por aparecer só um. Depois, na mesma garrafinha onde estava armazenado temporariamente aquele sedimento, apareceu mais um, e mais um, e mais um. E começaram a surgir outros exemplares, inclusivamente com morfologias distintas. Neste caso em particular conseguimos chegar ao género, o Meyasaurus. São dentes bicúspides muito pequeninos, estamos a falar de coisas com cerca de um milímetro de altura, da base da coroa até ao ápice. E isso é giro. Para mim, o que continua a fazer-me querer vir buscar mais sedimento, lavá-lo e passar mais umas horas a triar é precisamente esta expetativa de saber o que vai surgir a seguir. Aquilo que inicialmente era para ser um trabalho em que íamos descrever a ictiofauna, os peixinhos, de repente passou a ser muito mais do que isso. Começaram a aparecer restos de lagarto, salamandra, rã, dinossauro e tartaruga. E é incrível imaginar todo esse ecossistema em funcionamento aqui.

25. Depois do Cretácico, o próximo passo é o Paleozoico? Tem vindo a descer desde o Quaternário, é uma tendência natural! (risos)

(risos) É uma tendência natural! Já houve alguma prospeção no Jurássico e o Paleozoico não está completamente posto de lado. É um tema que não está completamente arrumado. Talvez um dia, quando houver tempo para isso...

26. A vida não dá nem para um décimo do que gostaríamos de fazer…

Não dá, aliás, é a tal história: isto foram pouco mais de 500 quilos de sedimento, mas podia continuar aqui com mais quinhentos, mais mil, e ia ter sempre material. Eu costumo dizer "Sai sempre!" (risos) Temos é de definir limites. Daí também o projeto de doutoramento ter um limite temporal. Mas a descoberta mais inusitada foi outra. No meio do sedimento começaram a aparecer umas coisinhas com uma forma muito peculiar. Estamos a falar de coisas com cerca de um milímetro, mas tinham umas faces muito características, pareciam pequenos hexágonos. Em corte transversal eram mesmo hexagonais. E eu não fazia ideia do que aquilo era. Já desde o trabalho anterior, com os alunos no Neogénico, tínhamos uma estratégia: quando não sabíamos o que era uma coisa, metíamo-la de lado. E fui guardando aquilo nuns tubinhos até que, um dia, estou a procurar na bibliografia alguma coisa com aquela forma hexagonal e salta-me à vista um artigo em que descreviam precisamente aquilo que eu tinha posto de lado. E, para surpresa minha – até fico com pele de galinha quando conto isto – percebi que tinha ali coprólitos de insetos, de térmitas. É incrível quando percebemos que temos ali uma coisa que ninguém tinha visto! (risos) Depois fizemos uma pequena publicação sobre isso no último Congresso Nacional de Geologia [XI CNG, Coimbra, 2023].

"(...) até fico com pele de galinha quando conto isto – percebi que tinha ali coprólitos de insetos, de térmitas."

27. Ora, nunca tinha visto ninguém ficar tão emocionado com... cocó! (risos)

(risos) É a emoção da descoberta, aquele momento em que percebemos "Olha, afinal é isto que está aqui." Quando vi, na bibliografia, um trabalho de colegas franceses que tinha fotografias exatamente daquele material, fez-se aquele momento eureka! Depois, uma vez mais, tudo começa a fazer sentido. Temos lagartos, rãs, dinossauros, tudo depositado num ambiente marinho costeiro. Isso quer dizer que a linha de costa não estaria muito longe. O material foi transportado, está todo partidinho, coitadinho, mas o transporte não terá sido assim tão longo para que ficasse preservado no meio dos sedimentos marinhos. Às vezes conto estas histórias aos miúdos porque isto mostra bem como a ciência funciona. A gente pensa que vai fazer uma coisa e acaba por descobrir outra completamente diferente. A vida dá muitas voltas. Quando eles me dizem "Eu quero ser médico", "Eu quero ser engenheiro", "Eu quero ser piloto de aviões", digo-lhes sempre para seguirem aquilo de que realmente gostam. Porque, quando fazemos aquilo de que gostamos, a probabilidade de o fazermos bem é muito maior do que se o fizermos só porque dá dinheiro, porque está na moda ou porque os amigos escolheram aquele curso.

28. Há algum geólogo, contemporâneo ou não, que admire particularmente?

Sem dúvida. Tive o privilégio de conhecer, ao longo da minha carreira, algumas das grandes figuras da Geologia portuguesa, como o António Ribeiro, o Galopim de Carvalho, o Miguel Ramalho ou o Tomás Oliveira. Mas, se tiver de escolher apenas um nome, escolho alguém que já não está entre nós: Paul Choffat. Apesar de não ser português de nascimento, foi um dos grandes pioneiros da Geologia em Portugal. Publicou centenas de trabalhos em áreas muito diferentes, incluindo paleontologia, sedimentologia e estratigrafia algarvia, e acabou também por ser o pioneiro da paleontologia de vertebrados no Algarve. A primeira referência a vertebrados do Mesozoico algarvio é precisamente dele, quando incluiu o peixe do género Pycnodus numa lista de fósseis da Praia da Luz, perto de Lagos. No fundo, todo este trabalho que estou agora a desenvolver acaba por ter origem nessa primeira descoberta. Vivi muitos anos a estudar o Algarve mais recente: o atual, o Quaternário, os mares tropicais do Tétis que deram origem ao Barrocal. Agora sou um homem do Cretácico, a explorar os mares do Cretácico. Tenho um enorme respeito por Choffat e dá-me muito gozo sentir que, de alguma maneira, estou a dar continuidade ao trabalho que ele começou. Foi ele quem colocou o Cretácico algarvio no mapa. Sem dúvida, Paul Choffat.

Durante a quarentena de 2020, na Praia dos Arrifes, com o geólogo e ex-aluno Filipe Ribeiro.

"(...) quando fazemos aquilo de que gostamos, a probabilidade de o fazermos bem é muito maior do que se o fizermos só porque dá dinheiro, porque está na moda ou porque os amigos escolheram aquele curso"

29. O Choffat este ano está em alta, já é o terceiro entrevistado a escolhê-lo.

Há um aspeto de que gosto particularmente. Choffat esteve duas vezes no Algarve. A primeira em 1881, percorrendo Sagres, Portimão, Lagos e Loulé. Depois voltou em 1887 para completar o trabalho que viria a dar origem a uma publicação absolutamente marcante para a Geologia algarvia. É nesse trabalho que aparece a primeira descrição, ainda que muito simples, da sucessão dos Arrifes. Chama a atenção para a verticalização dos estratos e identifica inclusivamente aquele nível riquíssimo em orbitolinídeos que se destaca dos restantes. É difícil não ficar entusiasmado ao ler esse texto e perceber que, mais de um século depois, continuo a andar exatamente pelos mesmos sítios por onde ele andou.

30. E qual é a sua publicação favorita em Geologia?

Sem dúvida, esse trabalho de Choffat: Recherches sur les terrains secondaires au sud du Sado, publicado em 1887. É aí que faz a descrição da Geologia de parte do Alentejo e do Algarve e onde surge a primeira referência aos Arrifes, ainda sem esse nome. Na altura fala apenas de uns afloramentos a ocidente de Albufeira, cidade que era a grande referência geográfica.

A bordo do Marion Drusfene, em 2008, no programa Teachers at Sea.

31. Qual foi o momento mais marcante da sua carreira até agora?

Também andei a matutar um bocadinho sobre isso. Afinal não é um momento, são vários, mas todos ligados entre si. Em 2008 participei num programa patrocinado pela União Europeia de Geociências, o Teachers at Sea. Passei um mês a bordo do navio francês Marion Dufresne, juntamente com mais quatro professores, a fazer a ponte entre a ciência que era realizada a bordo e quem estava em terra, os nossos alunos e o público em geral. As condições de comunicação eram muito limitadas. Basicamente recebíamos um e-mail por dia, respondíamos, e a resposta só chegava a terra no dia seguinte. Na sequência dessa experiência fui convidado para participar na Assembleia Geral da American Geophysical Union, em São Francisco, onde fiquei a saber que o JOIDES Resolution, que tinha sido recentemente modernizado, ia lançar um programa semelhante, chamado School of Rock. Tive a felicidade de ser um dos dois europeus selecionados. Mas o momento mais marcante surgiu dois anos depois. Candidatei-me ao Integrated Ocean Drilling Program para desempenhar funções de Education Officer, fazendo novamente a ligação entre a ciência produzida a bordo e quem estava em terra. Tive, uma vez mais, a felicidade de ser selecionado, com a vantagem de já ter estado a bordo do navio e de ter um conhecimento prévio, e voei para Ponta Delgada, embarcámos a 16 de novembro de 2011. Vimos aqui para o Golfo de Cádiz, margem ocidental ibérica, ali no esporão dos príncipes de Aviz, e fizemos uma série de sondagens e recolhemos carotes de sedimentos para contar a história da interação da água do mar do Mediterrâneo e do Atlântico e a relação com as oscilações climáticas. Portanto, ciência de ponta, que depois acabou por culminar numa publicação na Science, uns anos mais tarde, da qual acabei por ter a felicidade de ser coautor. Embora isto da felicidade… a sorte dá muito trabalho. Foram dois meses absolutamente intensos. Provavelmente trabalhei mais nesses dois meses do que em seis meses em terra. O regresso foi duro, porque foi preciso voltar às rotinas normais. Mas, para mim, o momento alto, ao longo desses dois meses, foi outro. Fiz mais de 30 videochamadas. Tinha um computadorzito com uma câmara e tínhamos internet a bordo, o que permitia fazer essas ligações em direto. Tive literalmente a oportunidade de dar duas aulas, a partir do JOIDES Resolution, aos meus alunos que tinham ficado em terra. E, dois meses mais tarde, regressámos. Decidimos atracar em Lisboa, a minha cidade natal, e aí estavam a minha família, amigos e, inclusivamente, os meus alunos, que fizeram uma visita de estudo ao navio e tiveram oportunidade de ver onde é que eu dormia, onde é que comia. Foi, de facto, espetacular. E volta-me aqui a pele de galinha quando conto isto. Foi um momento superintenso e supermarcante. E mal sabia eu que muitas das técnicas que vi utilizar no laboratório de micropaleontologia, com os foraminíferos e aquelas coisas todas, são, no fundo, as mesmas técnicas que hoje utilizo quando trabalho com os micro-restos de vertebrados.

A bordo do JOIDES Resolution, como parte do programa School of Rock do IODP, em 2009.

32. Isso é espetacular! Eu não fazia ideia disto.

Pois, estes eventos foram acontecendo, mas estão todos ligados entre si. Resultam de uma característica muito minha: não aceitar um "não" como resposta e não desistir. Para participar naquele primeiro programa de professores a bordo tive de enviar sete e-mails até obter uma resposta. Muitas pessoas teriam desistido muito antes. Eu queria mesmo muito aquela oportunidade e nunca desisti. E o que é certo é que, a partir dessa primeira experiência, abriram-se uma série de portas que acabaram por marcar toda a minha vida profissional e pessoal. Ainda hoje mantenho contacto com algumas das pessoas que conheci nesses navios. É isso que digo muitas vezes aos miúdos: nunca desistam. Vão sempre atrás dos vossos sonhos, sejam eles quais forem.

"Tenho um enorme respeito por Choffat e dá-me muito gozo sentir que, de alguma maneira, estou a dar continuidade ao trabalho que ele começou."

33. E um artigo na Science, não há muitos por cá que o possam dizer.

Sim. Mas, ao mesmo tempo, acabou por acontecer porque fiz mais do que aquilo que esperavam de mim. Quando embarquei, muitos dos cientistas nem faziam ideia de que ia haver uma pessoa dedicada à educação e comunicação. Nos primeiros dias tive de lhes explicar qual era o meu papel, "Vou fazer isto, o meu objetivo é este." No início eles queriam era fazer a ciência deles. "Porque é que está aqui um educador?" Era essa a atitude. E foi muito giro ver como isso foi mudando ao longo dos dois meses. Inicialmente tinha de ir bater às portas e pedir colaboração. Havia alguns colegas que já estavam mais predispostos, até porque a expedição decorria essencialmente em águas nacionais. A Antje Voelker, por exemplo, que trabalha há muitos anos no IPMA, já me conhecia e colaborava. Depois ia falando com este, com aquele e com o outro, organizava as videochamadas e, no fim de cada sessão, havia sempre um momento em que os alunos podiam fazer perguntas diretamente aos cientistas. No início eram sempre os mesmos investigadores a participar. Mas, no fim da campanha, até os colegas japoneses estavam a contactar os antigos professores das escolas secundárias onde tinham estudado para fazer ligações em direto com os seus alunos. Foi muito interessante assistir a essa mudança de atitude e perceber que eles próprios começaram a valorizar a importância de comunicar a ciência que estavam a fazer. E isso é fundamental. Se queremos continuar a ter cientistas, temos de continuar a entusiasmar as novas gerações para as geociências. Há vários trabalhos internacionais que mostram um desligamento cada vez maior entre os estudantes e esta área. É preciso motivá-los, explicar-lhes a importância da geodiversidade e da Geologia. Caso contrário, qualquer dia toda a gente quer trabalhar apenas com computadores, modelos e inteligência artificial, e esquecemo-nos de olhar para o terreno.

34. Teme que esse afastamento das geociências se esteja a acentuar?

Sim. E acho que algumas mudanças recentes também não ajudam. Veja-se, por exemplo, esta mudança de orientação da FCT, com uma aposta muito forte na ciência aplicada e na componente económica. Vamos ver o que isso traz no futuro.

35. Bem, estamos habituados, sobretudo, à história da vida monótona no ensino, e aqui temos um professor que parece que a cada década inventa uma coisa diferente. Voltamos aqui em 2030 para ver qual é a próxima maluqueira! (risos) Houve algum momento profissional em que se tenha sentido particularmente frustrado?

Sim. Há dois anos fui convidado pela Universidade do Algarve para lecionar as aulas práticas de Geologia Marinha aos alunos do primeiro ano de Biologia Marinha. Foi um desafio enorme tentar transmitir este entusiasmo pelas geociências a alunos que, naturalmente, entraram no curso porque querem estudar golfinhos, baleias e organismos marinhos. Investi muito tempo na preparação das aulas, mas fui ficando frustrado. Tentei explicar-lhes que, mesmo querendo estudar um peixe, uma alga ou uma pradaria marinha, é impossível compreender esses organismos sem perceber também o sedimento, a geodiversidade e os processos geológicos. Senti que não consegui motivá-los suficientemente para estas questões. Foi talvez a situação em que me senti menos competente enquanto professor. Depois percebi, conversando com colegas, que não era um problema exclusivamente meu. Mas custou-me. Fiquei mesmo frustrado. Ao mesmo tempo, olhando para trás, também não sinto qualquer arrependimento por nunca ter seguido uma carreira académica. Durante alguns anos pensei que talvez esse fosse o caminho, mas fui fazendo tantas outras coisas pelo percurso que dificilmente teria tido oportunidade de viver todas estas aventuras se tivesse seguido um percurso mais convencional.

A visita de alunos e família ao JOIDES Resolution, em 2012.

36. Via-se a fazer alguma coisa noutra área das geociências, ou mesmo fora delas?

Sim! Para além da minha atividade principal, que é o ensino, e desta perninha que vou dando enquanto investigador a tempo parcial, há uma outra vertente de que gosto muito, que é a comunicação de ciência. Em conjunto com outro colega de profissão, o meu amigo Francisco Lopes, fazemos uma coisa muito simples: emprestamos os nossos olhos às pessoas para descodificar e contar as histórias que estão escondidas nas rochas e nas paisagens aqui do Algarve. Ele é louletano, tem uma ligação muito forte à região. Eu aprendi a gostar dela e apaixonei-me por ela pouco tempo depois de cá ter chegado. É uma atividade complementar às nossas outras ocupações e dá-nos um enorme gozo promover a geodiversidade, a Geologia em geral e a Geologia do Algarve em particular, numa perspetiva de popularização da ciência. O mais giro é o retorno das pessoas. Para muita gente, as geociências continuam a ser uma ciência quase oculta, com um linguajar muito específico e um bocadinho inacessível ao comum dos mortais. E nós adotámos uma estratégia que agora está muito em voga: contar histórias. Eu cresci a ouvir as histórias do Lobo Mau e dos Três Porquinhos à lareira, contadas pela minha bisavó e pela minha avó, no Alentejo. Tenho memórias muito vivas desses serões junto da fogueira. E é um bocadinho esse entusiasmo do "Era uma vez..." que tentamos transportar para estas saídas de campo. As pessoas, à partida, nem sabem muito bem ao que vão, mas no fim dizem-nos quase sempre que gostaram imenso. E, mais do que os milhões de anos, os Jurássicos, os Cretácicos e todo o "geologuês", o mais importante é a relação emocional que se cria com o território e com as histórias que estão, uma vez mais, escondidas à vista de toda a gente. Há uma história deliciosa que não resisto contar. Num afloramento do Paleozoico temos pelitos e grauvaques intercalados, mas num flanco invertido de uma dobra. Então contamos a história do "fundo do mar invertido". E houve uma pessoa que, no fim da saída de campo, a única coisa que guardou foi precisamente essa história. Tudo o resto – os 320 milhões de anos e afins – desapareceu. O que ficou foi aquela imagem. E isso é espetacular.

"(...) uma característica muito minha: não aceitar um "não" como resposta e não desistir"

37. Tem algum hobby ou talento menos conhecido?

(risos) Faço umas macacadas com a minha sobrinha. Temos concursos para ver quem consegue chegar com a língua ao nariz. Esse é um talento escondido: eu consigo. Mas não vou demonstrar. (risos) Entretanto, comecei, há alguns anos, uma coleção de livros antigos.

38. Livros antigos de Geologia? Eu também sofro dessa doença.

Há de tudo, mas sobretudo dentro das Ciências Naturais. Comecei a procurar primeiras edições da Deriva dos Continentes, de Wegener, as primeiras edições das Comunicações Geológicas... Uma das aquisições que mais prazer me deu foi encontrar, num alfarrabista, os primeiros oito volumes das Comunicações Geológicas. É uma raridade. O bichinho pegou-mo o Pedro Callapez. Quando fui defender o projeto de tese fiquei em casa dele e ele tem uma coleção impressionante. Aquilo mete respeito. Claro que são muitas décadas de colecionismo. Eu comecei por brincadeira e, entretanto, já lá vão alguns anos. Já consegui arranjar também o Sauvage, a primeira grande obra dedicada aos vertebrados fósseis portugueses, com material recolhido pelo Choffat e por outros autores. Às vezes os alfarrabistas nem fazem ideia do que têm em mãos. Os leilões também são um vício... agora já acalmei, mas nos primeiros tempos foi terrível! (risos)

39. Qual foi o lugar mais bonito que visitou por causa da Geologia?

Este [Praia dos Arrifes, Albuferia] continua a ser o meu afloramento de eleição, mas, falando de locais mais marcantes, tenho de escolher três, todos eles ligados ao vulcanismo. Por ordem cronológica: o Piton de la Fournaise, na ilha da Reunião; os Capelinhos, no Faial; e, mais recentemente, a Islândia. Talvez precisamente por serem tão diferentes daquilo a que estamos habituados. Nós, aqui em baixo, vivemos rodeados de calcários e calcarenitos. Para vermos paisagens verdadeiramente diferentes temos de ir às ilhas vulcânicas. Sempre tive curiosidade em assistir a uma erupção. Das duas vezes que estive na ilha da Reunião tinha havido erupções pouco antes da minha chegada, mas ainda não tive esse privilégio. Cada um destes sítios marcou-me à sua maneira, mas todos têm esse elemento comum: o vulcanismo.

40. Se pudesse viajar no tempo geológico e assistir a um acontecimento da história da Terra, qual escolheria?

Essa é mais fácil! Gostava mesmo de recuar uns 120 milhões de anos e observar, como simples espectador, tal e qual como se estivesse a ver um documentário da BBC Vida Selvagem, toda esta bicharada de que tenho encontrado os vestígios. Gostava de ver os lagartos, os dinossauros e toda esta fauna, vivinha da silva, a interagir uns com os outros. Claro que num sítio relativamente seguro, porque também existiria por aqui fauna menos simpática. (risos) Era poder observar esta zona com as suas lagunas costeiras, junto ao mar. Os saurópodes pachorrentos a passear à procura de vegetação e, num pequeno lago ou junto a uma linha de água, os crocodilomorfos, as rãzinhas e essa bicharada toda. Acho que seria isso.

41. E qual seria a bebida de eleição para assistir a esse espetáculo?

Uma aguinha de coco! (risos) Mas é engraçado porque, entretanto, para além dessa bicharada toda, comecei também a descobrir as carófitas. Nunca tinha visto carófitas. Na altura fui bater à porta de um colega espanhol para as estudar e há aqui também toda uma flora que certamente merece ser investigada. Portanto, esta história ainda está longe de estar terminada. Não percam o próximo episódio, porque nós também não.


Intraclasto

Pisa-papéis cretácico

Há geólogos que encontram fósseis depois de meses de prospeção. O Hélder encontrou este enquanto era acompanhado por uma gata preta vadia que decidiu assumir funções de assistente de campo. Entre um "miau" e outro, a estagiária insistiu, ele baixou os olhos e lá estava, perdido entre os calhaus da Praia dos Arrifes, um fragmento de vértebra de um peixe ósseo. Não estava in situ, não vai mudar a história da Paleontologia portuguesa e, provavelmente, nunca passará de um pequeno achado fortuito. Mas os intraclastos nunca foram sobre as pedras. São sobre as histórias que elas carregam. Hoje serve de pisa-papéis. A gata, essa, nunca chegou a assinar o artigo.


Geomanias

Rocha preferida? Sienito nefelínico de Monchique

Mineral preferido? Corindo, variedade rubi

Fóssil preferido? Dentinho bicúspide de Meyasaurus

Unidade litostratigráfica preferida? As várias formações do Cretácico Inferior do Algarve

Era, Período, Época ou Idade preferido? Cretácico

Trabalho de campo, gabinete ou laboratório? Campo e laboratório

Afloramento ou corte favorito? Estamos nele: a livraria da Praia dos Arrifes



Recursos minerais metálicos ou não metálicos? Metálicos

Pedra mole ou pedra dura? Pedra mole, que é mais fácil de lavar e de triar

Diáclase ou diaclase? Diaclase.


Teaser da Entrevista