
Patrícia Jordão
Agosto 2026
GEOARQUEOLOGIA
SÓCIA APG Nº O1588
Nascida em Lisboa, aos 14 anos ligou para a Associação dos Arqueólogos e nunca mais largou o colherim nem o martelo. Geoarqueóloga de sílex na mão e flamenco nos pés, passou verões a escavar e trocou a função pública arqueológica pela geologia para investigar de onde vinham e para onde iam as pedras usadas pelas comunidades da Pré-História.
"No fundo, estava na dúvida se gostava mais de rochas ou dos vestígios deixados pela Humanidade. Acho que, na realidade, gostava era de História, de perceber como as coisas tinham acontecido, como se tinham formado: desde as rochas, aos organismos, aos artefactos e até ao que somos hoje"
Foi no Geomonumento do Rio Seco, em Alcântara, onde o sílex aflora há milhões de anos e os humanos habitam há milhares, que ouvimos a geohistória de Patrícia Jordão. Dificilmente haveria palco mais apropriado para uma investigadora que passou metade da vida a convencer arqueólogos a olhar para as rochas e a outra metade a convencer geólogos de que um pedaço de sílex também tem sentimentos. Aos 14 anos — idade respeitável para os padrões do Paleolítico — já andava a telefonar ao presidente da Associação dos Arqueólogos Portugueses a pedir uma entrevista. Seguiram-se verões de escavações em alguns dos mais emblemáticos sítios paleolíticos da Europa, uma carreira estável como arqueóloga e, quando tudo apontava para uma vida tranquila, fez aquilo que qualquer pessoa sensata faria: despediu-se para voltar à universidade com uma bolsa de doutoramento. A culpa foi da Geologia. Acabou por encontrar na Geoarqueologia a única forma socialmente aceite de confundir ambas áreas. Venham conhecer esta espécie de perita forense da Pré-História, que reconstrói percursos humanos a partir de pedaços de sílex, qual Hansel e Gretel invertido, e que nos prova que já toda ela é geóloga ao desprezar os dinossauros e dar a cara pelas turritelas.
Entrevista
Rio Seco, Alcântara - Lisboa, julho de 2025
1. Nome, a data e o local de nascimento.
O meu nome é Patrícia Jordão, nasci em Lisboa, a 30 de agosto de 1973.
2. Conte-nos, de forma simples e como se fosse para leigos, o que faz profissionalmente?
Eu atualmente sou investigadora na área da Geoarqueologia. Estudo a proveniência de todas as rochas utilizadas pelas comunidades humanas desde a Pré-História até à atualidade, embora tenha trabalhado sobretudo na Pré-História, porque nessa altura a matéria-prima lítica, sobretudo as rochas siliciosas, era fundamental para a sobrevivência. Também estudo os locais onde essas comunidades iam recolher essas rochas, porque isso é importante para perceber a sua mobilidade, numa altura em que não havia escrita nem documentação. Temos de recorrer apenas à informação material, aos vestígios materiais. Ao sabermos onde essas rochas foram recolhidas e de que forma foram obtidas, conseguimos perceber como essas comunidades se relacionavam entre si: se recolhiam diretamente as matérias-primas em bruto, se as trocavam com outras comunidades ou se já as adquiriam sob a forma de instrumentos acabados. No fundo, utilizo metodologias geológicas para estudar a proveniência das rochas e aplico-as à Arqueologia para responder a problemas arqueológicos. É isso que faço.
3. Portanto, estuda os geólogos do passado!
Exatamente! Geólogos, mineiros e recolectores do passado.
4. E porque escolheu Arqueologia? Como reagiu a família a essa escolha?
Desde muito cedo que me interessei quer por fósseis, quer por materiais arqueológicos. Misturava um bocadinho tudo. Ainda hoje há muitas pessoas que misturam. (risos) Nasci aqui em Lisboa e era frequente ir até Almada. Descia junto ao Cristo Rei, ia até às praias do Tejo e levava para casa montes de turritelas... e também muita rocha pouco consolidada. Fazia uma porcaria em casa, porque aquilo desfazia-se tudo. Também gostava dos mundos desaparecidos, dos Egípcios e desse universo todo. No fundo, estava na dúvida se gostava mais de rochas ou dos vestígios deixados pela Humanidade. Acho que, na realidade, gostava era de História, de perceber como as coisas tinham acontecido, como se tinham formado: desde as rochas, aos organismos, aos artefactos e até ao que somos hoje. Os meus pais deram-me sempre total liberdade e iam comigo aos museus. Gostava de visitar museus geológicos, museus arqueológicos... Foram completamente cúmplices. No 9.º ano, quando temos de escolher entre uma área de Humanidades ou de Ciências, eu não sabia muito bem o que queria. Pensava: "Talvez Arqueologia... ou Geologia... não sei." Fiz os testes psicotécnicos e davam qualquer coisa relacionada com trabalho ao ar livre: Biologia, Geologia... mas não História. E eu dizia: "Mas eu gosto de História e gosto de Arqueologia." Disseram-me então: "Tem de entrevistar alguém dessa área." Procurei um arqueólogo. Telefonei para a Associação dos Arqueólogos Portugueses e disse: "Queria falar com o presidente da Associação." Tinha 14 anos! Responderam-me que ele não estava, mas deram-me o contacto. Era o professor Eduardo da Cunha Serrão. Telefonei-lhe, expliquei-lhe que gostava de o entrevistar e marcámos uma conversa. Fui a casa dele, em Campo de Ourique, num domingo à tarde. Gostei imenso de falar com ele. No final perguntei-lhe como é que podia participar em escavações, porque gostava de experimentar. Deu-me o contacto de várias pessoas, entre elas o Luís Raposo, do Museu Nacional de Arqueologia, e o Rui Parreira. Depois fui ao Museu Nacional de Arqueologia e disse: "Queria falar com o doutor Luís Raposo." Disseram-me que ele não estava, mas deixei o meu contacto. Dois anos depois, quando já tinha 16 anos, recebi uma carta com um formulário de inscrição para escavações. Já nem me lembrava! Fui lá com a minha mãe. Era a pessoa mais nova, ninguém me conhecia e deviam estar a pensar: "O que é que esta alma rara está aqui a fazer?" (risos) Fui escavar para Vale do Forno, em Alpiarça, um sítio do Paleolítico Inferior situado num terraço quaternário do Tejo. Os sítios arqueológicos têm sempre nomes um bocadinho esquisitos. Depois fui também para a Foz do Enxarrique, junto a Vila Velha de Ródão, um sítio do Paleolítico Médio. Foi assim que comecei: com líticos, com rochas. E pensei: "É Arqueologia que eu quero." Por isso acabei por seguir História. Não gostei nada de História durante o 11.º e o 12.º anos, mas era o caminho que tinha de fazer para chegar à Arqueologia.

SUBSTITUIR FOTO INFANCIA/ESCAVAÇAO JOVEM
4. E depois, como é que dá o salto depois da licenciatura?
Gostei da licenciatura, gostei de Arqueologia. Fui sempre fazendo trabalho de campo, escavações, e na licenciatura escolhi a opção de Elementos de Geologia e Expressão Gráfica, que era da Licenciatura de Geografia, porque eu estava sempre a fugir para as rochas. Estava tranquila. Gostava de Arqueologia, gostava de Pré-História, mas trabalhei vários anos como arqueóloga profissional, a escavar todo o tipo de sítios. Continuava sempre a gostar mais dos líticos. Entretanto vi que tinha aberto o Mestrado em Geoarqueologia e pensei: "Vou experimentar. Estou farta de estar onde estou, não me sinto plenamente realizada." Ingressei no mestrado e, quando comecei a ouvir aquelas matérias que para um geólogo são básicas — porque aquilo era Geologia para arqueólogos — pensei: "É isto! É completamente isto!" Mas nunca é tarde. Não interessa. Vamos em frente. E foi assim.
5. Já agora, em que ano ingressou na universidade?
Ingressei na Licenciatura em Arqueologia em 1991, na Universidade de Lisboa, terminei em 1996 e entrei no Mestrado em Geoarqueologia em 2008, também na Universidade de Lisboa, na Faculdade de Ciências. Nessa altura já tinha duas crianças pequenas, já tinha uma vida de arqueóloga profissional e era trabalhadora-estudante.

"Quando comecei a ouvir aquelas matérias (...), pensei: 'É isto! É completamente isto!' (...) Vamos em frente." [sobre as aulas de Geologia]

"Telefonei para a Associação dos Arqueólogos Portugueses e disse: 'Queria falar com o presidente da Associação.' Tinha 14 anos!"
6. O mestrado era pós-laboral?
Não. Na altura não era pós-laboral e as regras eram muito diferentes das de hoje. Agora há muito mais facilidades para quem trabalha, mas na altura tínhamos direito a um dia por mês, e o mestrado ocupava dois dias por semana: quinta e sexta-feira. Então eu e o meu colega Pedro Mendes encontrámos uma solução. Eu ia num dia e ele ia no outro. Fizemos toda a parte letiva assim. Eu tirava apontamentos para ele e ele para mim. Depois, foi o ano de tese.
7. Quando foi estudante universitária, foi uma aluna boa, média ou muito boa? Era calada ou participativa?
Na licenciatura acho que era uma aluna média. No mestrado já foi diferente. Também há outra maturidade. Tive boas notas no mestrado. Era participativa quando gostava das disciplinas, mas, acima de tudo, era muito faladora... com os colegas. (risos)
8. E envolveu-se em atividades extracurriculares? Associação de estudantes, núcleo ou escavações extra?
Sim, sim. Durante a licenciatura passava todos os verões a escavar, de junho a setembro. Escavei muito em Portugal, mas também em França, em vários sítios paleolíticos, alguns deles epónimos, como La Micoque. Trabalhei em várias grutas, conheci muitos locais da região do Périgord... Estava sempre a escavar.

SUBSTITUIR FOTO TEMPOS ESTUDANTE/ESCAVAÇOES
9. Essas escavações resultavam daqueles contactos que tinha conseguido aos 16 anos ou já eram da faculdade?
Mantive sempre contacto com o Luís Raposo. No dia em que soube que tinha entrado na faculdade fomos almoçar para festejar. Aliás, antes mesmo de entrar na universidade já colaborava no Museu Nacional de Arqueologia. Ia lá um dia por semana lavar materiais, descrever peças e ajudar no que fosse preciso. Foi o Luís Raposo que me deu alguns contactos para escavar no Périgord, com o arqueólogo Jean-Philippe Rigaud. Foi aí que conheci o geólogo Jean-Pierre Texier, que nos fazia visitas guiadas extraordinárias ao Vale da Vézère. E lá estava outra vez a Geologia: toda a parte cársica, o carso... Fascinante.
10. Qual foi a disciplina da qual mais gostou? Tanto na Arqueologia como depois na Geoarqueologia.
Na Arqueologia... dizer que foi Elementos de Geologia é um bocadinho uma vergonha. (risos) Gostei muito de Pré-História, com o professor [João] Zilhão, mas também gostei imenso da professora Mariana Diniz. Foi o primeiro ano em que ela deu aulas e gostei muito dela. Dava Arqueologia: Teoria e Método. Na Geoarqueologia, adorei a disciplina de Minerais e Rochas. Era uma espécie de amálgama entre Mineralogia e Petrologia, e depois acabei por aprofundar a Petrologia Sedimentar mais tarde. Gostei imenso dessa disciplina, com o professor Nuno Pimentel. Se tivesse de eleger um geólogo, escolhia o professor Nuno Pimentel. Também gostei muito do professor Carlos Marques da Silva. E, curiosamente, até gostava de Paleontologia... Quer dizer, de uma parte da Paleontologia. Gosto de moluscos, gastrópodes, bivalves... essa tropa toda.
10. No prato? (risos)
Exatamente! (risos) Mas não acho assim tanta graça aos dinossauros... Vou dizer uma coisa politicamente incorreta. Depois podem cortar. Para mim, os dinossauros são os romanos da Arqueologia.
11. Essa dava uma t-shirt! (risos)
Os Romanos são a parte da Arqueologia de que menos gosto! (risos) Não ponham, que isto é horrível! (risos)

12. Naquilo que é a sua vida profissional, qual é a atividade que mais gosta de fazer?
Eu adoro estar no campo. Adoro fazer prospeção, adoro recolher rochas. Depois também gosto muito da parte de laboratório: de as observar, de as cortar e depois de as ver à lupa e em lâmina. Gosto muito. E acho que descobri, mais ou menos recentemente, que também gosto muito de ensinar estas coisas. Gosto imenso de transmitir isto e de ver que os outros também gostam do mesmo que eu. Gosto muito.
13. Em que circunstâncias? Costuma fazer saídas para o público em geral?
Não tanto. Mais para alunos. Desde há alguns anos que dou algumas aulas soltas de Introdução à Geoarqueologia e de Petroarqueologia, que é uma coisa mais específica, dizendo concretamente aquilo que eu faço. Às vezes também dou algumas aulas de laboratório, mais práticas, e gosto muito de transmitir isso.
14. E qual é a coisa de que menos gosta de fazer e que faz parte das suas obrigações?
Ultimamente, quando concorremos a projetos — e eu tenho concorrido a uma série deles — há toda aquela parte burocrática, que é muito, muito chata. Na investigação há muito isso. É uma parte um bocado dura: preparar currículos, tratar da documentação, fazer comunicações, ir a congressos... Faz parte da investigação, mas há coisas de que eu não gosto.

"Sou talvez a única pessoa que se despediu da função pública para passar a bolseira de doutoramento..."
15. Há bocado esquecemo-nos de perguntar como é que acabou por fazer o doutoramento...
Ah, sim! Depois do Mestrado em Geoarqueologia comecei a dedicar-me a sério à questão das proveniências e das rochas. E, para quem sabia quase nada — e não é que saiba muito, também não sei — foi uma caminhada um bocadinho dura. Na verdade, não há muita gente que tenha feito este percurso, da Arqueologia para a Geologia. É mais frequente acontecer o contrário. Mesmo no doutoramento, acho que foi uma caminhada muito feita a dois: eu e o Nuno Pimentel. Porque ele também teve de fazer o percurso inverso: sair da Geologia e entrar na Arqueologia. Foi uma descoberta muito interessante. Eu foquei-me essencialmente no sílex. A minha tese incidiu sobre a proveniência dos materiais de alguns sítios arqueológicos da Idade do Cobre, há cerca de cinco mil anos, e sobre a indústria lítica desses sítios, que era sobretudo em sílex. Também havia quartzitos, quartzo e outras matérias-primas, mas principalmente sílex. E o sílex, para um geólogo, é um apontamento. Não é nada de especial. É uma coisa muito pouco interessante. É "Ah, que giro"... e passa-se à frente. Mas para um arqueólogo é absolutamente fundamental. Mesmo para alguém que saiba bastante de Petrologia Sedimentar e Geoquímica, distinguir sílexes não é fácil. Eu costumo dizer: "É tudo igual!" Então tive de observar muito, procurar muito, perceber, nas entrelinhas, o que podia ser diferente, o que podia ver em amostra de mão e depois comparar em lâmina delgada, para conseguir criar um protocolo: como é que eu estudo isto? Acho que tive algum sucesso, porque tentei replicar essa metodologia noutros sítios e funcionou. Continuo a fazê-lo, continuam a pedir-me esse tipo de estudos, por isso acho que resultou. No fundo, o meu doutoramento foi isso: encontrar uma metodologia, um protocolo para estudar a proveniência de rochas siliciosas. Não havia ninguém que tivesse feito isso.

"(...) o meu doutoramento foi isso: encontrar uma metodologia, um protocolo para estudar a proveniência de rochas siliciosas. Não havia ninguém que tivesse feito isso (...) tentei replicar essa metodologia noutros sítios e funcionou. Continuo a fazê-lo, continuam a pedir-me esse tipo de estudos"
16. E quando começou?
Comecei o doutoramento em 2017. Tive uma bolsa da FCT. Na altura trabalhava na Câmara Municipal de Sintra, onde estive 14 anos. Depois tive a bolsa, deixei de trabalhar e... nunca mais voltei. (risos) Sou talvez a única pessoa que se despediu da função pública para passar a bolseira de doutoramento, sem um emprego fixo e sem grande segurança... pelo menos por agora. Vamos ver. (risos)
17. E qual é, para si, o melhor sílex para matéria-prima, cá no "mercado" nacional?
Para matéria-prima, é o da zona de Ourém, o sílex de Caxarias. Em Rio Maior também há bom sílex. Em Lisboa também! Mas o sílex de Caxarias, que fica ali perto de Vila Nova de Ourém, foi explorado intensivamente na Pré-História recente, por volta do Calcolítico. Havia ali uma grande oficina de talhe, onde se produziam lâminas. Na Pré-História, as lâminas funcionavam como lingotes. Era um "lingotezinho" de pedra: transportava-se facilmente, segmentava-se e depois fabricavam-se os utensílios. Esse sílex da zona de Caxarias circulava sob a forma de lâminas e chegava até Huelva! O nosso sílex é já aquilo a que chamamos, em Geoarqueologia, um sílex traçador, ou seja, um marcador litológico. Se eu encontro este sílex em Huelva, e o consigo caracterizar bem — e hoje já o conseguimos fazer — sei que percorreu não sei quantos quilómetros. É um marcador litológico da circulação dessas matérias-primas.
18. Há algum geólogo ou arqueólogo, que tenha conhecido ou não, que admire muito?
Sim, claro. O professor Galopim de Carvalho é uma referência. É uma pessoa que admiro imenso, por muitas razões: pelo percurso que fez, naturalmente pela parte científica, mas sobretudo por conseguir explicar, da forma mais simples, coisas complicadíssimas.
19. E publicação na área das geociências favorita, tem?
Nem de propósito, é precisamente a Geologia Sedimentar, do professor Galopim, aqueles três volumes. Foram livros que utilizei muito no início do mestrado. Tentava tirar apontamentos, mas não conseguia, porque aquilo já estava tão bem explicado, de forma tão simples, que era impossível simplificar mais. É extraordinária essa capacidade de comunicar. Outra pessoa que também me fascina muito, embora obviamente nunca a tenha conhecido, é o Paul Choffat. O que quer que eu vá procurar, acabo sempre por encontrar uma publicação dele. É extraordinário. E continuam a ser úteis; em muitos aspetos continuam muito atuais. E aqueles cortes que ele fazia... Adoro aqueles desenhos.
20. O Paul Choffat está em altas este ano! Já é a terceira pessoa que o escolhe.
Porque é incrível!
21. E em Arqueologia? Algumas referências?
Pois... Vocês mandaram-me o questionário antes e eu pensei logo em coisas da Geologia. Agora, em Arqueologia... há bastantes. (risos) Mas, se tiver de escolher uma obra, diria La Préhistoire, do André Leroi-Gourhan. Consultei muito esse livro durante a licenciatura.
22. Conte-nos o evento mais marcante da sua carreira até agora.
Terá sido o doutoramento. Foi realmente uma etapa muito importante. Ainda por cima, para uma arqueóloga, fazer um doutoramento em Geologia... acho que terá sido isso, sim.
"Os dinossauros são os romanos da Arqueologia"
23. E um momento profissional mais complicado, embaraçoso, ou um falhanço?
Pensando bem, não houve nada de muito dramático. Mas posso contar uma situação caricata, embora não seja propriamente da minha vida profissional. Foi na minha primeira escavação. A minha primeira escavação foi em Vale do Forno, um sítio arqueológico do Paleolítico Inferior, o tal de Alpiarça, num terraço quaternário do Tejo. Era, basicamente, uma cascalheira. Só seixos de quartzito, uns talhados, outros não, mas sobretudo quartzito. Havia muito pouco sílex. Eu apanhava tudo o que encontrava e ficava toda feliz. À medida que a escavação avançava, íamos recolhendo as peças talhadas, as lascas... mas, no Paleolítico Inferior, as coisas não são propriamente espetaculares, sobretudo para quem era praticamente leiga, como eu. De vez em quando guardava um ou outro seixo que achava mais bonito. No final da escavação apareceu um biface. Foi o primeiro biface encontrado. A Margarida Salvador, que dirigia a escavação, veio ter comigo e disse: "Olha, Patrícia, isto é um biface! Já viste? Que giro!" E eu pensei: "Eu encontrei um biface... mas guardei-o." Era precisamente por isso que o tinha guardado: porque era diferente. Fiquei completamente atrapalhada e, por vergonha, não disse nada. Anos mais tarde, quando fiz um ano do Mestrado em Arqueologia, em 1998, e a Margarida também lá estava, disse-lhe: "Olha, Guida, sabes que eu tenho um objeto da tua escavação? Vocês não encontraram um biface naquela campanha. Encontraram dois... e um deles está comigo. Tenho até um caderninho onde anotei tudo: a quadrícula, a camada... Se quiseres essa informação..." E ela respondeu: "Não, deixa estar. Fica lá com isso."
24. Mas que fique aqui registado: o primeiro biface de Vale do Forno foi encontrado pela Patrícia com 16 anos! (risos)
Faz parte da trilogia de intraclastos! (risos)

"O sílex, para um geólogo, é um apontamento. Não é nada de especial. Para um arqueólogo é absolutamente fundamental"
25. Imagina-se a fazer outra coisa? A voltar atrás e a fazer outra escolha?
Se eu tivesse ingressado em Geologia, provavelmente teria seguido a área da Petrologia Sedimentar ou da Sedimentologia, que são áreas de que gosto muito. Mas, dentro da Geologia e da Arqueologia, não sei fazer mais nada. Nunca me vi a fazer outra coisa.
26. E tem algum hobby extra-Geoarqueologia? Ou algum talento desconhecido?
Tenho. Faço flamenco há muitos anos. Danço flamenco, tenho aulas, faço muitos cursos e vou a festivais. É um hobby muito presente na minha vida. Portanto, é isso, se não fosse geoarqueóloga, se calhar era bailarina de flamenco! (risos)
27. Qual foi o local mais bonito que já visitou por causa da sua profissão?
Sem contar viagens turísticas, acho que foi mesmo o vale da Vézère, na zona de Les Eyzies, no Périgord. Escavei lá, trabalhei lá, e é uma zona espetacular. E aquelas grutas todas pintadas... Visitei Lascaux, a verdadeira. Já está fechada há muitos anos e hoje ninguém a consegue visitar. Sinto-me uma sortuda por causa disso. Muito pouca gente a viu e é, de facto, uma catedral. É uma coisa incrível.
28. Se fosse habitante de uma comunidade pré-histórica, era lá que queria ter vivido?
Na zona do Périgord, seguramente. Mas nós também temos zonas muito bonitas. Este vale de Alcântara devia ser espetacular. Também acho que esta zona do Rio Seco devia ser lindíssima. Mas está muito mais bem preservado ali na zona de Les Eyzies. no Périgord. (risos)
29. Se pudesse viajar no tempo geológico ou à Pré-História e assistir a um acontecimento concreto, qual escolheria?
Já pensei muitas vezes nisso. Se fosse em termos geológicos, gostava muito de estar no início do Cenozoico, quando começou o desmantelamento daqueles grandes relevos mesozoicos, aqui nesta zona, no início da Bacia do Tejo. Gostava de ver como eram esses relevos antes desse desmantelamento, que depois deu origem àquelas formações detríticas terciárias, com sílex e tantas outras coisas. Aqueles grandes conglomerados iniciais... aquilo devia ser impressionante. Adorava ver isso.
30. E se fôssemos para a Pré-História? Se pudesse ir observar uma comunidade?
As comunidades que tenho estudado mais, de há cerca de cinco mil anos, do Calcolítico. Por exemplo, em Vila Nova de São Pedro. Ficar ali sentadinha a ver o que eles faziam. Ou então no povoado dos Perdigões, que é um sítio que ainda não se sabe muito bem que função tinha. Eu estou a dizer "povoado", mas nem sequer sei se essa é a palavra certa. É mais um recinto, porque não se sabe exatamente para que servia, que tipo de rituais ou cerimónias ali aconteciam. Seria um local de agregação, onde se reunia muita gente. Talvez uma espécie de Stonehenge, mas em madeira, em vez de pedra. Continua a ser um sítio bastante enigmático. Gostava muito de lá estar e ver como era aquele lugar há cinco mil anos.
31. Já alguma vez talhou um seixo?
Sim, já tentei quartzitos, sílex, sim, já! É bem rijo! Mas não é preciso fazer muita força, é o jeito. Se bem que para tirar, para extrair aquelas grandes lâminas... e não tem a ver com o tamanho, quer dizer, não é que o tamanho não interesse, não é, essa coisa, é a questão da largura… (risos) É off the record! (risos) Fez-se um estudo experimental e concluiu-se que para extrair lâminas com uma largura de 40 milímetros, é necessário aplicar quase uma tonelada de força. Portanto, só com uma alavanca peitoral, não pode ser só por percussão, tem de ser com um mecanismo mesmo próprio…. Bem, uma coisa incrível!

Intraclasto
Trilogia de pedras

Desde cedo habituada à indecisão (Arqueologia? Geologia? História?), a Patrícia não quis fugir à regra e trouxe-nos uma trilogia de intraclastos. Três geo-objetos que contam o seu percurso... e nenhum é uma Turritella. O primeiro é um simples seixo rolado do Tejo, recolhido aos 10 anos por lhe fazer lembrar um machado de mão pré-histórico. Embora nunca tenha passado de uma pedra, continua hoje na sua secretária — calma, como pisa-papéis, não como machado! —, recordando a curiosidade pelas rochas que antecedeu qualquer formação científica. O segundo é o primeiro biface de Vale do Forno, em quartzito, aqui finalmente "publicado" em open access, que encontrou aos 16 anos sem sequer saber o que era. O terceiro é um bloco de obsidiana proveniente do Monte Arci, na Sardenha, uma das mais importantes fontes desta matéria-prima na Europa pré-histórica. Sim, no Neolítico havia "tráfico" de obsidiana! Circulava centenas de quilómetros e é, segundo Patrícia, em termos de talhe, a fleur de la fleur, a crème de la crème. Quem diria que a candonga tem já pelo menos 10 000 anos...
Geomanias
Rocha preferida? Sílex
Sílex favorito? O sílex oolítico, da Formação Malaver, em Ronda. Mas não vou dizer espanhol, vou dizer português! É o sílex da Formação Bica, dali de Monsanto! É o que eu tenho mais bem estudado, conheço bem as microfácies siliciosas e é o que está mais bem estudado em Portugal.
Mineral preferido? É o quartzo e a olivina. Eu adoro, acho lindas as olivinas, ainda por cima como sportinguista… (risos)
Fóssil preferido? Turritella
Era, Período, Época ou Idade preferido? Paleogénico
Período favorito da Pré-História? Calcolítico
Unidade litoestratigráfica preferida? Formação dos Arenitos da Ota
Corte ou afloramento favorito? Praia do Telheiro
Recursos minerais metálicos ou não metálicos? Não metálicos
Campo, gabinete ou laboratório? Campo e laboratório. Para o resto da vida, campo!
Pedra mole ou pedra dura? Dura!
Diáclase ou Diaclase? Diaclase
