
Helena Granja
Maio 2026
GEOLOGIA COSTEIRA
SÓCIA APG Nº O498
Nascida no Porto, foram as 20.000 Léguas Submarinas e Jacques Cousteau que muito cedo a convenceram a ficar-se pelo mar. Formada pela FCUP, acabou na transição oceano-terra, a estudar a evolução paleoambiental e morfodinâmica da orla costeira. Professora Catedrática aposentada da UMinho, hoje mergulha noutros mares: das artes, das ideias e das palavras na Macaréu - associação cultural.
"Acho isso fundamental: manter desafios, interesses, paixões. Quando não há estímulo, há o risco de cair num certo desinteresse, numa apatia. Mesmo numa fase mais tardia da vida, é importante continuar ativo"
Foi numa praia onde a areia já teve melhores dias para turista ver e onde os seixos tomaram conta da coisa que nos sentámos com Helena Granja e fomos surpreendidos com dois percursos: o seu e o da própria praia. Nascida no Porto há mais tempo do que a sua genica sugere, deixou-se cedo, muito cedo, puxar pelo mar. Entre leituras, visitas improváveis e um percurso académico feito num tempo com ainda menos certezas do que alunos, foi encontrando o seu caminho numa Geologia que se fazia muito com o que havia… e com o que se inventava. Pelo meio, Lisboa, França, Estados Unidos e uma carreira nada premeditada que a levou até à Universidade do Minho, onde se dedicou à Geologia costeira, esse território ingrato onde nada fica quieto tempo suficiente para dar descanso às interpretações. Quem diria que o tempo geológico não é democrático?! Professora catedrática aposentada (embora nunca a tenham ouvido apresentar-se assim!), continua longe de qualquer ideia de reforma: entre a Macaréu - associação cultural, teatro e projetos vários, mantém desafios, interesses e paixões, até porque quem se reforma são as praias. Venham conhecer esta geóloga, que olha para o litoral e não vê apenas o que lá está; vê o que já esteve, o que está a desaparecer e o que ainda está para chegar.
Entrevista
Praia do Belinho, Esposende, setembro de 2025
1. Nome, a data e o local de nascimento.
Helena Granja, nasci no Porto, em 14 de maio de 1953.
2. Conte-nos onde é que nos trouxe e porquê.
Eu trouxe-vos a uma praia do noroeste de Portugal chamada Praia do Belinho, e trouxe-vos aqui porque é uma praia extremamente interessante pelas mudanças que tem sofrido ao longo dos últimos anos. É uma praia que, por estranho que vos possa parecer, já foi de areia no final dos anos 80, sendo progressivamente substituída por outro tipo de praia adaptado a uma dinâmica bem diferente daquela que havia nessa altura. Com o tempo, foi perdendo toda a areia e revelando os seixos que provêm de depósitos anteriores. É uma história um bocadinho complexa, que, de qualquer maneira, poderemos abordar mais tarde, se quiserem, a propósito do intraclasto.
3. E trabalhou aqui nesta praia, certo? Como foi o seu percurso para se dedicar a estes temas?
Sim! Eu agora estou reformada. (risos) O que fiz? Quando acabei a licenciatura – e isto já foi há muitos, muitos anos (risos) –, fui fazer um estágio voluntário para Lisboa, no que era, antigamente, um departamento de Geologia marinha que funcionava em Alverca e estava ligado aos Serviços Geológicos. Eu tinha tido conhecimento que lá trabalhava o doutor Hipólito Monteiro e propus-lhe fazer um estágio; ele aceitou e eu fui para esse laboratório. Para além do doutor Hipólito Monteiro, trabalhava lá o Alveirinho Dias e mais uma ou duas colegas, de quem já não me recordo bem do nome, já foi há muitos anos, como vos disse, foi em 1977! Nessa altura, quando eu estava a fazer esse estágio, um dia foi lá uma engenheira do então Serviço de Estudos do Ambiente [Teresa Pera], que pertencia à Secretaria de Estado do Ambiente, recém-formada já depois do 25 de Abril – todas estas instituições não existiam antes. Ela estava a começar a criar um grupo de investigação e andava à procura de jovens licenciados em várias áreas, porque queria um grupo multidisciplinar. Então, foi lá saber e o doutor Hipólito disse "Olhe, tenho aqui", apresentou-me e, a partir daí, recomendou-me. Pouco tempo depois, fui trabalhar para o Serviço de Estudos do Ambiente, ainda nesse ano de 1977. Nos Serviços de Estudos do Ambiente, era técnica superior – isto não tem nada a ver com a área académica –, mas o trabalho era extremamente interessante, essencialmente de campo, mas também de laboratório. Acontece que, tudo aquilo ainda estava em formação, não tínhamos laboratórios nem nada disso. A engenheira Teresa Pera era uma pessoa muito dinâmica, muita ativa e com grande vontade de fazer qualquer coisa nesta área costeira. Ela estabeleceu parcerias com diferentes instituições, como o Instituto Superior Técnico, o IPMA, a Universidade de Aveiro e várias outras, para criar condições para os jovens que trabalhavam com ela acederem a laboratórios. O trabalho era, basicamente, de campo, como disse: recolhiam-se amostras e depois trabalhava-se em laboratório. Eu fiquei numa linha de trabalho no estuário do Sado, com campanhas de barco, na qual se fazia recolha de sedimentos em suspensão. Havia o interesse de desenvolver um modelo de circulação do estuário do Sado, e, portanto, inicialmente o meu trabalho consistiu na análise de sedimentos em suspensão. Depois, a engenheira Teresa Pera achou que seria conveniente eu fazer uma pós-graduação em França, e fui para a Universidade de Bordéus I fazer o que lá se chamava o terceiro ciclo. Na altura, era equivalente, basicamente, ao mestrado aqui, mas mais amplo e mais aprofundado. O tema de trabalho foi a laguna Formosa (impropriamente chamada Ria Formosa). Trabalhei com o professor Jouannot (meu orientador de tese), que era geoquímico, e também com o professor Froidefond, que era sedimentólogo e geomorfólogo – mais até geomorfólogo – e com outros investigadores franceses. A minha estadia na Universidade de Bordéus teve primeiro uma parte curricular e depois, na fase de tese, trabalhei em Portugal e em Bordéus. Foi extremamente interessante para mim, realmente apaixonante, e permitiu-me também contactar com muitas entidades e pessoas, nomeadamente da Direção-Geral dos Portos, entre outras. Pessoas que hoje ou já nem estão cá ou estão há muitos anos reformadas. Foram essas pessoas que me forneceram documentação, muitas coisas que estavam dispersas e que foram sendo agrupadas, e que serviram, muitas delas, de base para o enquadramento daquele trabalho sobre a laguna Formosa. Defendi a tese em 1984, suponho eu, e depois, nesse mesmo ano, voltei para Lisboa. Estive sete anos a viver em Lisboa, de 1977 a 1984, tirando aquele ano e meio em que estive a viver em França.

4. E o que veio a seguir?
Quando voltei de França, havia toda uma reestruturação nos Serviços, e a perspetiva que se me afigurava era que ia ser uma coisa um bocadinho mais burocrática. Ou seja, estavam a reestruturar os Serviços e havia a possibilidade de ficar ligada às direções de serviço, etc., e a mim isso não me interessava de modo algum. Pensei "Porque não ir agora tentar uma carreira académica?". Entretanto, informei-me e soube que na Universidade do Minho havia um professor que estava muito interessado em criar também um grupo sobre a zona costeira. Ele era geólogo e o trabalho incidia sobre a zona costeira. Pensei: "Isto aqui é o que me interessa!" Então, contactei o professor; na altura, concorri e entrei como assistente (eu tinha o terceiro ciclo, pelo que tive equivalência ao mestrado de cá).
5. E quem era esse professor?
Ah! Vou falar dele, porque foi uma pessoa muito importante na minha vida profissional. Era o professor Gaspar Soares de Carvalho, que hoje está muito esquecido, eu acho, mesmo ao nível dos pares, digamos assim, porque ele era uma pessoa rebelde e pouco conformista. Eu acho que ele sofreu um certo apagamento, e isso foi muito mau, porque realmente foi uma pessoa muito ativa e dinâmica, mas podemos falar um bocadinho mais à frente. Ele estava interessado em começar a criar um pequeno grupo, como acontecera em Lisboa, que estudasse a zona costeira do norte. E eu achei extremamente interessante, disse "É mesmo isto que eu quero fazer", até porque tinha gostado muito da experiência da laguna Formosa, no Algarve e, portanto, foi-me "atribuída", digamos assim, para estudo, a zona que ia do rio Neiva – precisamente porque estava um colega a trabalhar entre os rios Neiva e Minho–, para sul. E eu estendi a zona quase até Aveiro. Portanto, a minha tese de doutoramento foi sobre essa área costeira, envolvendo estudos desde o Plistocénico até à atualidade. Ou seja, a reconstituição paleoambiental plistocénica-holocénica desta zona e também os processos morfossedimentares atuais das praias. E aí é que entra esta Praia do Belinho, embora ela tenha uma história anterior associada, como qualquer praia ou qualquer sítio. Tudo tem uma história ambiental associada. Há muito mais por trás do que vemos.

"(...) teria uns 12 ou 13 anos. Soube – não sei bem como – que havia em Lisboa um departamento ligado às ciências marinhas, penso que associado ao Ministério da Marinha, no Terreiro do Paço. Consegui que os meus pais me levassem lá"
6. Retomando o guião, em que ano, em que curso e em que universidade entrou?
Eu entrei na Universidade do Porto em 1970. Portanto, foi num tempo muito diferente, foi tudo antes de qualquer reforma – o 25 de Abril é só em 1974 – e eu já estou, nessa altura, a mais de meio do curso. Entrei para Geologia - ramo científico, numa altura em que havia ramo científico e ramo educacional.
7. Há assim algum geólogo que conheçamos que tenha sido seu colega?
Do meu curso, não. Porquê? Porque éramos muito poucos! Pouco mais de uma dúzia, se tanto, ou nem isso! E quase todos eram do ramo educacional. Tínhamos aulas em conjunto, mas do ramo científico penso que só saí eu, dos alunos que entraram no meu ano. A Manuela Marques já lá estava. Eu penso que ela já tinha acabado o curso, porque já estava, inclusive, a ajudar e a trabalhar com o Fernando Noronha, que era assistente e de quem gostávamos bastante, porque era pouco mais velho do que nós.
8. Já era uma personagem, nessa altura?
Era! Eu sempre gostei muito do Fernando Noronha, acho que é uma pessoa com grande empatia com os alunos! Porque eu tive todos aqueles professores da "velha guarda", chamemos-lhe assim: Montenegro, Lemos de Sousa, Frederico, Ávila Martins, Bravo, Orlando Gaspar dos Serviços Geológicos...

No Castelo do Queijo, em 1987, por ocasião do final do projeto CORINE - erosão costeira, com o professor Soares de Carvalho [direita] e o senhor Sousa [esquerda].

"A Geologia costeira é uma área extraordinária, porque liga a terra ao mar, permite compreender a evolução dos sistemas, a dinâmica entre terra e oceano - esse 'ir e vir' dos limites"
9. E qual foi a sua disciplina favorita?
É difícil, à distância de mais de 50 anos, (risos) dizer-lhe qual era a disciplina de que eu gostava mais. Muito francamente, não lhe sei dizer. Eu não gostei do primeiro ano, não me estimulou muito. E eu explico porquê: o nosso primeiro ano, o primeiro ano daquela licenciatura, não tinha Geologia. Só tinha cinco disciplinas anuais: Física, Química, Matemática, Biologia e Desenho, que era, digamos, a disciplina de que, na altura, gostava mais, porque realmente eu sempre gostei de desenho. E também o desenho dá muito jeito! Mas as outras disciplinas, não tinham qualquer Geologia. A Geologia só começava no segundo ano daquela licenciatura.
10. E entrou em Geologia porque era o que queria?
Para isso tinha de começar uma história mais antiga. Muito mais antiga! Porque é que eu venho para a Geologia, quando afinal até gostava muito do que hoje se chamam as humanidades e, na altura, eram as letras e também as artes? Quando eu era criança e pré-adolescente, ainda muito novinha, com 10, 11, 12 anos, eu adorava Júlio Verne. Sempre gostei muito de ler e ele, para mim, nessa altura, era um autor realmente incontornável. Um dos seus livros, particularmente, Vinte Mil Léguas Submarinas, marcou-me muito. Depois, também, aqueles programas e, pouco depois, alguns textos ou livros do [Jacques] Cousteau, já na área da biologia. Tudo aquilo, para mim, começou a ter um peso muito grande e eu pensei "Era isso que eu gostava um dia de fazer". Eu gostava de ser oceanógrafa… a minha paixão começou aí.
11. Então existia aí uma admiração pelo mar…
Havia, de facto, uma admiração pelo mar. Mas a minha entrada na área costeira, naquela altura, foi o mais próximo que havia da Oceanografia, porque cá não existia essa formação. Quando fiz o curso em França, foi em Oceanografia, mas aqui não havia, tinha de se ir para fora. Até o Hipólito Monteiro tinha formação em Oceanografia pelo Scripps Institution of Oceanography, nos Estados Unidos. Aliás, o Hipólito Monteiro entra aqui na história. Nessa altura eu teria uns 12 ou 13 anos. Soube – não sei bem como – que havia em Lisboa um departamento ligado às ciências marinhas, penso que associado ao Ministério da Marinha, no Terreiro do Paço. Consegui que os meus pais me levassem lá e fui visitar esse departamento científico. E quem é que eu encontro? O próprio Hipólito Monteiro! Ele até contava esta história mais tarde, de forma um bocadinho romanceada, "Esta veio visitar-me com umas tranças", quando eu nem tinha tranças! Mas a verdade é que nos conhecemos aí, quando eu era ainda adolescente. Perguntei-lhe como se podia seguir oceanografia, um dia. E ele disse-me que teria de escolher entre Biologia, Geologia ou Físico-Química e depois fazer especialização fora do país, porque cá não havia. E eu pensei: "Então, Geologia". (risos) Foi essa a opção que acabei por seguir. Quando terminei o quinto ano – o curso do liceu tinha sete anos – fui para a área de ciências já com essa ideia de seguir Geologia. E foi isso que fiz, embora, entretanto, aos 15 anos, tenha também feito exame de acesso a Escultura, em Belas-Artes, porque nesse tempo só era necessário o quinto ano para candidatura. Foi assim que entrei em Geologia. Apanhei um primeiro ano sem Geologia, o que não foi muito motivador.
12. Não posso deixar de perguntar, porque achei louvável até para os dias de hoje: o que faziam os seus pais e como reagiram à sua escolha?
Os meus pais nunca puseram entraves à minha escolha. Deram-me sempre liberdade. O meu pai era arquiteto, a minha mãe não tinha profissão, mas gostava de pintar e hoje tem quase 103 anos. Naquela época, muitas mulheres não tinham oportunidade de estudar mais. Sempre me estimularam, ou melhor, criaram um ambiente onde o gosto pela leitura surgiu naturalmente. Acho que isso tem muito a ver com o gosto individual. Há crianças que desenvolvem esse interesse mais cedo, outras mais tarde, cada uma ao seu ritmo. Conheço até casos de pessoas cujos pais não sabiam ler nem escrever e que se tornaram leitores ou artistas. Portanto, há sempre uma componente muito pessoal nesse percurso. Basta pegar no caso de dois irmãos, criados na mesma família, com os mesmos pais, e que têm, muitas vezes, características completamente diferentes. Um pode cair em vícios e levar uma vida que não é saudável, sem ter nada a ver com o meio em que foi formado. O meio é importante, sem dúvida, mas há muitos outros fatores. Não é só o meio que influencia as pessoas.

Com o professor Soares de Carvalho [à esquerda], o engenheiro Jean Favennec (Office National des Forêts, França) [à direita] e alunas.
13. E durante a licenciatura no Porto, teve oportunidade de ter contacto com a área da Geologia costeira?
Não! Nada! Absolutamente nada! O Porto estava essencialmente focado em petrologia, mineralogia e áreas afins. Mesmo dentro da sedimentologia, o que é curioso, eu fui aluna única naquele ano. E quem deu a disciplina foi o professor Lemos de Sousa. É incrível: eu era a única aluna. Ele explicava a matéria e depois encontrávamo-nos noutras ocasiões; sugeria leituras, o que estudar, etc. Foi uma licenciatura bastante atípica, comparando com os tempos de hoje. Porquê? Porque éramos muito poucos alunos. Hoje há muito mais gente em Geologia do que havia naquele tempo. Na altura, praticamente não havia procura. E os que entravam não eram maus alunos, havia alunos excelentes, mas muitos optavam pelo ramo educacional, porque tinham a possibilidade imediata de começar a trabalhar. Seguir a via científica era um risco. Eu tive a sorte de encontrar trabalho logo; podia não ter acontecido. Até porque o estágio não era pago e eu não tinha a componente educacional que os outros tinham. Mas eu não queria dar aulas, muito francamente, foi mesmo uma opção de risco.
14. Essa situação acabava por permitir uma maior proximidade com os professores, não?
Sim, precisamente nas aulas com menos alunos. Um professor, independentemente do estatuto que tivesse, tornava-se mais próximo e abria essa possibilidade. Eu era muito fechada na altura e não participava muito, a não ser em grupos pequenos ou em interação direta com alguém. E depois acabei por ter essa interação, por exemplo, com o Fernando Noronha, que me convidou para assistir às experiências que começava a fazer com a Manuela Marques, sobre inclusões fluidas. Tinham adquirido recentemente um novo equipamento para o seu estudo (isto ainda durante a minha licenciatura, nos anos 70). Achei aquilo absolutamente fascinante, mesmo! Embora não fosse a área que eu viria a seguir, foi uma experiência marcante.
15. E envolvia-se em atividades fora do âmbito das aulas?
A nível de atividades extracurriculares, na altura estive ligada ao judo e à equitação, mas isso no âmbito das atividades que existiam nas próprias universidades. No resto, nem tanto. Eu gostava muito de ler e, sim, de estar no meu mundo.
16. Foi uma aluna média, boa ou muito boa?
É preciso haver um ponto de comparação. Mas à luz daquela altura, diria média-boa, por aí.
17. E em que áreas se destacava?
Penso que houve uma disciplina de que gostei mais, porque era, de certa maneira, generalista, mas trazia novidades que tinham começado a surgir na ciência, na Geologia, no final dos anos 60: Geologia Geral, dada pelo professor Ávila Martins. Ele contava aquilo quase como uma história, e isso tornava a disciplina aliciante e interessante. Era generalista, mas, para mim, foi muito marcante. E também porque ele introduzia aquilo de que se começava a falar timidamente: a Tectónica de Placas. Acho que isso foi absolutamente marcante na Geologia: a concretização de ideias antigas que vinham desde Alfred Wegener, mas que só se consolidaram com base em evidências no final dos anos 60, sobretudo com o contributo de investigadores americanos.
18. A Tectónica de Placas estava a "estalar" e vocês estavam a aprender a teoria quando ela estava a nascer!
Sim, quase à nascença, o que é muito interessante. Portanto, sedimentologia era uma área de que gostava, embora tenha sido uma experiência muito particular, como disse. Não estou a ver outra disciplina que tenha sido assim completamente marcante, para além dessa Geologia Geral. Depois havia disciplinas com um carácter mais prático, nomeadamente nos Serviços Geológicos – aqueles que eram junto à Via Norte [atual Polo de São Mamede de Infesta], onde estava o Orlando Gaspar e outro engenheiro cujo nome agora não me recordo. Davam-nos uma abordagem mais técnica e económica da Geologia, ligada às minas, aos minerais e aos recursos minerais. Penso que seria Rocha Gomes, mas não tenho a certeza – vocês podem pesquisar! (risos) A Universidade do Porto, através do Departamento de Geologia, enviava-nos para lá, sobretudo nos últimos anos, pelo menos aos alunos do ramo científico, para termos também aulas nesse contexto. Fizemos algumas saídas de campo, por exemplo, fomos à Mina de Aljustrel. Era uma vertente mais ligada aos recursos minerais, que não era propriamente a área que mais me interessava, mas que achei importante em termos de aprendizagem.
"Na altura, praticamente não havia procura (...) Seguir a via científica era um risco"
19. E saltemos agora para o Minho. Sempre acabou a dar aulas, não é?
No Minho, acabei por dar aulas, claro, que remédio! (risos) Eu, à partida, não gostava muito da ideia. Pensei "Não sei se vou gostar da experiência". Mas gostei, sobretudo pela interação com os alunos. As aulas práticas eram aquelas em que havia maior proximidade. Alguns alunos eram muito criativos, e eu também os estimulava a trazer ideias e a fazer propostas, até porque lecionava sobretudo disciplinas dos últimos anos curriculares. Dava Geologia Ambiental, Estratigrafia, Sedimentologia e Geomorfologia – na altura, disciplinas do 4.º ano. Eram áreas dentro da minha especialidade e gostava de as ensinar. Houve alunos e grupos que fizeram trabalhos extremamente interessantes, sobretudo em Geologia Ambiental. Eu propunha que investigassem casos reais que lhes despertassem a atenção, pela negativa ou pela positiva, dentro da área ambiental. E surgiam trabalhos muito interessantes: desde indústrias até ocupação do litoral, problemas em bacias hidrográficas, entre muitos outros.
20. Trazia os seus alunos aqui? [Praia do Belinho]
Sim, sempre que possível! Sobretudo com aqueles mais próximos, que depois ficaram a trabalhar comigo, fazíamos muito trabalho de campo. A minha tese de doutoramento teve uma componente de campo enorme. Trabalhei muitas vezes com duas antigas alunas: hoje uma é professora numa universidade dos Estados Unidos e a outra está numa câmara municipal. Começámos a fazer sondagens aqui na zona, de forma bastante artesanal: usávamos tubos de rega, cortávamos as pontas, e adaptávamos-lhes um motor manual de mistura de cimento para perfurar por vibração. Depois, com a ajuda de peso – subíamos literalmente para cima dos tubos (risos) – conseguíamos avançar na perfuração. Depois retirávamos o tubo com a ajuda de uma roldana instalada num tripé. Tudo organizado por nós. O professor Soares de Carvalho (meu orientador de tese) que nos acompanhava, muitas vezes limitava-se a observar; ajudava apenas quando necessário. Foi uma experiência incrível, porque tivemos de fazer tudo desde o início: organizar, testar o que funcionava ou não, ajustar métodos… Isto aconteceu a partir, talvez de 1985, logo no início da minha entrada na Universidade do Minho.
21. Naquilo que foi a sua vida profissional, qual é a atividade que mais prazer lhe deu?
Foi, sem dúvida, o trabalho de campo.

"(...) quando investíamos muito tempo e esforço numa coisa e depois não resultava. Mas isso faz parte, não só da vida profissional, mas da vida em geral. Não se pode ter só sucessos. Os insucessos também são importantes, dão experiência e enriquecem-nos"
22. E a que menos prazer lhe deu?
Sem contar com as aulas… embora haja uma parte da docência de que nunca gostei, francamente, e continuo a achar problemática: a avaliação dos alunos através de testes e exames. Sempre me pareceu um processo muito subjetivo. Muitas vezes, tinha experiências com eles nas aulas em que demonstravam conhecimento e interesse, e depois isso não se refletia nos testes, ou o contrário. Corrigir era algo de que não gostava nada. E levantava-me até questões éticas: será que estou a avaliar corretamente? Apesar de existirem critérios e parâmetros, há sempre um fator subjetivo. Como hoje nos concursos: pondera-se isto, aquilo, mas há sempre subjetividade. Essa era, sem dúvida, a parte de que menos gostava. Na investigação, o que menos prazer me dava era quando investíamos muito tempo e esforço numa coisa e depois não resultava. Mas isso faz parte, não só da vida profissional, mas da vida em geral. Não se pode ter só sucessos. Os insucessos também são importantes, dão experiência e enriquecem-nos.

Execução de sondagens em Esposende, nos anos 80, com alunas.
23. E há algum insucesso mais marcante? Um momento mais complicado?
Talvez projetos que achávamos importantes e não foram aprovados, ou campanhas de campo que não correram bem. Por exemplo, campanhas muito bem preparadas em que, no final, não conseguíamos obter sedimento nenhum, porque o método não se adaptava ao tipo de sedimento existente, por exemplo, com o nível freático muito alto, o material saía todo e não era possível recolher amostras adequadas. Tivemos alguns casos desses. Mas também serviram para melhorar a técnica. Às vezes conseguíamos, outras não. Esta técnica de sondagens manuais aprendi com colegas americanos, que foram muito importantes para mim. Dois deles foram o professor Orrin Pilkey, da Duke University, na Carolina do Norte e William Neal da Grand Valley State University. Eles vieram a Portugal, com o grupo do Hipólito Monteiro e do Alveirinho, e convidaram-me a participar. Fizeram sondagens no Algarve com este tipo de equipamento, e depois trouxemos essa metodologia para cá. Ninguém tinha feito ainda nada assim, com este tipo de equipamento artesanal. Para a minha tese de doutoramento fiz mais de setenta sondagens dessa forma. William Cleary, da University of North Carolina Wilmington também esteve connosco em trabalho de sondagens. Norbert Psuty, da Rutgers University também veio cá nos anos oitenta, durante o meu trabalho de doutoramento, e com ele trabalhámos em morfodinâmica de praias acuais.

24. E há algum geólogo que tenha como referência?
Sim, o professor Gaspar Soares de Carvalho foi uma referência para mim. Quando fui para a universidade, não o conhecia, mas depois fui conhecendo o seu percurso. Houve pessoas que me avisaram, diziam que era conflituoso, que não era fácil trabalhar com ele, mas eu nunca tive qualquer problema. Era uma pessoa com ideias muito firmes, mas que sabia argumentar. E tinha uma qualidade rara: se percebia que algo que tinha defendido anteriormente não estava correto, dizia-o e reformulava. Era criticado por isso, por "mudar de opinião", mas na verdade estava a fazer ciência, ajustava as suas interpretações com base em novos dados. Lembro-me de um caso em que ele associava certas estruturas ao frio e à ação do gelo, e mais tarde reinterpretou-as como resultado de neotectónica, com base em novas evidências. Essa capacidade de rever posições não é comum. Além disso, tinha um sentido de observação extraordinário. Era o protótipo do homem de campo. Grande parte da sua carreira foi passada em África, em contexto de terreno, o que é uma escola exigente. Chamava-nos a atenção para pequenos detalhes, para a leitura da paisagem. Também tinha um grande interesse pela fotografia e ensinava-nos a importância da luz, do ângulo, como uma imagem pode ser mais didática e informativa. E cruzava muito a Geologia com a botânica e os solos. Era, no fundo, um naturalista, daqueles naturalistas clássicos. Talvez um dos últimos que conheci. Depois há também o professor Galopim de Carvalho, que considero uma espécie de "cruzado" da Geologia. Não só pelos dinossauros, mas pela divulgação da Geologia em geral. Ainda hoje continua ativo nesse papel. Houve também várias pessoas importantes, além dos atrás referidos, ao longo da minha carreira científica: Thomas de Groot, dos Serviços Geológicos da Holanda; Roland Paskoff, professor da Universidade de Lyon, França; Jean Favennec, do Office National des Forêts; e, em Inglaterra, Julian Orford, especialista em praias de seixos. Foram várias referências em momentos diferentes, não gosto de destacar apenas uma.

"Quando voltei de França, havia toda uma reestruturação nos Serviços e a perspetiva que se me afigurava era que ia ser uma coisa um bocadinho mais burocrática. E pensei: 'Porque não ir agora tentar uma carreira académica?"
25. E qual foi a publicação que mais gostou ou consultou durante a sua carreira?
Isso é difícil de responder. É como perguntar qual é o livro mais importante da vida de alguém… há tantos! Na adolescência, Vinte Mil Léguas Submarinas marcou-me, claro. Mas ao longo da vida são muitas as referências. Talvez destacasse os primeiros artigos sobre a teoria da Tectónica de Placas, muitos ligados à Geological Society of America. Foram fundamentais. E também conceitos importantes na sedimentologia e estratigrafia, como a lei de Johannes Walther, a chamada Lei de Walther, que reconstitui espaço-tempo a partir de observações na horizontal-vertical. Hoje é discutível, mas foi um marco. Mas escolher uma única publicação? Não consigo. Ao longo da carreira, consultava muitas para as aulas e para investigação e estão sempre a surgir coisas novas. Escolher é difícil! (risos)

Com o engenheiro Jean Favennec (Office National des Forêts, França) [à esquerda de Helena Granja] e o professor Roland Paskoff (Universidade de Lyon, França) [à direita].
26. Naquilo que foi a sua carreira, consegue identificar o momento mais marcante, em retrospetiva?
Como já referi, na investigação foi, de facto, descobrir que, através de meios simples e praticamente artesanais, se conseguia obter informação que até então não tinha sido obtida. Isso foi muito marcante. Outro momento importante foi quando fui bolseira do Programa Fulbright durante alguns meses, nos Estados Unidos. Visitei muitas universidades e institutos da costa leste americana e também do Mississípi. Foi uma experiência muito interessante, porque contactei com alunos e professores, e no campo era sempre acompanhada por uma aluna de doutoramento de Pilkey (Tonia Cayton) que me levava a diferentes praias e locais, explicando o que existia em cada sítio. Foi em 1988. Eu tive cinco anos de francês no liceu, mas só três de inglês, o que não facilitava muito. Para o francês, ajudou, e também tinha frequentado o Instituto Francês, mas o inglês foi aprendido "na prática". (risos) Nem sempre foi fácil, sobretudo com o professor Orrin Pilkey, que falava de forma pouco clara e era difícil de entender. Também foi importante para mim ter participado nos projetos como CORINE - erosão costeira e Coastal change and coastal evolution in Europe.
27. Em retrospetiva, teria tido outra carreira?
Não. Dentro da Geologia e das Geociências, teria seguido um caminho semelhante. Talvez, com os meios que existem hoje, tivesse seguido diretamente Oceanografia, que era o que queria inicialmente. Mas continuo a achar que a Geologia costeira é uma área extraordinária, porque liga a terra ao mar, permite compreender a evolução dos sistemas, a dinâmica entre terra e oceano, esse "ir e vir" dos limites. Portanto, provavelmente ficaria por aí… ou pela Oceanografia!
28. Hoje em dia, tem algum hobby?
Sim! Leitura, desde logo. Coisa que antes não tinha tanto tempo para fazer, a não ser leitura científica. E retomei atividades como pintura e cerâmica, que já fazia antes. Neste momento, estou também muito envolvida numa associação cultural no Porto, bastante dinâmica, chamada Macaréu. "Macaréu" é um fenómeno físico que ocorre em certos rios, quando o mar entra rio acima e cria uma contracorrente, como acontece no Amazonas ou em alguns estuários em Inglaterra, onde até se faz surf. O nome tem essa ideia de movimento, de mudança. Além disso, faço teatro há cerca de seis anos, também nessa associação. Somos amadores, mas temos um encenador profissional. Todos os anos preparamos uma peça. Já fizemos, por exemplo, Perdição: Exercício sobre Antígona de Hélia Correia, e mais recentemente uma adaptação de um conto de Luigi Pirandello. Cada projeto é diferente, o que é muito estimulante. Acho isso fundamental: manter desafios, interesses, paixões. Quando não há estímulo, há o risco de cair num certo desinteresse, numa apatia. Mesmo numa fase mais tardia da vida, é importante continuar ativo.
29. E o hipismo e o judo?
Já ficaram mais para trás. A equitação deixei há cerca de 10 anos, por circunstâncias alheias, mas ainda gosto muito. O judo deixei há muito tempo.
30. Então continua a gostar de desafiar-se?
Sim, mas mais do que variar, é fazer coisas de que gosto e que antes não tive tanta oportunidade de desenvolver. É esse desafio constante que faz a diferença.

31. Qual o sítio mais bonito que já visitou por causa da Geologia?
É tão difícil dizer… "Lá está ela, vai fugir à pergunta", estão a pensar. E vou mesmo. Há um que é uma paisagem costeira magnífica, na Irlanda. A Irlanda tem uma costa fabulosa e tem praias de seixos. Na altura ainda não havia aqui estas praias de seixos. Eu encantei-me logo com aquelas praias e com o som do mar nos seixos. Fiz um percurso por toda a costa, mas a parte mais espetacular é sobretudo a parte oeste, tanto da Irlanda do Sul, como na Irlanda do Norte. Na Escócia também há paisagens muito bonitas. Nos Estados Unidos, a costa da Califórnia, entre São Francisco e Los Angeles, é magnífica. Tudo costeiro. Cá em Portugal, podemos falar do sudoeste do Alentejo, porque as arribas são algo de magnífico, na maior parte dos casos. Algumas são talhadas num único tipo de rocha, mas aquelas que são sobretudo em rochas sedimentares estratificadas podem contar toda uma história fabulosa. Tenho muita pena de nunca ter ido ao Grande Canyon; nunca estive lá, mas acho que deve ser algo de extraordinário, porque ali se observa uma grande parte da história da Terra.
32. E se pudesse viajar no tempo geológico, em segurança, e aterrar assim num evento, qual seria?
A formação das ilhas oceânicas a partir do fundo do mar, sobretudo quando estão ligadas a um hotspot porque este está "parado", mas as placas vão-se movendo, e as ilhas que se formam vão-se afastando e sofrendo processos erosivos. Ou seja, é uma história extremamente interessante: como é que do fundo das águas surge terra que a estas volta. Tinha era de esperar um bocadinho.
33. E enquanto esperava calmamente por esta dinâmica toda, o que bebia?
Eu não sou muito de bebidas… um cafezinho. Café simples, sem açúcar, curtinho.

Intraclasto
Histórias roladas pelo mar


São seixos, senhor, são seixos… e quase todos de quartzito. E, como o mar, também a Helena nos trouxe seixos. E os seixos trouxeram histórias. E há que as saber ler antes que o tempo as apague. Estas são as histórias que estes seixos contaram à Helena e que agora ela nos conta a nós:
"Um simples seixo?, perguntarão. Sim, um seixo que conta uma história, que questiona, que suscita mais histórias... Assim se pode também começar em Geologia — do mais pequeno para o maior.
Breve descrição: Praia de Belinho. Crista de seixos, paralela ao mar. Seixos de quartzito, rocha mais resistente. Arredondados, polidos, patinados. Com auréolas descoloridas com cristais aciculares verticais de calcite. No interior de alguns cristais existem grãos de pólen, diatomáceas e esporos alóctones.
Uma história possível: Mar em subida após o último pico glaciário empurra sucessivamente seixos sobre a plataforma de abrasão marinha existente. Os seixos vão sendo retrabalhados pelo mar nas praias de então.
Durante um período de provável estacionamento do nível do mar, confinamento e águas mais tranquilas, adquirem a pátina que reveste a sua superfície (idade incerta, anterior a 5 ka).
Mais tarde, durante novo impulso de subida do nível do mar ou fenómeno extremo, pós-período romano, o mar empurra para a praia muitos seixos, empilhando-os numa crista.
Contudo, a descoloração em manchas circulares e as agulhas aciculares de calcite (sécs. XI–XII?) na superfície dos seixos apontam para um período frio durante o qual se formaram solos poligonais e houve levantamento de seixos — declínio climático da Alta Idade Média?
A cobertura da crista de seixos por areias, e a formação de dunas, corresponderá ao período de ventos mais intensos da Pequena Idade do Gelo, que terão transportado as areias das praias, então mais expostas pela descida do nível do mar.
Nas últimas dezenas de anos, com a erosão e o esvaziamento de areia das praias, aqueles depósitos vão sendo exumados, e os seixos perdendo as suas características pelo choque constante provocado pela ação das ondas das praias atuais."
Geomanias
Rocha preferida? Quartzito
Mineral preferido? Quartzo
Fóssil preferido? Nautilus
Unidade litostratigráfica preferida? Formação da Aguçadoura
Recursos minerais metálicos ou não metálicos? Não metálicos
Era, Período, Época ou Idade preferido? Quaternário
Afloramento ou corte favorito? Uma arriba do sudoeste alentejano
Campo, gabinete ou laboratório? Campo!
Martelo ou microscópio? Microscópio
Pedra mole ou pedra dura? Mole
Diáclase ou diaclase? Diaclase. Eu aprendi assim. No Ciberdúvidas, por acaso, não está esta questão.
