Ricardo Pereira

Junho 2026







BACIAS SEDIMENTARES/GEOENERGIA

SÓCIO APG Nº O1507

Lisboeta de Santa Justa, chegou à Geologia por acaso. De percurso não convencional, foi primeiro professor do secundário, depois universitário, seguiu para a indústria do petróleo e gás em vários continentes e acabou por regressar à academia e à bacia que o viu crescer. Investigador na Universidade Nova de Lisboa, estuda bacias sedimentares e novas formas de armazenar energia.

"Desde os afloramentos clássicos das lavas em almofada em Wadi Jizzi, aos canyons que cortam os maciços calcários do Jurássico Inferior e Médio das montanhas de Omã, às próprias dunas e processos sedimentares, às rochas do tempo da Snowball Earth, está tudo preservado quase a 100%, sem coberto vegetal. É um paraíso para qualquer geólogo, seja qual for a área em que trabalha."

Foi numa tarde quente, entre as muralhas do Castelo de Sesimbra e o Atlântico lá em baixo - cuja abertura ele tanto gosta de estudar -, que fomos ao encontro de Ricardo Pereira. O percurso começou quase por acaso: "Deixa-me lá ir assistir a umas aulas e ver afinal o que é que isto é". Acabou por ingressar em Geologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, talvez atraído pelos fósseis "sexys": trilobites, conodontes, bizarrias câmbricas… mas a vida deu-lhe carófitas e mandou-o agradecer. Ninguém disse "por conseguinte", é verdade, mas umas experiências docentes e umas carófitas e foi vê-lo a largar tudo pela indústria do petróleo e gás, numa carreira que o fez correr meio mundo, da Ásia às Américas. Houve poços no meio do mato brasileiro, enxames bíblicos de insetos, sísmica, desertos e dunas no Médio Oriente, mas sempre com um dedito na investigação, passando pelo Reino Unido para um doutoramento sobre a fase neonatal do Atlântico Norte. As crises de meia-idade dão para muitas coisas, é certo. Ao Ricardo deu-lhe para abandonar a indústria e voltar à academia. Mas não deixou de olhar para sísmica 3D à procura de coisas soterradas. Venham conhecer este geólogo, investigador, antigo explorador de petróleo e gás, fotógrafo amador, cervejeiro ocasional e homem que admite, sem grande vergonha, que tem um nickname online: Olenellus. E hoje, Ricardo… dd tc?


Entrevista 

Castelo de Sesimbra, julho de 2025


1. Nome, a data e local de nascimento.

Olá! O meu nome é Ricardo Pereira, nasci a 7 de junho de 1973, em Lisboa, na freguesia de Santa Justa.

2. Conte-nos, de forma simples e como se fosse para leigos, o que faz profissionalmente?

Sou investigador auxiliar no Departamento de Ciências da Terra da Universidade Nova de Lisboa. Enquanto geólogo, as minhas áreas principais de investigação, neste momento, são a evolução geodinâmica da margem oeste ibérica, desde a abertura do Atlântico, e também a aplicação na área dos recursos energéticos sustentáveis, nomeadamente armazenamento de ar comprimido e captura de CO2. Também dou algumas aulas a nível de mestrado, mais especificamente Geologia do Petróleo. Antes disso, estive a trabalhar mais de 20 anos na indústria de hidrocarbonetos, na área da prospeção e exploração de petróleo e gás, em vários locais do mundo, desde Portugal, Brasil, Angola, Cazaquistão e Omã. Portanto, vários locais no âmbito do estudo e procura de óleo e gás. Também dei aulas no ensino secundário e em universidades, nomeadamente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e na Universidade de Évora. E dei aulas ao Gil [Machado]! (risos) Conheci-o no Liceu Camões [Lisboa], quando ele tinha 16 anitos!

3. E está também na ressurreição do GRESBASE [Grupo do Estudos das Bacias Sedimentares]. Alguma novidade?

Sim, desde há dois ou três anos estou à frente da coordenação do GRESBASE da SGP [Sociedade Geológica de Portugal] e um dos desafios, além de revitalizar o grupo, que estava um pouco moribundo no passado, é, juntamente com a Sofia Pereira e o Ícaro [Dias da Silva], dinamizar e dar nova vida ao grupo. Estamos agora, com um conjunto de colegas do LNEG, a trabalhar na criação de um Código Estratigráfico Português. Existem vários problemas ligados à estratigrafia e, concretamente, à litostratigrafia nacional, e o nosso enorme desafio é estabelecer, para já, o Código Estratigráfico Português, como, aliás, o Guia Estratigráfico Internacional incentiva cada país a fazer. A partir daí, levar para a frente este outro desafio: promover a revisão da litostratigrafia e da nomenclatura estratigráfica em Portugal.

4. Em que ano e onde ingressou no curso de Geologia?

Ingressei no curso de Geologia em 1992, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, terminei em 1996 e depois fiz o mestrado na área da Estratigrafia e Paleontologia. Mais tarde, já a trabalhar na indústria petrolífera, fiz o doutoramento na Universidade de Cardiff [Reino Unido]. 

Nos tempos da faculdade, no ano letivo de 1994-95, no âmbito da disciplina de Campo III, na zona de Grândola, envergando o seu "traje de guerrilheiro da Geologia".

"Ao princípio ninguém sabia muito bem o que era a Geologia, nem eu próprio. (risos)"

5. Estratigrafia e Paleontologia? Mas que tese foi essa? Conte-nos sobre esse seu passado obscuro. (risos)

Ui! Esse tema de mestrado surgiu por proposta da professora Ana Azerêdo no âmbito de um projeto que estava a decorrer na altura. Eu inicialmente estava mais virado para animais do Paleozoico, como conodontes e trilobites, e na época achava que iria resolver todos os problemas estratigráficos da ZOM [Zona de Ossa Morena] e ZSP [Zona Sul Portuguesa]. Mas a realidade é que foram as algas - as carófitas -, do Jurássico e Cretácico que me apanharam a mim. E foi um desafio muito excitante. Tive a grande oportunidade de desenvolver estes temas com as carófitas, que ainda hoje ocupam um lugar especial na minha vida. Este desafio possibilitou-me ainda um estágio em Montpellier, França, com algumas das maiores especialistas mundiais no assunto. Hoje em dia, regressei ao tema e tento passar o testemunho a jovens que queiram estudar algo diferente... para não ser só dinossauros e trilobites (risos e a expressão "alfinetada paleontológica"). Há ainda muito para descobrir sobre as carófitas fósseis que têm um enorme potencial para ajudar na estratigrafia em Portugal.

6. Regressando ao guião, porque escolheu Geologia e como reagiu a família?

Ao princípio ninguém sabia muito bem o que era a Geologia, nem eu próprio. (risos) Mas, através de uma colega do secundário que tinha entrado em Geologia, acabou por me parecer que era uma possibilidade de estudo. Porque eu queria inicialmente Biologia ou Veterinária, mas como não tive média, tive de esperar um ano para voltar a concorrer para a universidade. Fiquei ali um ano a preparar-me para os exames, para as provas específicas, e, entretanto, soube que havia a licenciatura em Geologia. É que, no meu tempo, era praticamente uma área obscura e da qual ninguém ouvia falar. E a minha colega entrou em Geologia e eu pensei "Deixa-me lá ir assistir a umas aulas e ver afinal o que é que isto é". Então percebi que se calhar era uma opção que poderia, pelo menos, ser uma alternativa para depois mudar para Biologia. Acabei por verificar que Biologia não era o meu sítio e provavelmente não seria muito feliz, e acabei por ficar em Geologia, com muito agrado.

7. Por curiosidade, quem é a colega? Continuou em Geologia?

Sim. A minha colega era a Ana Matias, que está neste momento na Universidade do Algarve. 

Em trabalho, já na indústria petrolífera, em 2010, no Brasil, com uma mão cheia de petróleo da Bacia Potiguar, no Rio Grande do Norte.

8. E em que momento é que percebeu que isto da Geologia era para si?

A primeira vez talvez tenha sido quando fui assistir às tais aulas, para ver o que era aquilo, afinal. E havia uma aula de Cartografia em que se pintavam mapas. E como eu gostava de desenhar e pintar, achei "Isto é divertido!". Na realidade, o chamamento acabou por surgir já dentro, provavelmente no primeiro ano da licenciatura, quando vi que ia haver Paleontologia. Pensei "Bom, isto se calhar junta o útil ao agradável": bicharada, cartografia, geologia estrutural, que eram coisas de que eu gostava, assim como atividades ao ar livre. Se calhar Biologia não era o caminho de que eu gostaria mais, ou onde seria mais produtivo. Então, algures no final do primeiro ano, já no segundo certamente, Paleontologia era aquilo que eu queria. E já não tentei fazer a mudança para Biologia, de todo. Ainda concorri para Física! (risos) Porque tinha média de certeza! É que a média era quase negativa. (risos)

'Pensei, "Bom, isto se calhar junta o útil ao agradável": bicharada, cartografia, Geologia estrutural, que eram coisas de que eu gostava, assim como atividades ao ar livre'
"Existem vários problemas ligados à estratigrafia e, concretamente, à litostratigrafia nacional, e o nosso enorme desafio é estabelecer, para já, o Código Estratigráfico Português, como, aliás, o Guia Estratigráfico Internacional incentiva cada país a fazer"

9. Quando ingressou no curso, lá em casa ninguém sabia o que era a Geologia. Mas agora, "lá em casa", sabem demais! [Ricardo é casado com a também geóloga Ana Jesus]. Como é partilhar a vida com alguém que também faz investigação em Geologia?

Pois, agora partilha-se Geologia no recato do lar. Por vezes surgem conversas algo esotéricas sobre os temas mais bizarros. A parte boa é que, para mim, isso acabou por ser benéfico, porque me permitiu aprender em casa coisas que não sabia ou que já tinha esquecido, especialmente sobre Petrologia Ígnea, um tema com o qual me tenho cruzado ao longo do percurso profissional e científico… e também sobre jazigos minerais, embora aí continue sem ter a mínima queda para o assunto. A vida levou-me sempre para as rochas sedimentares, os estratos, os fósseis e os recursos energéticos. Mas a Geologia da vida tem mais sabor quando é partilhada em família, especialmente nas férias e nos passeios familiares. Há sempre aquele momento em que um diz "Pára o carro! Quero ver aquele afloramento.".

10. Nos tempos em que foi estudante, foi um aluno médio, bom ou muito bom?

Perfeitamente mediano. Houve uma disciplina ou outra em que tinha mais facilidade, outras em que era perfeitamente inábil. Um aluno médio!

11. Mais calado ou participativo?

Ia a todas as aulas, ou quase todas, mas era relativamente calado. Mais introspetivo.

12. E envolvia-se em atividades extracurriculares? Na associação ou no núcleo de estudantes?

Sim, envolvi-me na associação de estudantes, na altura. Durante esse período na associação, reativámos o núcleo de fotografia, onde fizemos uma série de atividades e concursos. Durou ali um anito, dois anos, se tanto. Depois mantive a minha paixão pela fotografia no laboratório de uma pessoa, que era conhecida de um conhecido da minha mãe e que tinha uma tipografia com câmara escura, onde eu ia revelar as minhas próprias fotografias, em papel, com reveladores, fixadores e essas coisas todas.

13. Que inveja! E qual foi a disciplina que mais gostou e quem a lecionava?

Algures entre a Paleontologia, que era lecionada, na altura, pelo professor Mário Cachão e pelo professor [Carlos] Marques da Silva, e a Geologia Estrutural, com o António Ribeiro e o José Brandão. Foram grandes inspirações, também para aquilo que sou hoje, porque continuo a manter a ligação à parte da geodinâmica, à estrutural, à sedimentologia e à evolução geodinâmica de bacias.

14. Aproveitando o tema, há algum geólogo, pode tê-lo conhecido ou não, que seja uma inspiração para si?

Até há umas horas atrás, não tinha resposta para isto. Mas agora tenho e acho que escolheria o Paul Choffat. Mesmo sendo um geólogo suíço que trabalhou em Portugal no final do século XIX, tinha certamente uma visão englobadora e integradora do que é a Geologia de Portugal. E ainda que, na altura, muitos dos conceitos de Geologia como hoje a conhecemos estivessem num ponto muito incipiente, o que é um facto é que, hoje em dia, olhamos para os trabalhos do Choffat, ao nível da Estratigrafia de Portugal, da descrição das principais unidades litostratigráficas, e grande parte  continua a ser perfeitamente útil e válido. E, só por isso, merece todo o respeito e homenagem. Embora obviamente nunca o tenha conhecido, gostaria muito de ter tido uma discussão com o Paul Choffat, em cima de uma mula, algures no meio do nada. (risos)

"(...) gostaria muito de ter tido uma discussão com o Paul Choffat, em cima de uma mula, algures no meio do nada. (risos)"

15. Publicação favorita na área das geociências, há?

Escolheria, se calhar, um ou dois livros, na área da Estratigrafia Sequencial. Foi uma área que durante a minha licenciatura praticamente não era falada, ou estava ainda embrionária, mas em finais dos anos 90, princípios de 2000, saíram dois livros sobre Estratigrafia Sequencial que mudaram completamente a minha maneira de ver a Geologia e, principalmente, as rochas sedimentares, com as quais trabalho bastante. Passei a ver os problemas da Geologia, sobretudo relacionados com a Estratigrafia e a Sedimentologia, de forma muito diferente. Um é o "Sequence Stratigraphy" de Dominic Emery e Keith Myers, e o outro é o "Principles of Sequence Stratigraphy" do Octavian Catuneanu. 

16. Em que circunstância é que descobriu esses livros e essa temática?

Já foi numa fase mais avançada, portanto provavelmente por volta de 2010, por aí. Já neste milénio, quando me cruzei com esses livros e comecei a aplicar os ensinamentos para resolver problemas da prospeção de petróleo e gás, e também da evolução litostratigráfica portuguesa, e a forma como isso mudou completamente a maneira de ver as sequências geológicas sedimentares, principalmente ao nível do Mesozóico em Portugal.

17. Naquilo que é a sua vida profissional, qual é a atividade que mais prazer lhe dá?

Neste momento continuo a ter um grande prazer na parte da interpretação da sísmica de reflexão. Ou seja, a sísmica de reflexão é uma técnica, um método geofísico para imagiar o interior da Terra. E com isso conseguimos ver os estratos e contar toda a história da evolução de uma determinada área geológica. Hoje em dia, então, fazemo-lo com grande detalhe, especialmente com recurso à sísmica de reflexão 3D, que permite estudos com grande rigor. Por exemplo, identificar antigos vulcões que estão soterrados, sistemas fluviais ou sistemas marinhos. Tudo isso é possível identificar através dos dados de sísmica. Obviamente, também com análise de dados de perfuração de poços, dados de campo, afloramentos, métodos diretos complementares. Mas tudo isso são dados com os quais gosto muito de trabalhar. Sim. Acho que, de facto, continuo a ter um grande prazer em olhar para a sísmica e ver o que se passa lá em baixo.

18. E qual é a atividade que gostas menos de fazer?

Neste momento, candidaturas a projetos científicos e a financiamento para investigação. É penoso. Faz parte do processo, mas… (risos)

'Há também a ideia de que nós, os "petroleiros", somos só "Drill, baby, drill". Nada disso. (...) Aliás, foi desta indústria que surgiram os fundamentos da Estratigrafia Sequencial, que me entusiasma e que mudou, tal como a Tectónica de Placas, o pensamento geológico mundial. O nível de conhecimento académico, técnico e científico em muitas das empresas (...) era elevadíssimo!'

19. Algo que na sua vida profissional anterior não tinha de fazer. Mesmo para quem segue um percurso académico 'normal', muitas vezes já existe a sensação de ter perdido o comboio da investigação. Como foi para si tentar apanhá-lo quase aos 50 anos, depois de uma vida num contexto empresarial e com uma realidade salarial certamente bem diferente? Há momentos de arrependimento?

Nunca estive 100% fora da ciência e da academia, mas o período profissional na indústria tinha outras exigências, outras solicitações. A grande mudança foi ter de conceptualizar, escrever e submeter projetos científicos para captar financiamento. É uma forma diferente de pensar e tive de aprender a vender o peixe de outra forma. Na indústria do petróleo e gás, também temos desafios semelhantes, porque queremos convencer a organização de que este ou aquele prospeto são os melhores para furar e descobrir petróleo ou gás. Por isso, a passagem pela indústria também me deu um conjunto de capacidades e formas de pensar fundamentais para estruturar projetos que possam ser vencedores. Há também a ideia de que nós, os "petroleiros", somos só "Drill, baby, drill". Nada disso. Todo o trabalho é feito com base em ciência e técnica. Aliás, foi desta indústria que surgiram os fundamentos da Estratigrafia Sequencial, que me entusiasma e que mudou, tal como a Tectónica de Placas, o pensamento geológico mundial. O nível de conhecimento académico, técnico e científico em muitas das empresas com que contactei era elevadíssimo!

20. Conte-nos o evento mais marcante da sua carreira.

Acho que foi a possibilidade de mudar e viver num país diferente, e poder passar quase cinco anos no Médio Oriente, em Omã, onde, em conjunto com a minha família, vivemos um período fantástico, num país que está rodeado de Geologia por todos os lados. Desde o Proterozoico até à atualidade, da sedimentologia à tectónica, aos recursos minerais, petrologia, gás, paleontologia, tudo. É um sítio que, do ponto de vista da Geologia, é um livro aberto e que muda completamente a perspetiva de quem lá vai. Sendo geólogo ou não.

"Na escola deles havia mais de 60 nacionalidades só ao nível da primária. Era um mundo! Uma espécie de Jogos sem Fronteiras!"

21. Como foi a experiência de viver em Omã, também do ponto de vista familiar, sobretudo com filhos pequenos?

Foi, de facto, uma aventura. Eu já tinha estado em Omã uma primeira vez, em 2003, como parte de um processo de treino, para ver pela primeira vez um poço de petróleo a furar, ao vivo e a cores. Nessa primeira oportunidade contacta-se com a realidade do país e quebram-se todos aqueles dogmas de que o Médio Oriente era um sítio estranho e inseguro. Pelo contrário, Omã é um país extremamente acolhedor. Depois tive a oportunidade, em 2013, de ir para lá com a família: um bebé pequeno, com um ano e meio mais ou menos, uma filha com sete anos, e também a minha mulher. E foi um sítio onde fomos muito felizes, quer em termos do desenvolvimento de capacidades adicionais, quer pelo ambiente de trabalho fantástico, cheio de desafios e com projetos extremamente interessantes. E depois, enquanto país, sendo um local extremamente agradável para estar com a família, era o ouro sobre azul. Ao fim de semana íamos para a praia, acampar para as montanhas, ou para o deserto. Para as montanhas, era mais no verão, para baixar a temperatura uns 10 ou 15 graus e fugir do calor tórrido da capital. Depois, no inverno, íamos para os campos de dunas acampar durante dois ou três dias no meio do nada. Literalmente num sítio onde não se via ninguém e, à noite, eram só as estrelas, uns camelos e pouco mais. 

Em Omã, em 2014.

22. Os seus filhos ainda se lembram dessa experiência?

Ainda se lembram, claro! É lógico que, para o mais pequenino, é tudo mais fragmentário. A Alice tem excelentes memórias e acho que foi uma experiência que marcou toda a família: a forma como vemos o mundo, a multiculturalidade, a facilidade que eles têm, apesar de feitios diferentes, em sentir-se confortáveis em sítios distintos. E são praticamente bilingues! A Alice ainda mantinha contacto com um amigo egípcio, continuam a falar, embora eu já nem saiba se ele está na Síria ou na Malásia. Conseguimos criar um grupo de amigos e conhecidos de várias nacionalidades. Aquilo era um verdadeiro melting pot. Na escola deles havia mais de 60 nacionalidades só ao nível da primária. Era um mundo! Uma espécie de Jogos sem Fronteiras!

Em Omã, em 2015-2016.

23. Algum momento profissional mais embaraçoso ou complicado?

Eu acho que foi algures no Brasil, quando estava na sonda, no meio do mato, no Rio Grande do Norte, perto da cidade de Mossoró, onde estávamos a perfurar um poço. Era o final da época das chuvas e, nessa altura, a grande humidade fazia com que enormes quantidades de insetos se aglomerassem junto da torre de perfuração. Então, à noite, ao anoitecer, havia nuvens, enxames, de milhares e milhares de umas borboletazinhas brancas. Parecia que estava a nevar! E eu, como tenho algum medo de insetos, queria ir à mesa de rotação, ao rig floor, fazer um trabalho qualquer, já nem me lembro o quê. Mas quando saí da porta do contentor, que era basicamente o nosso escritório, entrei em pânico e desisti. Voltei para trás, porque não aguentei os insetos todos a baterem-me na cara. Foi horrível. No dia a seguir foi pior ainda, porque aqueles milhares e milhares de insetos entretanto tinham morrido. E, claro, no dia seguinte, com trinta e tal graus de calor, ao sol, havia um cheiro terrível a podre, de insetos mortos nas charcas de água e na lama. Um pivete terrível! Foi um bocado embaraçoso, porque toda a gente viu que eu estava a sair, só a afastar borboletas de cima de mim, e depois voltei em pânico para dentro do contentor. (risos)

24. Via-se a fazer outra coisa, dentro ou fora da área das Geociências?

Fora da área das Geociências, não, "Deus me livre". (risos) Mas, se hoje pudesse começar de novo, talvez escolhesse a Geologia marciana, mais especificamente a parte sedimentar da Geologia de Marte. Não vou dizer o que gostava de ser quando era pequenino, porque queria ser palhaço.

25. Ser investigador em Portugal é, às vezes, sentirmo-nos um bocadinho palhaços… (risos)

Não sei… talvez guia turístico num sítio remoto, fazer saídas de campo em Omã.

"Omã (...) foi uma experiência que marcou toda a família: a forma como vemos o mundo, a multiculturalidade, a facilidade que eles têm, apesar de feitios diferentes, em sentir-se confortáveis em sítios distintos."

26. Tem algum hobby ou talento fora da Geologia?

Não lhe chamaria talento. Tenho mais ou menos um passatempo. Gosto de tocar guitarra, aliás, de tocar na guitarra, mas não propriamente de forma séria. Não estou em nenhuma orquestra, nem seria aceite certamente, porque sou incapaz de decorar uma música de fio a pavio, portanto seria excluído imediatamente. Toco guitarra só para ocupar o tempo e libertar a mente. E agora, nos tempos livres, dediquei-me também a fazer cerveja caseira. A minha mulher ofereceu-me um kit para fazer cerveja e, de quando em quando, faço cerveja.

27. Eu sou provar para crer.

Devia ter trazido uma garrafa. Esqueci-me.

28. Qual foi o lugar mais bonito que visitou por causa da Geologia?

Eu acho que teria de voltar a Omã, porque é aquela história: das rochas sedimentares às ígneas, a exposição geológica é simplesmente fantástica e é impossível não amar a Geologia daquele local. Desde os afloramentos clássicos das lavas em almofada em Wadi Jizzi, aos canyons que cortam os maciços calcários do Jurássico Inferior e Médio das montanhas de Omã, às próprias dunas e processos sedimentares, às rochas do tempo da Snowball Earth, está tudo preservado quase a 100%, sem coberto vegetal. É um paraíso para qualquer geólogo, seja qual for a área em que trabalha. É um privilégio poder observar aquelas rochas. Em qualquer local para onde se vá, há Geologia a 100%.

Em Omã, em 2016, frente às lavas em almofada de Hajar.

29. Se pudesse viajar no tempo e assistir, em segurança, a um acontecimento da história da Terra, qual escolheria?

Escolheria a transição do Pré-Câmbrico para o Câmbrico, principalmente pela enorme biodiversidade que esse período representou, a explosão da vida marinha nos oceanos, a magnificência do ponto de vista evolutivo e as experiências bizarras que a natureza fez naquela altura. E também porque o Câmbrico está ligado a uma paixão antiga minha. Há muitos anos que o meu nickname online é "Olenellus" [nome de género de trilobite do Câmbrico]. As trilobites surgiram como uma primeira paixão, depois vieram os conodontes, portanto a minha vertente paleontológica nasceu também muito ligada à explosão do Câmbrico. E tive o privilégio de visitar, no Canadá, o museu onde estão as faunas dos xistos de Burgess, e confesso que deitei uma lagrimazinha quando olhei para aquilo. Ah, e o rótulo da minha cerveja é um Olenellus. É a marca da cerveja.


Intraclasto

Um frasquinho de Petróleo

Como intraclasto, o Ricardo trouxe-nos um pequeno frasco de petróleo, proveniente de uma das descobertas em que esteve envolvido na Bacia Potiguar, no Rio Grande do Norte, Brasil. Antes que se entusiasmem demasiado, sobretudo tendo em conta o preço atual dos combustíveis, convém esclarecer que aquele frasquinho não dá sequer para atestar uma scooter. De brincar. Aliás, dependendo do tipo de petróleo e do processo de refinação, podem ser precisos cerca de dois a quatro litros de crude para produzir um litro de gasolina. E isto assumindo que o objetivo do refinador era mesmo gasolina, porque pelo meio ainda há gasóleo, GPL, querosene, lubrificantes, asfalto e uma série de outras coisas que fazem o mundo moderno funcionar e cheirar a hidrocarbonetos. É o nosso primeiro intraclasto em estado líquido e que sirva de lembrete de que, durante décadas, houve geólogos a atravessar desertos, a interpretar sísmica 3D e a furar o subsolo à procura disto mesmo: matéria orgânica soterrada, cozinhada durante milhões de anos e finalmente engarrafada para a rubrica Intraclasto.


Geomanias

Rocha preferida? Brecha da Arrábida

Mineral preferido? Halite

Fóssil preferido? Hallucigenia [lobopódio, um organismo estranho que estaria entre os artrópodes e os vermes-aveludados]

Era, Período, Época ou Idade preferido? Jurássico Superior

Trabalho de campo ou de gabinete? Campo

Unidade litostratigráfica preferida? Por formação e deformação profissional, "Formação Lourinhã" (gesticulando aspas)

Recursos minerais metálicos ou não metálicos? Recursos Energéticos

Afloramento ou corte favorito?  Praia de Santa Cruz (Torres Vedras)

Pedra mole ou pedra dura? No Mesozoico não há pedra mole nem pedra dura, mas chamam-lhe mole embora não sendo.

Diáclase ou DiaclaseDiaclase.


Teaser da Entrevista