Alcides Pereira

Novembro 2026






GEOQUÍMICA

SÓCIO APG Nº O1041

Natural de Alcains, entrou em Geologia por dica alheia e é hoje professor catedrático na Universidade de Coimbra. Prefere plutonitos e urânio, mas é conhecido como o 'homem do radão', dirigindo o Laboratório de Radioatividade Natural onde aplica o conhecimento geológico para proteger as pessoas. Adaptável, acredita que autonomia e liberdade para decidir, bem ou mal, são o mais importante.

'A verdade é que a prestação de serviços nos dá, muitas vezes, as condições e a sustentabilidade financeira para depois fazermos tudo o que quisermos na componente de investigação, (...) permite angariar os financiamentos necessários para termos total autonomia e dizer "Eu hoje quero fazer isto com este dinheiro." E não estou dependente do reitor, do vice-reitor, nem da FCT.'

Foi numa tarde quente de julho, na ainda mais quente sala de Petrografia do Departamento de Ciências da Terra da Universidade de Coimbra onde é professora, que ouvimos a geohistória da Elsa Gomes. Nascida em Coimbra, a sua paixão pela Geologia foi alimentada pelos documentários incandescentes do casal Kraft. Acabou por se afastar dos vulcões, mas manteve-se firme na câmara magmática: especialista em Petrologia Ígnea e Geoquímica, com uma mão no martelo e um olho ao microscópio, aspira ainda a "poeira-a-a" em suspensão, piscando o olho à Geologia Ambiental. A Mineralogia foi, no início, a pedra no sapato desta geóloga. Hoje é, com deliciosa ironia, a sua disciplina favorita para lecionar... "às vezes não gostamos de algo só porque não o estudámos o suficiente", diz, com ar de quem já fez as pazes com os minerais. Entre aulas, investigação e tarefas administrativas que "roubam tempo à ciência", Elsa recorda a defesa do doutoramento como uma maratona de três horas sem lanche, um feito hercúleo no desconfortável traje académico. Venham conhecer a tímida Elsa, que prova que o humor e a ciência podem coexistir no mesmo afloramento e ainda resistir à erosão do quotidiano universitário.


Entrevista 

Urgeiriça, julho de 2025


1. Nome, a data e o local de nascimento.

Alcides Pereira, 11 de agosto de 1961, freguesia de Alcains, concelho e distrito de Castelo Branco.

2. Conte-nos, de forma simples e como se fosse para leigos, o que faz profissionalmente?

O que faço é, no fundo – e falando do tempo mais presente, porque ao longo da vida a gente, obviamente, foi fazendo várias coisas – alguma investigação e, ao mesmo tempo, procurar aplicar na prática o conhecimento geológico, no sentido de proteger as pessoas. Mais concretamente, procurar minimizar o impacto ambiental de um gás que é pouco conhecido, o gás radão. O objetivo central acaba por ser esse: de algum modo, usar toda aquela experiência geológica, adquirida ao longo da vida, e colocá-la ao serviço da sociedade, numa questão concreta, que é minimizar o impacto desse gás na saúde pública. Atualmente, como há muitos anos, estou ligado ao Departamento de Ciências da Terra [DCT] da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, onde, para além das funções como docente, também assumi funções administrativas, como diretor, e sou responsável por um laboratório específico, o Laboratório de Radioatividade Natural [LRN].

3. Já agora, o radão (Rn) é o seu elemento químico preferido?

Curiosamente, o meu elemento químico preferido é o mesmo desde que comecei os meus trabalhos de investigação: o urânio (U). «O radão é um pouco secundário; o principal era o urânio, de que toda a gente tem muito medo, mas do qual eu realmente sempre gostei.

4. Em que ano e onde é que ingressou no curso de Geologia? E como é que a sua família reagiu a essa entrada?

Oficialmente, em 1979, embora as aulas só tenham começado em janeiro de 1980. Sou, portanto, do grupo de 79-80, chamemos-lhe assim. Ingressei em Geologia na Universidade de Coimbra sem saber muito bem, reconheço, o que era ou o que se fazia em Geologia. E estou, desde então e desde sempre, ligado a esta universidade. A família reagiu um pouco com um encolher de ombros, também não sabia muito bem o que era a Geologia. Mas tenho um episódio curioso, porque havia uma pessoa ligada à minha família que era profissional da área da Geologia. Na altura não sabia bem o que havia de escolher. A família pressionava muito para a Medicina, achavam que devia ir para Medicina, mas eu também não era assim muito fã da Medicina. E, se calhar, as notas também não seriam suficientes. Nessa altura, uma irmã dessa pessoa disse-me "Olha, se não fores para Medicina, vai para Geologia, porque dá dinheiro." Pronto, e foi assim: "Bom, então vamos para Geologia!" (risos) Esta familiar era uma senhora que estava casada com um primo, eram já pessoas mais afastadas na família, e era o irmão dela que estava realmente ligado à Geologia, à Hidrogeologia em particular. Trabalhava como consultor numa empresa e a história do ganhar dinheiro vinha daí... Ao longo da vida nunca vi bem isso, mas pronto. (risos)

Queima das fitas, ano letivo 1984-85, Universidade de Coimbra, Geologia [Elsa Gomes na fila de cima, terceira a contar da direita].

5. Tem uma certa piada que muito do que foi, e ainda é, a sua investigação esteja, de certa forma, ligado à saúde humana. Portanto, fugiu da Medicina, mas não completamente...

Exato! Sim, sim, é verdade! Tem essa coisa curiosa. Se olhar para o que faço atualmente, realmente estou, de algum modo, indiretamente ligado à medicina. À medicina preventiva.

6. Quando é que sentiu que a Geologia era a área onde queria mesmo desempenhar a sua profissão?

Sempre tive uma grande capacidade de adaptação a novas situações. E acho que entrei em Geologia com aquela ideia: "Ok, vamos lá ver então o que é que é isto." Ainda me recordo das primeiras aulas com um senhor chamado professor doutor [António Fernando] Ferreira Pinto, que nos dava Geologia Geral. E, realmente, comecei a entrar naquilo e gostei logo! Praticamente desde o início, nunca tive aquela reação: "Ah, se calhar vim para uma coisa de que não gosto." Entrei e gostei.

7. Mais das áreas aplicadas e práticas das Geologia ou de tudo?

Naturalmente, o nosso percurso académico é fundamentalmente baseado na investigação científica, e foi assim que acabei por seguir o percurso tradicional, embora sempre com um gosto especial pela vertente mais aplicada, pela resolução de problemas concretos. Lembro-me dos trabalhos de campo que fiz na Zebreira, em 1984, dos quais resultou o meu primeiro artigo científico. Sempre gostei muito do trabalho de campo, particularmente da observação, e essa experiência foi importante não só para iniciar a minha carreira, mas também para confirmar que era esse o caminho que queria seguir.

8. E como foi parar à Zebreira?

Eu, na altura, reconheço, fiquei sempre na dúvida se devia seguir a carreira académica ou procurar trabalho fora. Porque era um bocadinho essa a questão: queria qualquer coisa mais vocacionada para a parte aplicada, para a resolução de problemas da sociedade, etc. Acabei na Zebreira para trabalhar com uma pessoa que teve uma influência muito grande na minha vida profissional, o professor Manuel Maria Godinho. A dada altura, eu andava ali no vai-não-vai, e ele disse-me "Olhe, mas tem de tomar uma decisão: ou fica ou sai." E houve uma altura em que eu disse "Sim, senhor, vou ficar. Acabei de decidir, vou ficar!" Ele tinha, na altura, um projeto – e não foi por minha iniciativa, foi por iniciativa dele – para estudar uns plutonitos de pequena dimensão, que aparecem mais ou menos isolados no contexto da grande mancha granítica da Zona Centro-Ibérica. E fui logo para os granitos! Até porque eu era ali da zona dos granitos. Quando era estudante, lembro-me de já ter aquela curiosidade de, durante as férias, agarrar na bicicleta e começar a andar com uma carta topográfica na mão, porque não havia carta geológica daquela zona. Tinha já alguma curiosidade em começar a marcar o que via. E vamos sendo influenciados. À medida que vamos tendo as disciplinas, começamos a ganhar algum gosto por ferramentas especiais, como a cartografia. Portanto, comecei com uma bicicleta, convidando um ou outro amigo lá da zona para fazermos o reconhecimento da Geologia entre Alcains e Castelo Branco, para começar a perceber os granitos. Até que veio o professor Godinho, que era especialista em geoquímica de granitos, em particular, e me disse assim: "Olhe, então, se ficar a trabalhar aqui, tenho um projeto para si, que é a cartografia." Naquela altura, na década de 80, todos os trabalhos de investigação que eram lançados para os novos investigadores tinham obrigatoriamente de resultar numa carta geológica. Era fundamental, para quem queria seguir uma carreira de investigação, produzir uma carta geológica. E, portanto, tive esse desafio. A vantagem é que a Zebreira era um desses plutonitos e ficava próxima do local onde eu tinha a família. Por isso, até do ponto de vista logístico, havia facilidade. Levava o carro do meu pai e pronto... Foi esta conjugação de circunstâncias que acabou por me levar à Zebreira.

Nessa altura, uma irmã dessa pessoa disse-me: "Olha, se não fores para Medicina, vai para Geologia, porque dá dinheiro"

9. E, antes de chegar a essa fase, como estudante universitário, como é que se caracterizava? Um aluno bom, médio, muito bom? Participativo ou mais calado?

Digamos, acima da média.

10. Era participativo? Gostava de discutir ideias com os professores? Ou era mais do estilo calado, de ficar a ouvir?

Não era propriamente de dar muito nas vistas, como se costuma dizer. Havia questões, mas normalmente colocávamo-las cá fora. Também éramos poucos estudantes. Entrei num ano em que houve um boom, chamemos-lhe assim, na área da Geologia. Recordo-me de que havia um aluno no quinto ano – na altura, o curso tinha cinco anos – e dois no quarto. Quando nós entrámos, éramos 30! Aliás, foi esse crescimento que levou depois a um grande aumento do número de alunos nas universidades durante a década de 80. Em Ciências da Terra chegaram a entrar 100 alunos em Coimbra! Muitos escolhiam Geologia por uma razão que, curiosamente, ainda hoje leva alguns alunos a ingressar no curso: a falta de professores no ensino secundário. Portanto, a maior parte seguia o ramo educacional. Podíamos escolher entre a vertente científica e a educacional. Eu segui a científica, mas muitos colegas optaram pela outra. Aliás, é essa geração que, de algum modo, ficou nas escolas básicas e secundárias e que, ainda hoje, muitas vezes mantém a ligação à Geologia, procurando incentivar as gerações mais novas a interessarem-se por esta área.

"Acho que é importante, nas universidades, deixarmos um resíduo. Não é simplesmente passar"

11. E, nessa altura, para além das aulas, gostava de participar noutro tipo de atividades universitárias? Desafiar professores para saídas de campo?

Bem, havia algumas coisas que não se podem dizer aqui! (risos) Temos de gozar a vida académica, não é só pura e simplesmente assistir às aulas! Cá fora havia, naturalmente, o convívio... Por exemplo, uma das coisas de que fiz parte durante algum tempo, e que até tinha uma vertente ambientalista – embora hoje em dia me custem alguns excessos do ambientalismo –, foi um grupo ligado ao ambiente, da Associação Académica. Estamos na década de 80! E, curiosamente, uma das grandes linhas de orientação desse grupo era a luta contra o nuclear! É curioso como alguém que começou por ouvir falar contra o nuclear acabou, progressivamente, por se aproximar bastante dessa área ao longo da vida.

À saída das provas de doutoramento, março de 2001, Universidade de Coimbra.

12. Sabemos também que organizava saídas de campo com colegas!

Sim, primeiro por iniciativa própria. Recordo-me de que foi no primeiro ano que tivemos a primeira cadeira de campo e de ter ido praticar precisamente lá para os arredores da povoação. E também de ir para o campo de bicicleta, o que era curioso. Era uma daquelas bicicletas antigas, a que chamávamos pasteleira. Curiosamente, uns anos depois, alguém a roubou lá de casa, porque já na altura valia dinheiro! Portanto, era na pasteleira que ia para o campo. Nos anos seguintes, também por iniciativa própria, um grupo de alunos começou a aproveitar as férias da Páscoa para fazer saídas. Na altura, as férias eram de duas semanas, não como hoje, que estão restritas a uma. A meteorologia até era muitas vezes bastante favorável, mais agradável, e surgiu a ideia: porque é que não íamos fazer umas visitas? Não era propriamente para fazer cartografia, era mais para ver, conhecer. Nós tínhamos lá na faculdade as cadeiras de Geologia de Portugal, falava-se nas formações A, B e C, nas unidades X e Y, que afloravam no sítio tal, e por aí fora. E nós íamos ver! Éramos um grupo com origens diversas. Havia uma forte representação da Beira Baixa: eu, outros colegas de Castelo Branco, da Covilhã, do Fundão... O meu colega Luís Neves, por exemplo, é de Carias, junto a Belmonte. Mas havia também pessoal da zona de Mação, do Sardoal, de Abrantes. Então, o que fazíamos era que cada um organizava uma saída na sua região. Lembro-me de termos ido ao Sardoal, a Mação e também à zona de Alcains, entre Alcains, Lagoeiro e Idanha. O que era curioso, porque a minha família tinha lá um olival, daqueles tradicionais, com uma casa completamente perdida naquela região, naquela xistalhada! Mas estávamos na auréola de metamorfismo de contacto, ou seja, próximos do granito. Ficámos aí instalados durante uns dias. Imaginem, uma casa de campo, com todas as características de uma casa de campo! O meu pai, recordo-me, tinha uma carrinha, levou-nos para lá, deixou-nos e nós desenrascámo-nos durante aqueles dois ou três dias. Isto foi-se repetindo todos os anos e passou a ser uma tradição. Cada ano era um colega a organizar: o [António] Chambel, que era do Sardoal e organizou uma ida àquela zona; a Maria dos Anjos, que até há pouco tempo também foi docente no Porto, organizou outra saída. Depois, já para aí no quarto ou quinto ano, não me lembro bem, o diretor do pepartamento, na altura o professor [Martim] Portugal Ferreira, ouviu falar destes grupos que costumávamos formar e começou a dizer: "Então vocês, em vez de andarem aí a passear, podiam fazer uma coisa mais útil, até para nos ajudar, porque temos aqui alguns trabalhos a decorrer e vocês podiam ajudar-nos a fazer a cartografia de alguns sítios." Recordo-me, em particular, de termos ido para a zona da Mêda, onde havia uma carta que ainda hoje está para ser publicada. Não sei se já saiu ou não [Folha 15-A - Vila Nova de Foz Côa, 1990] – reparem há quanto tempo começou! É natural, isto do tempo geológico, a gente já sabe, estas coisas por vezes são muito lentas. Mas ele lembrou-se disso e, com o apoio do departamento, já não éramos nós a tratar da logística. Fomos num velho jipe, um Land Rover que havia na altura, acompanhados por dois docentes do DCT, o Bernardo Sousa, que faleceu relativamente cedo, e o António Saraiva, que levaram toda aquela equipa. Curiosamente, até era uma equipa internacional, porque, para além dos portugueses, estava também um brasileiro, um tal senhor Ismar [de Souza Carvalho], é verdade! (risos) Ele também participou em atividades de cartografia de granitos!

13. Está visto que era um grupo dinâmico.

Era um grupo dinâmico, é verdade, e que trabalhava muito bem em equipa. Aliás, uma das coisas de que me recordo dessa altura era precisamente isso: um grupo já com um número significativo de pessoas, mas que se dava bem e trabalhava muito bem em conjunto. Ainda me recordo do tempo em que alguém tirava apontamentos e depois os partilhava. Não havia aquela competição que existe mais recentemente. Também a situação é diferente, como é óbvio. Havia sempre ali um core do grupo. No meu caso, o Luís Neves, sempre bastante próximo nestas atividades; outro colega que hoje está em Aveiro, o Jorge Medina; a Maria dos Anjos e também o Chambel, o hidrogeólogo que está em Évora.

"Mas o que hoje me dá mais gozo, concretamente nas áreas em que trabalho, é resolver os problemas que os outros não conseguem resolver"

14. E qual foi a cadeira de que mais gostou durante a licenciatura?

Nós tivemos a sorte de ter ali um grupo muito bom da geração anterior. Recordo-me das aulas de Petrologia Ígnea, dadas pelo professor Manuel Maria Godinho. Eram realmente aulas fora de série, de uma qualidade... E onde ele introduzia muitas questões ligadas à cultura geral, não eram só as questões específicas da disciplina. Mas sublinho que era uma pessoa muito preparada, com muito cuidado na preparação das aulas. Por contraponto, tínhamos o professor Portugal Ferreira, que não preparava nada, mas tinha uma capacidade incrível! Dava uma disciplina extremamente difícil, a chamada Petrologia Metamórfica, que ainda hoje é uma disciplina em que os alunos têm alguma dificuldade. Na altura, ele tinha feito um livro e seguia-se mais ou menos esse livro, com aquelas equações e toda aquela coisa. Mas conseguia dar aquela matéria chata e difícil de uma forma tão simples! E, como disse, sem preparar nada, só com o quadro, mais nada. Mas a maneira como ele dava as aulas... Porque, lá está, acho que, independentemente da competência das pessoas e dos conhecimentos que têm, a forma como conseguem ensinar uma disciplina depende muito da didática. E havia ainda uma terceira pessoa, o professor [João Manuel] Cotelo Neiva, de cujas aulas de Recursos Minerais também nunca me esqueço. Normalmente eram às nove da manhã, numa sala escura, em que o sistema de projeção era simplesmente um livro colocado debaixo de um equipamento que projetava a página diretamente no quadro da Sala Gonçalves Guimarães, lá em cima [no Polo I], que hoje é utilizada pelo Museu [da Ciência, UC] para vários atos. Mas às nove da manhã, com este enquadramento, não era fácil a gente acompanhar! Ele tinha, porém, uma particularidade: quando percebia que os alunos já estavam a adormecer, que já não estavam lá, resolvia meter uma piada, normalmente baseada em episódios da sua experiência do dia a dia. E eu hoje sou capaz de já não me lembrar muito bem dos conceitos de Recursos Minerais que ele ensinava, mas lembro-me perfeitamente das histórias que contava! O professor Cotelo Neiva era realmente uma personalidade. Quer do ponto de vista didático, quer pela forma de ser, como as pessoas da geração dele, que obviamente não seguiam determinados protocolos. E talvez seja ele a minha maior influência no gosto pelas coisas aplicadas.

15. Daquilo que é, ou tem sido, a sua atividade profissional, qual é a atividade que mais prazer lhe dá?

Todas as atividades mais dinâmicas, como o trabalho de investigação e a prestação de serviços, são naturalmente as que me dão mais gozo. Especialmente a prestação de serviços, que envolve a resolução de problemas. A dada altura da vida, fazer sempre as mesmas coisas começa a tornar-se um bocado chato, começa-se a perder a motivação. Mas o que hoje me dá mais gozo, concretamente nas áreas em que trabalho, é resolver os problemas que os outros não conseguem resolver.

"Continuamos a ter dúvidas, mas passamos a ter mais confiança. A experiência é extremamente importante"

16. Então é do desafio que gosta?

É, dos desafios! É uma das coisas que me dá mais gozo. Quantas vezes me apareceram situações em que me colocaram um problema e quiseram que assumisse a responsabilidade de o resolver? Na altura, não sabia muito bem se seria capaz, mas encarava sempre aquilo como um desafio, "Ok, vamos ver! Vou arriscar." E muitas vezes a gente diz que sim sem ter a certeza de que vai conseguir resolver o problema. Mas, como até hoje não me tenho dado mal nessas situações, vai-se ganhando confiança. E isso também é importante para os desafios maiores que venham a seguir. Continuamos a ter dúvidas, mas passamos a ter mais confiança. A experiência é extremamente importante e é isso que nos dá mais segurança quando precisamos de resolver outros problemas. É toda essa parte que me dá mais gozo.

17. E qual é a tarefa mais chata, aquela de que menos gosta? E não me diga o Lugus [plataforma de gestão administrativa da Universidade de Coimbra], tem de ser mais criativo!

A mais chata? É quando me obrigam a passar uma semana sentado à secretária a tratar de assuntos burocráticos, da parte administrativa, que hoje é cada vez maior. Estive à frente do departamento numa determinada fase, há uns anos, e estou novamente agora [2023-2025], e noto uma diferença grande: a burocracia é cada vez maior. Hoje em dia, o tempo que temos para definir e tentar implementar estratégias é cada vez mais reduzido, porque temos de tratar de assuntos que, na minha opinião, são na maioria das vezes profundamente secundários, sem a importância que lhes é dada, mas que consomem tempo e recursos. Portanto, reconheço que passar a semana sentado à secretária não é propriamente o mais motivante.

Trabalho de campo no Alentejo, nos anos 90 (da esq. para a drt: António Ferreira Pinto, António Soares Andrade, Elsa Gomes e Luís Nabais Conde]. 

18. Um geólogo, seu contemporâneo ou não, que admire muito… há?

Uma pessoa que moldou muito aquilo que sou hoje e uma parte importante da minha vida profissional foi o doutor [José Manuel] Matos Dias, não tenho dúvidas. Era uma pessoa que vinha da atividade profissional na Geologia. Esteve ligado à universidade, mas sobretudo para transmitir a sua experiência, nomeadamente em disciplinas relacionadas com a Economia Mineral, área em que tinha desenvolvido toda a sua atividade profissional. E a minha passagem de uma carreira mais ligada à investigação pura em Geologia para uma vertente mais aplicada deveu-se muito à influência dele. Porque é aquela parte para a qual a universidade muitas vezes não está vocacionada, e ele fazia essa ligação. Foi isso que me levou a evoluir bastante na resolução de problemas concretos para a sociedade, nomeadamente nas questões relacionadas com a radioatividade natural e, em particular, com as minas de urânio. Foi responsável pelo setor de prospeção da Junta de Energia Nuclear [JEN] e, depois, da Empresa Nacional de Urânio [ENU]. Foi também ele que iniciou o programa de remediação ambiental das antigas minas de minerais radioativos, lançado por volta de 2001. A ENU fechou em 2000 e o programa iniciou-se em 2001, estando ainda a decorrer. São 25 anos, um quarto de século, e tenho vindo a acompanhar este programa tão importante. Aliás, também foi muito importante para o próprio DCT, porque, se o Laboratório de Radioatividade Natural [LRN] tem hoje a dinâmica que todos conhecemos, isso deve-se em grande parte a este programa e às oportunidades que proporcionou. Inicialmente, fazíamos muitas análises no estrangeiro, porque não tínhamos capacidade para as realizar em Portugal. Com essas verbas, investimos no laboratório e reforçámos as suas capacidades. Embora o professor Matos Dias não tenha sido meu professor, conheci-o numa fase da carreira em que comecei a desenvolver estas atividades mais ligadas à remediação ambiental das minas de urânio. Foi uma pessoa extremamente importante, porque me transmitiu todo aquele conhecimento prático que as universidades, por vezes, não transmitem, dando-me essa outra valência. Foi fundamental para o resto da minha carreira e continua a sê-lo até hoje. Se querem um nome, seria ele.

19. E se tivesse de escolher um livro, uma carta geológica ou um artigo… qual seria a sua publicação de eleição na área das geociências?

Na área das geociências, destacaria os trabalhos de um senhor que continuam perfeitamente atuais, apesar de remontarem à década de 60: Felix Chayes. Era um americano que demonstrou a extrema importância de os geólogos aplicarem também a componente quantitativa e matemática à Geologia. Foi, digamos, dos primeiros a mostrar essa vantagem e começou também a trabalhar com computadores. Na altura, com o arranque da informática, começou a organizar bases de dados, por exemplo, ligadas à vulcanologia. Nós, aqui em Coimbra, também começámos por aí, quando tivemos o primeiro computador pessoal, chamemos-lhe assim. Era o NEC, uma coisa com um disco rígido de 10 megabytes, espetacular! Tivemos um projeto com o professor Manuel Maria Godinho precisamente com essa ideia: criar uma base de dados para as rochas graníticas, reunindo toda a informação geoquímica numa única base. Como devem imaginar, foi um trabalho daqueles interessantes: ler os artigos todos, retirar as tabelas e os resultados à mão e depois introduzi-los num software que nós próprios desenvolvemos. Na altura não havia software disponível, fazíamos nós o software! Eu e o Luís Neves, que esteve sempre muito próximo nestas atividades, preparámos essa primeira base de dados, que ainda deu origem a uma publicação, com já não me lembro quantas entradas. Mas recordo-me de que só foi possível graças àquele computador, o tal NEC. Isto ainda antes dos IBM e dessas tecnologias. Aliás, para que se saiba, o DCT teve uma das primeiras salas de computadores para alunos da Faculdade de Ciências e Tecnologia! À frente de departamentos que, supostamente, deveriam ter computadores antes de nós. Começámos com os Spectrum e depois passámos para os Amstrad. Eram esses que tínhamos na primeira sala de computadores para os alunos, onde dávamos as aulas de Geomatemática. E cada aluno já tinha um computador à sua disposição, o famoso Amstrad. O professor Manuel Maria Godinho tinha um gosto especial pela Matemática e competências excecionais, não só em termos didáticos, mas também pelas ideias inovadoras para a época. Foi isso que permitiu criar condições para desenvolver trabalhos como aquela base de dados e instalar uma das primeiras salas de computação do DCT, que não era, à partida, dos departamentos mais óbvios para tal.

"(...) o trabalho de campo (...) foi importante não só para iniciar a minha carreira, mas também para confirmar que era esse o caminho que queria seguir"

20. Qual foi o evento ou momento mais marcante da sua carreira?

Se pensarmos naquilo que disse há pouco, foi, no fundo, a decisão de continuar ou não a apostar numa carreira académica. Acho que esse foi um momento muito importante, porque reconheço que, na altura, tinha sérias dúvidas sobre o que fazer na vida. Havia aquela ligação à vertente mais aplicada, até porque, na altura, existiam várias áreas de trabalho para além dos recursos minerais. Havia alguma atividade, não era como hoje, em que, neste país, cada vez que se tenta fazer alguma coisa nessa área cai o Carmo e a Trindade. Havia oportunidades e, portanto, a minha dúvida era se devia apostar numa carreira fora da academia. Era aquela vertente mais dinâmica, na qual me sentia melhor, e reconheço que fiquei um bocadinho dividido. Mas, a dada altura, tinha de tomar uma decisão. Tomei-a e não estou arrependido até hoje, como é evidente.

21. E, nesse sentido, olhando agora em retrospetiva para praticamente toda a sua carreira, arrepende-se de alguma coisa ou não se via a fazer mais nada?

Não, não me via a fazer outra coisa. Sempre senti uma motivação muito, muito grande. Quando a gente está disponível, como estive durante tantos anos – e isso muitas vezes à custa da família, porque alguém paga no meio destas coisas –, não se cansa. Porque instalar a estrutura que existe neste momento no Laboratório de Radioatividade Natural, partindo praticamente do nada... Não foi propriamente uma questão financeira, isso nunca foi o principal problema, mas sobretudo de recursos humanos. Quantas vezes não houve fins de semana, noites, etc.? É uma vida muito intensa, não são só oito horas de trabalho por dia, é muito mais do que isso, e ainda hoje é. Para fazer isto, só mesmo por dedicação. Até porque não nos pagam nada por isso! É o que costumo dizer: "Para que é que ando com isto, se recebo o mesmo que os meus colegas? Porque é que ando com isto?" Epá, ando com isto por gosto! Porque estou motivado para o fazer. Se não tivesse essa motivação, não o faria, como é óbvio. Se pensasse apenas em fazer aquilo para que me pagam, é evidente que não teria feito o que fiz até hoje. Portanto, não me arrependo de nada.

22. Lançando-nos agora um bocadinho para a frente, assusta-o o futuro do laboratório?

Essa é a questão, é verdade. Por um lado, a gente pensa "Pronto, posso ir-me embora, porque claramente ficou um resíduo." Acho que é importante, nas universidades, deixarmos um resíduo. Não é simplesmente passar. Muita gente passa, até porque isso depende muitas vezes das condições, não apenas das pessoas. Mas há outra coisa... Se, por um lado, pensamos "Sim, senhor, deixo um resíduo", por outro, queremos que não seja um resíduo no sentido de qualquer coisa que ficou no passado. (risos) Queremos deixar qualquer coisa que tenha futuro! E é verdade que, nesta fase da vida, a gente fica a baloiçar entre o "Ok, já estou farto disto, vou-me embora, posso ir-me embora" e a preocupação de que esta máquina – porque acho que, neste caso concreto, é uma máquina, construída de raiz, que começou aqui mesmo, onde estamos neste momento –, e que hoje tem uma dinâmica tremenda, possa sair prejudicada. O próprio país evoluiu no sentido de criar condições para que o laboratório subsista. Há procura se houver legislação; não há procura se não houver legislação, já sabemos disso. Quando prestávamos serviços de apoio à monitorização das minas de urânio, não nos era exigido nada em termos de acreditações ou certificações. A dada altura, percebemos que isso não ia continuar assim. Sabíamos que estava para sair uma diretiva comunitária, em 2013, que iria claramente criar mercado na área da radioatividade natural. E a questão era esta: ou continuávamos como estávamos, deixando a atividade deslizar até acabar – eu ia-me embora e aquilo acabava –, ou nos adaptávamos e criávamos novas oportunidades. Mas, para isso, era necessário acreditar o laboratório. Aproveitámos então o intervalo entre a publicação da diretiva comunitária, em 2013, e a sua transposição para a legislação nacional, cinco anos depois, para lançar as bases da acreditação e preparar o laboratório para dar resposta a uma procura que já não viria apenas das minas de urânio, mas de todo o país. Fomos acreditando os ensaios que sabíamos que, mais cedo ou mais tarde, teriam procura. E foi o que aconteceu. Quando surgiu a obrigatoriedade legal e começou a procura, já estávamos preparados para responder, criando também a sustentabilidade financeira da própria estrutura. Aliás, uma das coisas que reconheço que me dá um gozo bestial é que este tipo de serviços permite angariar os financiamentos necessários para termos total autonomia e dizer "Eu hoje quero fazer isto com este dinheiro." E não estou dependente do reitor, do vice-reitor, nem da FCT. Podemos achar que o importante é aquilo e é para ali que se aposta, sem todos esses constrangimentos e condicionalismos. Esta é, para mim, uma das grandes vantagens da prestação de serviços. Porque, às vezes, há aquela tendência para a considerar uma atividade secundária, como se o importante fosse apenas a investigação científica. Mas a verdade é que a prestação de serviços nos dá, muitas vezes, as condições e a sustentabilidade financeira para depois fazermos tudo o que quisermos na componente de investigação. E, com essa independência e autonomia, é muito diferente sermos nós a decidir, sem estarmos condicionados, ou termos todos os condicionalismos associados a outros tipos de financiamento. Dá-nos uma independência total, no sentido de que, se queremos tomar uma decisão, bem ou mal, tomamo-la...

23. Conte-nos um momento que possa ter sido um falhanço ou um embaraço.

Reconheço que, felizmente, ao longo da minha atividade profissional, quer na prestação de serviços, quer na investigação, nunca tive o dissabor de sentir que não conseguimos alcançar aquilo a que nos propusemos. Custou-me mais, curiosamente, uma situação ainda recente: uma proposta que fizemos aqui no departamento [DCT], já sem qualquer relação com os trabalhos de radioatividade, e que não foi aprovada. Tentámos trazer para a Universidade de Coimbra uma licenciatura que considerávamos inovadora, mesmo a nível nacional, ligada à observação da Terra, mas com uma forte ligação à engenharia. Não pretendíamos apenas ensinar a aplicar dados obtidos por satélites, drones e toda essa tecnologia que hoje é extremamente importante. A ideia era formar alunos que, para além de conhecimentos na componente naturalista, tivessem também conhecimentos na componente tecnológica. Não seriam especialistas em tecnologia, mas compreenderiam o seu funcionamento e, ao mesmo tempo, os fenómenos naturais. Porque o que muitas vezes sentimos é que estas tecnologias todas XPTO são desenvolvidas por especialistas que não compreendem os processos naturais. E acabamos por ter duas áreas que trabalham um bocadinho dissociadas. Estando nós numa Faculdade de Ciências e Tecnologia, pareceu-nos que fazia todo o sentido tentar aproximá-las. Era uma experiência! E, além disso, tinha financiamento do PRR [Plano de Recuperação e Resiliência]. Se funcionasse mal, ao fim de três anos acabava. Infelizmente, a proposta teve de passar por uma entidade chamada A3ES. E o painel de avaliação que foi nomeado – a responsabilidade não é da comissão, mas do painel –, do nosso ponto de vista, não compreendeu a inovação que ali estava, nem aquilo que pretendíamos fazer. Como tudo aconteceu muito em cima da hora e, se a licenciatura não arrancasse naquele ano, perderíamos o financiamento, ficámos bastante limitados na possibilidade de reclamar. Acho que houve um erro por parte do painel, o que é uma pena, até porque um dos seus membros tinha alguma ligação à área, embora mais marginal. Mas reconheço também que talvez não tenhamos sabido apresentar a proposta da melhor forma. Não ponho de parte a nossa responsabilidade. Ainda assim, acho que se perdeu uma oportunidade de experimentar uma formação que procurava responder a uma necessidade que tínhamos identificado: ligar a componente tecnológica à naturalista. E acho que é esse o futuro. A resolução de muitos problemas vai passar precisamente por estas ligações entre as duas áreas. Infelizmente, não funcionou. Perdeu-se a oportunidade e perdeu-se também o financiamento. Assumo a parte de responsabilidade que me cabe, mas continuo a achar que a maior responsabilidade foi de um painel que não conseguiu perceber o que realmente se pretendia. Havia inovação e, naturalmente, havia risco. Os alunos chegam-nos do secundário muito formatados: ou gostam de Matemática ou não gostam. E juntar estas duas componentes era, reconheço, um risco. Mas senti logo um primeiro problema. Sabem qual foi? Quando tivemos de escolher em que área enquadrar a licenciatura, não sabíamos onde a colocar! Porque o sistema da A3ES é muito rígido, muito assente nas áreas tradicionais. Quando tentamos fazer alguma coisa fora desse enquadramento, começam logo os problemas. Desde o início, a questão era: "Em que campo é que eu meto isto?"

24. Tem algum hobby fora da Geologia?

(risos) Há, por acaso, duas coisas. Um hobby mais antigo e outro mais recente, digamos assim. O mais antigo é a História. Sempre gostei muito de ler sobre História e de tentar compreender a evolução das sociedades, desde as mais antigas até às mais recentes. Inclusive, escolho um bocadinho os destinos de férias em função disso. Ainda no ano passado [2024] estive no México, para conhecer a cultura maia e aprender alguma coisa. Este ano [2025] até pode ser o Egito, para conhecer a história das pirâmides. O mais recente é a agricultura. Agricultura tradicional, de subsistência. Tenho lá no terreno couves, tomates, morangos, abóboras e uma grande variedade de árvores de fruto. Aliás, é um terreno que pertence à família há muitos anos e que sempre foi muito interessante pelas suas árvores de fruto. Temos lá laranjeiras com mais de 100 anos! Chama-se a isto a doença da velhice, também!

25. Qual foi o local mais bonito que já viu por causa da Geologia?

Acho que algumas das paisagens mais bonitas que vi por causa da Geologia, e que nunca mais esqueci, foram durante a nossa estadia em Angola, nomeadamente no sudoeste do país. Não consigo escolher um local em particular, porque há vários. É realmente uma região extraordinária do ponto de vista paisagístico. E diria entre Angola e a Namíbia, porque também tive oportunidade de conhecer algumas zonas da Namíbia. Há duas imagens que não me saem da cabeça. Uma é a da Serra da Leba e, em particular, a chamada Fenda da Tundavala. A outra é uma paisagem que se observa na estrada, quando se vem do norte da Namíbia em direção à fronteira com Angola. É uma região onde, ao longo de muitos quilómetros, as diferenças de altitude são inferiores a um metro. E, em determinados pontos, olhamos para a terra da mesma forma que olhamos para o mar. A vastidão do horizonte é tal que temos a perceção da curvatura da Terra: a paisagem prolonga-se até deixar de ser visível, tal como acontece quando olhamos para o mar. São duas imagens que, para mim, são inesquecíveis. E ambas estão ligadas a trabalhos que desenvolvi no âmbito da Geologia, claro.

26. Se pudesse viajar no tempo geológico e assistir a um evento geológico, qual escolheria?

Gostaria de ver quando começou a vida na Terra. É uma questão que sempre me despertou uma enorme curiosidade. Quando recebemos estudantes do secundário no LRN e falamos de urânio, ficam logo preocupados com os materiais radioativos. E eu costumo dizer-lhes: "Mas vocês já perceberam que, para além de terem elementos radioativos na vossa constituição, também têm materiais das estrelas?" E há cada vez mais teorias – as mais recentes continuam a apontar nesse sentido – sobre uma possível influência extraterrestre, chamemos-lhe assim, na origem da vida na Terra. Outra coisa que lhes costumo perguntar é: "O que é que distingue a Terra dos outros planetas do Sistema Solar?" Todos sabemos que a Terra tem uma dinâmica especial, nomeadamente a tectónica de placas. Mas essa máquina precisa de energia para funcionar e, mais uma vez, lá vêm os radioativos como motor. É um motor nuclear! Um motor nuclear, autenticamente! Mas o que eu realmente gostava de perceber era como tudo começou. Como surgiu a vida? Porque é que os outros planetas não têm condições para isso e aqui, em particular, sim? Não sabemos se será só aqui... Daqui a alguns anos, talvez venhamos a encontrar outras formas de vida espalhadas pelo Universo. A probabilidade não é muito grande e talvez a vida esteja restrita a este planeta. Mas era a isso que gostava de assistir: ao aparecimento da vida na Terra.


Intraclasto

A Coleção Krantz de Lâminas Delgadas da UC

Como intraclasto, a Elsa trouxe-nos as lâminas que já ensinavam sozinhas (há mais de 120 anos!): uma deliciosa coleção de 250 lâminas delgadas da conhecida (e ainda existente) casa alemã Krantz. Adquirida pela Universidade de Coimbra (UC) à casa Krantz, algures entre o final do século das máquinas que apitavam e o início do seguinte, por 325 marcos, esta coleção de 250 lâminas delgadas veio acompanhada de um catálogo com prefácio (em alemão, claro — Bildung über alles), datado de 1897, onde o autor explica que o objetivo era o ensino autónomo das rochas. Sim, já então se falava em autoaprendizagem! E nós aqui a achar que o e-learning é muito para a frentex... Num total 225 ígneas e 25 metamórficas (à data chamadas "de contacto", ainda o Streckeisen dos diagramas QAPF era uma célula pluripotente do destino), a coleção conta com amostras sobretudo da Alemanha (~70%), mas também da Hungria, Itália, França, Inglaterra, e até do Brasil, EUA e Nova Zelândia. Um verdadeiro Erasmus geológico, quando ainda se viajava de barco. A coleção chegou à UC num tempo em que ainda existia a Faculdade de Filosofia, antes da criação da de Ciências (1911), e integra o esforço de aquisição de equipamentos e coleções que então se viveu. Hoje é uma peça de valor histórico, didático e museológico e, sinceramente, ainda podia dar umas boas aulas. A Elsa é a orgulhosa guardiã desta relíquia, da qual pode descobrir mais neste trabalho (a partir da pág. 101).


Geomanias

Rocha preferida? Skarn

Mineral preferido? Berilo

Fóssil preferido? Trilobite

Era, Período, Época ou Idade preferido? Neoproterozoico

Unidade litostratigráfica preferida? Grupo das Beiras

Pedra mole ou pedra dura? Dura, claro.

Trabalho de campo ou de gabinete? Não é 50/50, mas 40 campo e 60 gabinete.  



Martelo ou microscópio? Microscópio.

Recursos minerais metálicos ou não metálicos? Metálicos.

Esparite, Esparrite, sparite ou sparrite? Aqui em Coimbra eu aprendi esparrite.


Teaser da Entrevista