Carlos Nascimento

Outubro 2026






RECURSOS MINERAIS

SÓCIO APG Nº O711

Natural de Lousa, Torre de Moncorvo, cresceu a olhar para o Cabeço da Mua. Formado na FCUP, despertou para o ambiente antes de ser tendência e colaborou num dos primeiros estudos de impacte ambiental do país. Começou nos caulinos e subiu ao ouro em Valongo. Há duas décadas na Tunísia, entre chumbo, zinco, fluorite e barite, gere projetos de prospeção e se é para fazer, faz.

"Mas é uma das coisas de que mais gosto na Geologia: o logging. Mais do que de afloramentos, gosto é de tarolos."

Foi na Praia de Lavadores, dos famosos granitos homónimos, que fomos ao encontro de Carlos Nascimento. Nascido na Lousa, em Torre de Moncorvo, cresceu com o Cabeço da Mua no horizonte, hipnotizado entre histórias de volfrâmio e um avô que abria poços a tiro. Explosões à parte, o Carlos queria era perceber porque é que a água saía precisamente das fraturas. Os sintomas estavam todos lá e acabou por "cair no balde da Geologia". Nunca deixou de andar à procura de qualquer coisa. Começou pelos caulinos, passou ao ouro, ao chumbo, ao zinco e acabou por trocar Portugal pela Tunísia, onde abriu minas, convenceu investidores, enfrentou burocracias com a máxima "Se é para fazer, faz-se e acabou!" e descobriu que, por vezes, o maior obstáculo de um jazigo não é geológico, é político.  Amante de tarolos, orbitulinas e logging (de facto, há gente para tudo!), quando percebeu que tinha de escolher entre Portugal e a Geologia, não hesitou. Venham conhecer este geólogo embaixador da profissão entre os colegas da filha e que, se pudesse viajar no tempo, ia passar férias para o Vale do Côa, "quando eles andavam a pintar" as gravuras que não sabem nadar, IÔ!


Entrevista 

Praia de Lavadores, Vila Nova de Gaia, julho de 2025


1. Nome, a data e o local de nascimento.

Carlos Nascimento, 1960, Torre de Moncorvo, Lousa.

2. Conte-nos, de forma simples e como se fosse para a minha mãe, que tem a quarta classe, o que faz profissionalmente?

Neste momento faço a gestão de projetos de prospeção e pesquisa. Claro que, no início, não. Fiz outras coisas em Geologia, desde responsável pelas sondagens à ligação entre os acionistas e a administração da empresa… Mas sempre ligado à prospeção e pesquisa [mineral]. Primeiro nos [recursos] não metálicos e depois nos metálicos. Portanto, sou um gestor de projetos, digamos.

3. Em que ano e onde ingressou no curso de Geologia? E como é que reagiu a família a essa escolha? Escusa de dizer que ficaram felizes.

Entrei no curso de Geologia em 1981, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Não tive um momento em que dissesse "É Geologia". Mas eu tinha 10 anos e olhava para o meu avô a carregar os tiros com pólvora, argila e rastilho. A mim não me interessava o tiro – ele andava a alargar um poço –, interessava-me era a água que saía das fraturas. Ele ia lá com um pau e tirava o que estava nas fraturas, e eu via aqueles quartzos. De qualquer maneira, também cresci a olhar para o Cabeço da Mua, não é? Na aldeia, aliás, existiu uma mina de volfrâmio, e o meu avô contava muitas histórias sobre o volfrâmio. Eu saí da Lousa, lá de Torre de Moncorvo, aos 13 anos, para ir estudar para um colégio em Lamego e, a partir daí, geri a minha carreira académica. Achei que era por ali e acabou sendo. No colégio de Lamego tive um professor de Ciências Naturais que mexeu um bocado comigo, puxou-me para a Mineralogia. E pronto, fui para o Porto. Não é que fosse já com a ideia de ir para Geologia, mas quase, a 90%. Agora, a família, não interferiu nada, porque a tinha em França. Desde que eu cumprisse os objetivos, não havia qualquer oposição.

"A mim não me interessava o tiro (...) interessava-me era a água que saía das fraturas"

4. E nos tempos em que foi estudante universitário, foi um aluno médio, bom ou muito bom?

Bem, nos primeiros dois anos não tinha muito tempo para ser bom aluno, porque, entre o Piolho, a Ribeira, os cinemas, as idas a França e os convívios com os amigos, não sobrava muito tempo para estudar. (risos) Depois aquelas cadeiras eram muito chatas! Cristalografia... aquilo era muito chato! Mas chega-se a um ponto em que é preciso recuperar e, quando comecei a ter professores que realmente nos ensinavam coisas interessantes, a coisa mudou de figura. Nos últimos anos já me empenhei mais.

5. E que professores e disciplinas foram essas?

Eu sempre gostei muito de Jazigos Minerais e Prospeção Mineira. Claro que temos o professor [Miguel] Montenegro [de Andrade], o professor [Fernando] Noronha, o professor [José] Martins Carvalho e o Orlando Gaspar, na área dos jazigos, essencialmente. Ah! E o engenheiro [Albertino Adélio] Rocha Gomes, na Prospeção Mineira. Esse é imprescindível. Despertou ainda mais o nosso interesse por esta área. Menciono ainda a professora Helena Couto e o engenheiro Costa Pereira.

6. Era um aluno calado ou mais participativo?

Mais calado.

7. E envolveu-se em atividades extracurriculares?

Não, não. Não havia tempo. (risos)

A vista do Cabeço da Mua e da vila de Torres de Moncorvo na base da Serra do Reboredo, desde a aldeia da Lousa.

8. Conte-nos um pouco do seu percurso profissional como gestor de projetos.

Isto tudo começou numa viagem da Praça da Batalha [Porto] para Neves-Corvo [Castro Verde], com paragem em Montemor para almoçar. Fiz lá o estágio de seis meses e não fiquei porque, já naquela altura, havia o problema de Neves-Corvo, em Castro Verde, não ter casas. A mina estava ainda no desmonte experimental, ou seja, no início. Acabei, por várias circunstâncias, por não ficar, até porque ia ter de viver nas instalações da mina. Enquanto estive no estágio, com um colega, tudo bem; mas depois ficar lá sozinho... E, como também não tinha carro, achei que era altura de regressar ao Porto. Enquanto fazia o relatório de estágio e refletia um bocadinho sobre aqueles seis meses, concorri para dar aulas. E fiquei. Fui colocado numa escola. Só que, uma semana antes de me apresentar, o meu colega [António José] Guerner Dias – que vocês conhecem e que foi meu colega de curso – disse-me: "Oh Carlos, na Senhora da Hora precisam de um geólogo. Vai lá ver se te agrada ou se eles te querem lá." Então lá fui. Aquilo, na Senhora da Hora, era da Companhia Anglo-Portuguesa de Caulinos, que vocês já não sabem o que é, mas era a maior empresa de caulinos do norte de Portugal. Tinha explorações desde a Senhora da Hora até Alvarães, em Viana do Castelo. Era uma empresa com capitais também ingleses. Acabei por lá ficar: cinco minutos de entrevista e, no dia seguinte, comecei a trabalhar, entre a Senhora da Hora e Viana do Castelo. Esse foi o meu primeiro trabalho. Era responsável pelas sondagens. Foi logo a seguir a terminar a licenciatura. Acabei o estágio em junho e isto foi em setembro, antes do início das aulas. Depois passei a responsável pela prospeção. É lógico, tínhamos vários contratos de prospeção e pesquisa e concessões, essencialmente para caulino cerâmico e para pasta de papel. Comecei também a aperceber-me de que tudo isto se ia cruzar com o ambiente. Em 1988, a área do ambiente estava ainda a dar os primeiros passos. Foi então que começaram os mestrados em Portugal e fui fazer o mestrado na Universidade de Aveiro, em Geoquímica e Prospeção Mineira, qualquer coisa assim. Acabei-o em 1996. Só que a mina de caulino da Senhora da Hora estava quase a acabar. Não porque se tivessem esgotado as reservas, mas porque a cidade crescia. Tínhamos uma mina no centro da cidade! Havia um centro comercial nas traseiras da nossa mina! Hoje em dia, uma dessas minas tem um minicampo de golfe, ali na Senhora da Hora. Aquilo era uma cratera com uns 50 metros. Foi tudo recuperado. Atualmente tem casas, vivendas, essas coisas todas. Ficaram apenas com Viana do Castelo. Entretanto houve muitas mudanças na empresa e eu aproveitei. Fiz o mestrado, chegámos a um acordo e saí. Nessa altura apareceu uma vaga para ir para Valongo. Havia um projeto de ouro em Castromil e estavam a ter problemas de coordenação. Os acionistas eram irlandeses e ingleses. Lá fui à entrevista. Fiquei. 

"Eu acho que o momento mais embaraçoso foi, em 2000, o fracasso do projeto de Castromil. Aí não há justificação nenhuma. Foi um bloqueio político sem qualquer fundamento (...)"
"Eu gosto muito de planeamento e, depois, de pôr em prática o que se decidiu. Sou daqueles que faz. Se é para fazer, faz-se e acabou!"

9. É uma mudança muito grande, do caulino para ouro…

Sim. Entretanto, também fiz alguns estudos para carbonatos, para aquele papel mais grosso e com brilho, o carbonato de cálcio. Em Castromil reavaliámos rapidamente o jazigo, pedimos a licença de concessão mineira e ela foi concedida. Fiz também um curso de técnico de ambiente, porque precisava de perceber essas questões com mais profundidade. Entretanto fizemos um consórcio com a EDM para todo o Anticlinal de Valongo. Trabalhámos lá durante quatro ou cinco anos. Depois começaram a surgir os problemas em Castromil. Começámos a fazer o estudo de impacto ambiental, que foi o primeiro no país, e começaram a surgir dificuldades porque havia um cacique local que não queria a mina. Só porque não queria. Primeiro concordou, mas depois disse que era pouco dinheiro e começou a criar problemas. Claro que fizemos de tudo para tentar chegar a um acordo. Até encomendámos, a nível regional, uma sondagem – não fomos nós que a fizemos, foi uma empresa – para perceber se realmente havia muita oposição. E não havia. Era uma percentagem pequenina, cerca de 3%. Mas, claro, quem se opõe faz barulho. Mobiliza pessoas que vão lá só para protestar. Hoje acontece exatamente o mesmo. As pessoas vão de Lisboa protestar contra os projetos de lítio. O projeto acabou por não avançar, mas por causa de um bloqueio político. A certa altura aquilo chegou ao Tribunal Administrativo e ganhámos, mas houve um bloqueio político de um senhor que, neste momento, está em julgamento e que toda a gente conhece! Chama-se José. (risos) Esse senhor disse: "Não, não. A mina só será aprovada se eu quiser." Era secretário de Estado. Nessa altura, os acionistas perceberam que não havia possibilidade. Nós podíamos ganhar em tribunal, mas os políticos iam bloquear o projeto. E acabou por aí. Entretanto saí, fechámos a empresa, fechámos tudo e, durante meio ano, percebi que só tinha uma solução: ou deixava de trabalhar em Geologia em Portugal, ou tinha de ir embora. Nessa altura, telefonou-me uma empresa inglesa a dizer: "Queres ir a Londres falar connosco? Há um projeto grande na Tunísia a começar." E lá fui. Passada uma semana fui visitar a Tunísia... e fiquei por lá.

10. Era um projeto de quê? E quanto tempo esteve na Tunísia?

De chumbo, zinco, fluorite e barite. E fiquei 20 anos na Tunísia! Do projeto resultaram duas minas: Fedj el Adoum e Bou Jaber. Já tinham sido minas – é o que se chama brownfield. Tinham sido exploradas há muito tempo e reavaliámos tudo, voltando a investir. A empresa era inglesa, depois passou para uma empresa sul-africana e, mais tarde, para os suíços da Glencore. Está no top 3 mundial, detém mais de 50% da produção mundial de zinco. O cobalto do Congo também está quase todo na mão deles. Trabalham em mais de 30 países, têm mais de 150 000 funcionários, minas na Suíça, na Austrália, de carvão... Eu estava na mina e continuei sempre como diretor-geral, mesmo com a mudança de empresas. Houve uma altura em que queria vir embora e eles diziam: "Não, não, não vais nada embora." Tive essa experiência porque, na altura, em 2005, não dava para ficar em Portugal. Da parte das autoridades havia uma certa... alergia. E eu sabia coisas a mais. (risos)

Sondagens - Mina de Bou Jabeur

"(...) achavam que o pai da Sara tinha uma vida muito boa e andava sempre a viajar de um lado para o outro!"

11. E a família ficou por Portugal, durante esses anos?

Sim. A minha filha já tinha 15 anos e, se fosse mais nova, eu não ia, claro. Houve uma altura em que ela estava, acho que foi no 9.º, no 10.º ou no 11.º ano, e eu até fiquei preocupado, porque metade da turma queria ir para Geologia! Porque achavam que o pai da Sara tinha uma vida muito boa e andava sempre a viajar de um lado para o outro! E eu até dizia: "Tenham cuidado, que não é assim tão fácil. Não pensem que é um mar de rosas." Mas depois mudaram de ideias. Talvez um tenha ido para Geologia?! Acho que não. A minha filha também não. Não caiu no balde da Geologia! Fui ficando por lá porque os projetos eram muito interessantes. A Tunísia é o país árabe mais europeu, e continua a sê-lo, apesar da Revolução do Jasmim – que acabou por não ser revolução nenhuma. Houve uma regressão a meio e agora estão novamente a perder direitos, liberdades e garantias, o que é um bocado triste. Mas eles são muito parecidos connosco, têm cultura andaluza. Na altura havia muitas empresas portuguesas lá, por exemplo, de calçado, além de muitas empresas italianas, francesas e alemãs. É um país muito europeu, mesmo hoje em dia. Não há problema nenhum. Eu nunca tive problemas lá, só tinha amigos, e fui ficando... fomos conseguindo as concessões e, depois, também tivemos algumas dificuldades com os estudos de impacto ambiental. Mais uma vez, fomos nós que fizemos os primeiros estudos de impacto ambiental na Tunísia. Demorou-se muito tempo a negociar e, entretanto, a Glencore olhou para os projetos e disse: "Epá, estes projetos são pequenos para nós. Um projeto de 20 ou 25 anos é pequeno." Resolveram vender os dois projetos. Chegámos a trabalhar em 15 concessões e esses dois projetos passaram a mina. Têm concessão mineira e provavelmente vão começar a produzir. A partir de 2015 achei que estava a chegar ao fim, mas acabou por se prolongar mais dez anos, por causa de toda esta história das negociações. Agora sim, está na fase final.

12. E no que foi, e é, a sua carreira profissional, qual é a atividade que mais e menos prazer lhe dá?

Eu gosto muito de planeamento e, depois, de pôr em prática o que se decidiu. Sou daqueles que faz. Se é para fazer, faz-se e acabou! Na prospeção gosto muito de fazer logging. Gosto de estender as caixas e, na Tunísia, passávamos dias e dias a fazê-lo. Conseguimos definir um procedimento, do princípio ao fim, para tudo o que se devia fazer. E ninguém dos que lá trabalhava fazia batota, por isso tínhamos de cumprir tudo. Passávamos dias naquilo. Depois tornou-se quase um vício pelo detalhe. Claro que isso só se consegue conhecendo muito bem o jazigo em que se está a trabalhar. Mas é uma das coisas de que mais gosto na Geologia: o logging. Mais do que de afloramentos, gosto é de tarolos. A desilusão dos tarolos é que, passados uns anos, quando temos de voltar atrás para fazer novas amostras, já não dá. Já não é a mesma coisa. Um dos procedimentos que temos é fotografar cada pormenor de cada caixa. Quando precisamos de fazer uma nova amostragem, primeiro escolhemos no computador e depois vamos à caixa tal, metro tal. É muito melhor, porque sabemos exatamente o que estamos a amostrar. Se andarmos a procurar diretamente na caixa, perdemos muito tempo. Na nossa caroteca, em Túnis, temos 50 quilómetros de sondagem. A parte inicial não a guardamos. Definimos um nível e só a partir daí é que conservamos os tarolos. Não gosto muito da burocracia. A burocracia é horrível. Dou um exemplo: na Tunísia escrevi cartas durante dez anos para a Direção-Geral de Minas e nunca me responderam. Em dez anos! (risos) Acho que, em 20 anos, não recebi uma única carta da Direção-Geral de Minas ou do Instituto Geológico e Mineiro a responder a fosse o que fosse. Se queria respostas, tinha de lá ir. Isso não vinculava nada! Uma vez até quis acelerar os projetos através do laboratório deles. Pedi-lhes umas análises – que até eram para benefício deles – e nem isso... "Traga as amostras e a gente faz." "Não, não pode ser!" Era uma tentativa, mas, no fundo, até era uma má ideia, porque eu não gosto de trabalhar com laboratórios que não sejam certificados. Depois até podíamos fazer amostras duplicadas e essas coisas, mas, perante a inércia deles, desisti logo.

13. Algum geólogo, que tenha conhecido ou não, que admire muito?

Sim, já referi alguns. O professor Noronha, claro, o Sean Byrne, que foi o responsável pelo início do projeto das minas de Castromil, e um americano chamado David Leach, que está muito ligado aos jazigos do tipo Mississippi Valley. Tive a oportunidade de trabalhar com ele. Esteve várias vezes na Tunísia comigo e passou lá semanas como consultor. Queria deixar uma recomendação aos novos geólogos. Devemos criar laços e relações com pessoas do nosso meio profissional, estas podem ser muito úteis na definição da nossa carreira e da nossa vida. Não quero deixar de agradecer a algumas dessas pessoas que acreditaram em mim e foram a minha bússola: ao meu amigo Sean Byrne, ao professor Noronha, ao Prof. Orlando Gaspar, ao Prof. Martins de Carvalho, ao Eng. Rocha Gomes, ao Dr. Richard Bruton, ao Eng. Gordon Riddler, ao Dr. Hans Madeisky e ao Dr. Richard Collier.

14. E como turista… (risos)

Não, ele não era desse tipo! Mas esteve lá. Aliás, a Tunísia era um país que, no fundo, atraía as grandes empresas. Iam lá ver como é que as coisas estavam a andar. A Tunísia tinha – e continua a ter – um grande potencial, até porque teve uma mina, a de Bou Grine, de zinco e chumbo, em que os teores eram de 25%. Era uma coisa brutal mesmo. Por lá passaram grandes empresas. A Breakwater, uma grande empresa canadiana que depois acabou por falir. Também lá esteve a Noranda, mas só de passagem, para ver os projetos. E eles, de vez em quando, iam-me visitar. O doutor Noronha também ia lá fazer os trabalhos dele. Tinha alunos de mestrado e doutoramento tunisinos, em associação com a Universidade do Porto, e, quando passava por lá, íamos visitar minas. A Tunísia tem uma mina de ferro, a mina de Djerissa. É uma mina mais ou menos da mesma idade da Panasqueira – são jazigos sedimentares. Aliás, dizem que parte do ferro usado na construção da Torre Eiffel veio dessa mina, porque os franceses estiveram 60 anos na Tunísia. Portanto, o Fernando Noronha passava por lá, conversávamos, íamos beber um café, visitar minas... havia uma boa camaradagem.

Com Gordon Riddler a avaliar carotes na caroteca de Túnis (Tunísia).

15. Esses dois depósitos em que esteve e está a trabalhar, são do tipo Mississipy Valley?

São, é um subtipo, mas são diferentes. Um corresponde a uma zona de contacto, a que os tunisinos chamam zona de transição. Mas não é. É uma zona de contacto invertida, no Cretácico. O outro, além de chumbo e zinco, tem barite e fluorite, em zonas de brechas de colapso. São jazigos muito complicados. Mesmo nas discussões com o David Leach ficávamos sempre com dúvidas e ele dizia: "Epá, isto é um subtipo." Por exemplo, para definir essas "zonas de transição", às vezes conseguia ver, nos tarolos, pormenores milimétricos. Muitas vezes, se não fosse ele [David Leach], tinham-nos passado despercebidos muitos aspetos.

16. Na área das geociências tem alguma publicação favorita?

Há sempre a Carta Geológica de Portugal à escala 1:1 000 000, não é? Mas não é bem isso. Eu gosto de documentos antigos, de minas, de projetos de prospeção mineira, de coisas que cheiram a papel e têm lá uns bichos e marcas de café. Na Tunísia, por acaso, eles tinham publicações muito antigas sobre minas em África, sobre o potencial de vários países africanos e da própria Tunísia, e tudo aquilo passou pelas minhas mãos. Uma das coisas de que gosto quando pego num projeto é que exista muita informação, para depois passar horas e horas a ver aquilo tudo. Claro que dessa época – dos anos 90 para trás – 50% já não serve para nada. Podemos ter logs muito bonitos, descrições excelentes, até análises, mas depois não sabemos onde fica o furo. Qual é a coordenada? Não há. Não existe. Mas gosto muito desses documentos antigos.

Com David Leach na Mina de Fej Lahdoum (Tunísia).

17. Até agora, qual foi o momento mais marcante da sua carreira?

Houve vários. A decisão de ir para a Tunísia; ter três sondas a furar minério com 30 metros de espessura num jazigo; ter reuniões com investidores em Londres e bastante dinheiro para investir. Muitas coisas assim. A pandemia, no início da COVID-19, também me apanhou lá. Portanto, há muitas situações de que uma pessoa nunca mais se esquece. Claro que também o episódio da Primavera Árabe, porque eu estava lá em 2011. Já andávamos a desconfiar de que alguma coisa ia acontecer, até porque o ditador, [Zine El Abidine] Ben Ali, já não convencia ninguém. Depois houve aquele episódio em que queimaram o vendedor de frutas e legumes e aí estourou tudo... Eu estava sozinho, mas não em Túnis. Ficava sempre fora da cidade, embora tivesse escritório em Túnis. Estava instalado no Hotel África, na avenida [Habib] Bourguiba, um hotel de cinco estrelas – quem vai a Túnis conhece aquele hotel. Fiquei lá quatro ou cinco anos, mas também tinha uma casa de campo. Não quis ficar sempre em Túnis; quis ficar perto da ação, onde se fazia a prospeção e essas coisas todas, embora fosse muitas vezes à capital. Nessa altura apanharam-me sozinho. Uns diziam que devia sair de casa, outros diziam que não. Eu disse: "Não. Eu não saio de casa enquanto o exército não vier para a rua." Entretanto comprei um bilhete e lá fui para Túnis.

18. Então esse talvez tenha sido um dos momentos da sua carreira mais complicados, que tenham sido um falhanço, ou mais embaraçoso?

Este que acabo de contar não me marcou negativamente, porque deu esperança à Tunísia e àquele povo. Eu acho que o momento mais embaraçoso foi, em 2000, o fracasso do projeto de Castromil. Aí não há justificação nenhuma. Foi um bloqueio político sem qualquer fundamento, além de outras histórias que não vale a pena relembrar porque não são do domínio público. De qualquer maneira, em Valongo fizemos um trabalho muito importante. Depois veio outra empresa – não sei se foi a Almina, S.A. – estudar o jazigo das Banjas. Foi o colega Paulo Ferraz, que também trabalhou comigo em Valongo e que depois deu continuidade ao projeto. O Paulo Ferraz também foi meu colega de curso!

Com carotes de 3 metros na Mina de Bou Jabeur (Tunísia), atravessando margas e calcários do Cenomaniano.

"(...) as orbitulinas funcionavam como um marcador estratigráfico, e quando as orbitulinas apareciam, eu sabia que o minério não ia estar muito longe, e ia para casa e dormia melhor. Porque sabia que ao outro dia, o sondador me ia telefonar e me ia dizer 'Já lá está!'"
"Eu gosto de documentos antigos, de minas, de projetos de prospeção mineira, de coisas que cheiram a papel e têm lá uns bichos e marcas de café."

19. E quem mais foi seu colega de curso?

O Álvaro Pinto, o Guerner, a Nadir [Plasencia], a Mafalda Oliveira, Nelson Pacheco, Gabriel Aroso, Damaso Silva, e Jose Feliciano. Todos esses foram meus colegas!

20. E muita gente acabou a trabalhar em recursos!

Sim. Naquela altura houve oportunidades e Neves-Corvo abriu as portas. Ainda havia minas e licenças de prospeção para trabalhar. Os investimentos não eram muito grandes e as empresas iam mantendo as áreas. O Paulo Ferraz trabalhou muito nas Banjas. Fomos nós que reabrimos aquela galeria e até lhe pusemos um soalho de madeira como este para podermos andar à vontade! Na entrada, era muito bonito. (risos) O problema era subir para os níveis mineralizados. O Paulo Ferraz tem mais histórias do que eu sobre isso. (risos) Mas há um momento histórico nas minas das Banjas. Trouxemos investidores de Londres, que ficaram no Hotel Ipanema Park, de quatro estrelas. Fomos todos para o campo, todos equipados, muito limpinhos, botas e tudo. Só que, para chegar aos níveis mineralizados, havia um espaço com uns 50 centímetros. Era preciso rebolar, esfarrapar a roupa, esfolar-se. Lá foram todos. Quando saíram, parecia que estávamos a sair de uma mina de carvão. (risos) No final, o momento épico foi fazer bateia. Claro que tinha ouro. Nós já sabíamos que tinha ouro. Não fizemos batota nenhuma, tinha mesmo de ter! Eles ficaram maravilhados: "Como é que é possível?". Eram investidores da empresa e foram para casa com histórias para contar. Levaram ainda um frasquinho com um bocadinho de ouro. Alguns desses investidores, voltei a encontrá-los mais tarde e ainda se lembravam desse dia. Em Valongo fizemos muito trabalho. Claro que não foi suficiente e agora está lá outra empresa a trabalhar. É uma área de prospeção e pesquisa. Acho que é uma empresa canadiana. Li qualquer coisa num jornal. Não sei se a concessão chegou a ser atribuída ou não, mas havia interesse de um investidor.

21. Via-se a fazer outra coisa na área das geociências?

Sim, na Geologia, claro que sim. Eu podia perfeitamente trabalhar em ambiente, sem grandes problemas. Eu comecei no caulino, mas passei para o ouro, chumbo, zinco, chumbo…

22. Tem algum hobby fora da Geologia? Um talento escondido?

Talento não tenho, mas sou um bocadinho recoletor. Gosto muito de apanhar cogumelos, frutos silvestres, beldroegas...

23. Nunca correu mal?

Não! Mas a minha mulher não come! Eu até lhe digo "Tens medo de morrer? Está bem, pronto, deixa lá."

"A pandemia, no início da COVID-19, também me apanhou lá. Portanto, há muitas situações de que uma pessoa nunca mais se esquece. Claro que também o episódio da Primavera Árabe, porque eu estava lá em 2011"

24. Qual foi o local mais bonito que viu por causa da Geologia?

Talvez no Peru, a 5000 metros de altitude, nos Andes... Aquelas paisagens são de cortar a respiração. Se calhar porque não temos muito oxigénio. (risos)A gente sobe e depois tem de descer para dormir abaixo dos 3000 metros, porque, senão, não dá. Para lá chegar já é uma aventura: aquilo não são estradas, são piores do que a Dakar. Andam camiões e todo o tipo de carros. O gabinete de Geologia da mina da Glencore que visitei nos Andes tinha para aí meia dúzia de escadas. Eu subi normalmente, cheguei a meio e quase morri. Vinha um colega meu atrás a dizer: "Pois é, pá, isto não é assim! Tens de pensar duas vezes, tem calma, vai devagarinho!" (risos) Também o Pantanal, no Mato Grosso, no Brasil. A empresa que estava aqui em Castromil, a Connary Minerals, tinha lá um projeto de ouro. Fomos uma semana. Não se conseguia lá chegar. Havia apenas uma estrada, não havia referências nenhumas, só se viam umas pessoas de vez em quando, como se andassem a fazer alguma coisa – mas não andavam, eram seguranças. E disseram-me que, quando chovia, toda a gente corria para aquelas estradas de terra batida para apanhar as pepitas!

Na Mina de Iscaycruz, no Peru, a 5000 m de altitude.

Talvez no Peru, a 5000 metros de altitude, nos Andes... Aquelas paisagens são de cortar a respiração. Se calhar porque não temos muito oxigénio. (risos)

25. Se pudesse viajar no tempo geológico, e assistir a um evento concreto, que evento escolheria?

Eu ia passar férias para o Vale do Côa, quando eles andavam a pintar. Queria assistir àquilo tudo! Queria ver como faziam aquilo, as técnicas e os instrumentos que tinham! Quando se está no Museu do Côa e se olha para oeste, só aparece mesmo uma aldeia: a Lousa! É mesmo, mesmo, em frente!

26. Como é que viveu toda essa altura, essa década de "As gravuras não sabem nadar"?

As barragens, para nós, foram uma destruição. Eu lembro-me do Rio Douro quando se passava de um lado para o outro, no verão. Lembro-me de ser pequeno e apanhar enguias no Douro. Aquilo tinha praias, tinha areia, tinha tudo isso. Com a construção das barragens perdemos muita coisa. Perdeu-se o Douro, depois o Tua, o Sabor também já foi... só resta o Côa. E o que é que as pessoas deram àquela região? Os políticos não deram nada. Simplesmente há um abandono cada vez maior e ainda hoje andam com discussões esotéricas sobre se hão de pagar o IVA, ou não, aos concelhos. As barragens pertencem a grandes empresas. Onde é que está a contribuição social? Depois dizem que o interior está deserto e abandonado. Claro que está! O Estado tem responsabilidades que não cumpre. É pena. Mas o Côa foi, sem dúvida, uma grande vitória.


Intraclasto

CSI: São Pedro da Cova - O Rabo d'Ouro

Como intraclasto, o Carlos trouxe-nos duas das melhores coisas que a geo-região de Valongo tem para oferecer: trilobites e ouro. A primeira veio de São Pedro da Cova, num daqueles dias em que "foram lá às trilobites" [antes da fase dos cogumelos...]. Foi chegar e ganhar: um cefalão! [ou, melhor dizendo, um cefalotórax, aproveitemos a especialista!]. "Bem, tem de aparecer o resto". Procurou durante mais de meia hora. Nada. Foi almoçar resignado à ideia de ficar com meia trilobite. Cinco horas depois, já de regresso ao afloramento e sentado a descansar, olhou em frente e anunciou, com toda a naturalidade: "Olha, está ali um pigídio a olhar para mim". Estava. Cerca de vinte metros mais à frente. Há quem perca a cabeça; aquela tinha perdido o rabo. Felizmente, reencontraram-se. 

A segunda peça é uma bonita amostra de quartzo com ouro, do Brasil. Mas serve sobretudo para lembrar que, em Valongo, também aparecem destas. O Serrano Pinto, geólogo de Aveiro, "apanhou uma amostra muito melhor do que esta!"

(Nós) "E os Romanos também devem ter apanhado umas muito boas."

(Carlos) "Ah, os Romanos levaram tudo o que lhes apeteceu!"


Geomanias

Rocha preferida? Arenito

Mineral preferido? Talvez o quartzo

Fóssil preferido? Amonites, mas eu gosto muito de um fóssil, que são as orbitulinas [foraminíferos]. Num dos projetos de prospeção, as orbitulinas funcionavam como um marcador estratigráfico, e quando as orbitulinas apareciam, eu sabia que o minério não ia estar muito longe, e ia para casa e dormia melhor. Porque eu sabia que ao outro dia, o sondador me ia telefonar e me ia dizer "Já lá está!"

Era, Período, Época ou Idade preferido? Cretácico

Unidade litostratigráfica preferida? Formação Valongo. Também tenho outra, que é a faixa triássica da Tunísia, mas essa fica lá muito longe

Afloramento ou corte favorito? Eu prefiro ver mais paisagens, por exemplo, os cones dos vulcões, os desertos, sistemas de dunas, essas coisas




Pronto, vulcão favorito? Talvez o Etna!

Pedra mole ou pedra dura? Dura!

Campo, gabinete ou laboratório? Campo, claro

Recursos minerais metálicos ou não metálicos? Metálicos! Embora tivesse passado pelos outros, também.

Diáclase ou Diaclase? Diaclase


Teaser da Entrevista