Cristina Gomes

Setembro 2026






ENGENHARIA GEOLÓGICA

SÓCIA APG Nº O1268

Nascida no Porto e criada em Vila Nova de Gaia, foi inconscientemente que acabou no subconsciente da Terra. Engenheira geóloga, apaixonou-se pela Geotecnia, atravessou o Atlântico e hoje é diretora comercial da COBA na América Latina. Adora projetos de estradas, barragens, túneis, caminhos-de-ferro (e os comboios que lá andam) e as boas soluções.

"Quando estamos a fazer uma obra deste género, estamos, de alguma maneira, a querer domar ou controlar os geomateriais (...) É fundamental perceber como é que aquele maciço se formou, evoluiu e chegou até aos dias de hoje."

Foi de frente para o Atlântico — filho da tectónica de placas que tanto a fascina —, na Praia da Granja, que fomos ao encontro da Cristina Gomes. A nossa engenheira deste ano. Há sempre um engenheiro, mas esta vez é geóloga. O critério para escolher Engenharia Geológica? Sair de casa. Já cá tivemos motivos menos nobres. Acabou por se apaixonar pelo curso apenas no mestrado e construiu uma carreira dedicada a resolver problemas que a maioria das pessoas nem chega a imaginar que existem. Bem lhe dizia o pai: "Agora vais estudar o subconsciente da Terra". E, às vezes, ela, a Terra, está mesmo de mau humor, sobretudo quando insistimos em não respeitar a natureza das formações. Túneis, barragens, estradas, caminhos de ferro e uma longa aventura profissional na América Latina ensinaram à Cristina que, em Geotecnia, antes de qualquer cálculo é preciso compreender a história geológica do terreno. Talvez por isso nunca tenha perdido o fascínio pelas cartas geológicas, nem a paciência para pensar mais tempo nos problemas antes de avançar para as soluções. Venham conhecer esta engenheira geóloga portuense que descobriu tarde a sua vocação, mas chegou mesmo a tempo e que, se tempo houvesse, já ia a caminho da próxima, porque acha um desperdício dedicarmo-nos a uma só coisa a vida inteira.


Entrevista 

Praia da Granja, São Félix da Marinha, setembro de 2025


1. Nome, data e local de nascimento.

Cristina Maria Bastos da Cunha Gomes, nasci no Porto em 26 de setembro 1965 e fui registada em Vila Nova de Gaia.

2. Conte-nos, como se fosse para leigos, o que faz profissionalmente

Bom, trabalho na COBA – Consultores de Engenharia e Ambiente, talvez a empresa mais antiga e uma das maiores empresas de consultoria de engenharia em Portugal. É, basicamente, uma empresa dedicada ao projeto, mas também fazemos fiscalização, Owner's Engineer, gestão de diferentes tipos de projetos, essencialmente de grandes infraestruturas públicas. Tem duas grandes áreas. Uma ligada às infraestruturas de transporte, desde projetos de autoestradas a estradas convencionais; outra ligada ao setor da água, que inclui projetos de rega — desde a rega tecnificada à rega convencional —, abastecimento de água, saneamento e estudos de macroplaneamento, a nível nacional, regional e até local. Nestas áreas cobrimos praticamente todas as disciplinas da engenharia: mecânica, eletromecânica, equipamentos, engenharia civil, estruturas... Eu entrei para a empresa na área da geotecnia. Tirei Engenharia Geológica e comecei no Departamento de Geotecnia. Atualmente já desempenho outras funções.

3. Em que ano e onde entrou na universidade e em que curso?

Entrei em 1983 na Universidade de Coimbra, em Engenharia Geológica.

4. Em que momento é que percebeu que era a Engenharia Geológica que mexia consigo?

Bom, mexer comigo, mesmo, só no mestrado. Eu diria que me apaixonei pelo meu curso só no mestrado. E passar a gostar foi só nos últimos anos do curso, quarto ou quinto ano. Eu fui parar a Engenharia Geológica um bocadinho sem querer. 

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'(...) se calhar eu também teria a mesma reação. Uma pessoa pensa, "Ok, é agora que tenho de me levantar e ir para baixo de alguma coisa ou aguenta assim?" '

5. Como é que isso aconteceu?

Quando me candidatei, a minha família ficou sem perceber bem, porque eu sempre dizia que queria Psicologia, mas sabia que não entrava porque, na altura, a média de entrada era de 15 e tal e faltavam-me ali umas décimas. Depois tinha o sonho de ir estudar para fora de casa e queria, sobretudo, ir para Coimbra. Portanto, o critério foi escolher um curso que houvesse em Coimbra e não houvesse no Porto. A minha ideia era depois poder pedir transferência... ou não. Não sabia bem o que queria seguir, nem o que faria com o curso de Engenharia Geológica, para dizer a verdade. Tive Geologia no 12.º ano e gostava, mas não sabia bem o que a Engenharia Geológica era. Queria Geologia, mas Geologia mesmo não era bem a minha coisa. Havia Engenharia Geológica em Coimbra e não havia em mais lado nenhum... Ok, então vamos! O meu pai, que tentava apoiar-nos em tudo, andou ali uns meses a tentar perceber e, a certa altura, disse "Minha filha, acho que já entendi porque é que tu vais para Engenharia Geológica! Durante muito tempo querias Psicologia para estudar o subconsciente humano e agora vais estudar o subconsciente da Terra." E eu respondi-lhe "Olha, pai, é uma boa teoria... portanto, pode ser." E assim foi. A verdade é que, nos primeiros anos da licenciatura em Engenharia Geológica em Coimbra, as disciplinas são todas comuns às engenharias.

6. Qual era a duração do curso?

Na altura, o curso era de cinco anos. Os primeiros três anos são, basicamente, o tronco comum das engenharias, com Análise, Física, Química, Estatística, Resistência de Materiais, Mecânica... Portanto, aqueles anfiteatros cheios de gente de todas as engenharias (Civil, Química, Mecânica), todos misturados. E eu, sendo sincera, continuava sem saber bem o que é que ia fazer com o meu curso, mas lá fui. Naturalmente há algumas disciplinas na área da Geologia, mas não têm muito peso no primeiro e no segundo ano. O forte é o tronco comum da engenharia. É no quarto e no quinto ano que começo a ter disciplinas de Geologia e de Geologia Aplicada que me começam a agradar mais. E eu começo a dizer "Ah, isto afinal tem a sua graça!". Mas, sem dúvida, é no mestrado que se me acendem uma série de luzes. Tive muita sorte no mestrado, porque éramos 10 ou 12 alunos, no total, porque eram dois mestrados, de Geologia de Engenharia e de Mecânica dos Solos. Tivemos muito bons professores, entre os quais o professor [António] Mineiro, que me fez apaixonar pela Mecânica dos Solos; o professor [António] Pinto da Cunha, pela Mecânica das Rochas; e o professor Ricardo Oliveira, pela Geologia de Engenharia. Acho que foi com os três que se deu a grande viragem.

7. Durante a licenciatura, qual a disciplina que mais a marcou?

Gostei muito de Geologia Estrutural, das petrologias e, em particular, da Petrologia Ígnea, dada pelo professor Manuel Godinho. Gostei muito da Hidrogeologia, dada pelo professor Lopo Mendonça, do trabalho de campo com o professor Nabais Conde, mas aí não era só pela disciplina, era muito pelo professor. Diria que estas foram, se calhar, as disciplinas que mais me marcaram e que mais me agarraram. Naturalmente, as disciplinas também têm muito a ver com quem as dá.

"Portanto, o critério foi escolher um curso que houvesse em Coimbra e não houvesse no Porto. (...) Havia Engenharia Geológica em Coimbra e não havia em mais lado nenhum... Ok, então vamos!"

8. Quem foram os seus colegas de curso na altura?

Sou do ano do Carlos Rodrigues, do Coxito, da Paula Frade veio para os serviços geológicos aqui no Porto. Nós éramos 11 alunos, ninguém ficou em Coimbra. A Lídia [Catarino] já não estava, ela era da primeira leva, isto é, no ano que eu entrei tinham terminado, tinham saído, os primeiros licenciados. Como foi também o caso do Alexandre [Tavares], eles chegaram a ser meus monitores, a dar-nos as primeiras aulas práticas.

"Acho que a vida é relativamente curta e é um bocadinho desperdício fazermos só uma coisa a vida toda."

9. Que tipo de aluna considera que foi?

Média. Até por isto que já disse, nos primeiros anos andava assim ali a perceber o que é que era aquilo, não é? Diria que no secundário era uma aluna boa, na faculdade era uma aluna média. No mestrado voltei a ser uma aluna boa. Acho que tudo tem a ver com o entusiamo e o estímulo.

10. Era uma aluna participativa ou mais calada?

Também média. Falava o que tinha a falar, mas não era assim muito participativa. Acho que me identifico com muitos dos miúdos de agora – e daquela altura também – que quando entram não sabem bem o que querem. Vejo pela minha sobrinha, entrou em Medicina, mas mesmo antes perguntava-se: "Mas vou para Medicina? Para Direito? Para Relações Internacionais?". Eu era um bocadinho também assim. Via-me a fazer muitas coisas ao mesmo tempo, e não só uma. A minha irmã, mais nova, é psicóloga e eu muitas vezes penso "Deus me livre se eu tinha tirado Psicologia…" (risos) É que eu tinha tido Psicologia no liceu e adorava a professora. Eu acho que são estas coisas que acabam por nos condicionar muito.

11. Mas via-se a fazer outra coisa?

Eu vejo-me a fazer muitas coisas! Mas não na área da Geotecnia ou da Geologia. Agora eu acho que a vida é relativamente curta e é um bocadinho desperdício fazermos só uma coisa a vida toda. Quando houve aquelas crises financeiras e muita gente ficou sem emprego, eu dizia sempre: "Eu não tenho medo de trabalhar. Vou fazer bolinhos e vender na praia! Não tenho problema nenhum."

12. Então e se pudesse baralhar tudo e voltar a dar, voltava a seguir a área da Geotecnia?

Ai, não sei, não faço a mínima ideia! Talvez não. Mas se já tivesse vivido o que vivi hoje, não! Ia de certeza fazer outra coisa, porque esta já fiz, já está, já tenho o "visto".

13. Disse que já tinha esse "bichinho" por Coimbra. O que é que a chamava? Era a tradição académica?

Não sei. Até porque no início foi um bocadinho desilusão, para dizer a verdade. Depois, com o tempo, gostei. O meu avô fez a tropa em Coimbra e sempre me falou de Coimbra com uma nostalgia enorme. Coimbra era a cidade universitária. [Os meus pais] não me deixavam sair muito, portanto, eu queria era ir estudar para fora. Nós éramos seis irmãos, três raparigas, três rapazes e eu era a mais velha das raparigas. Tive de desbravar um bocadinho o terreno para poder sair, aquela coisa de uma família convencional do Norte. De certo modo, queria ter a minha independência e Coimbra parecia-me muito bem. E, na altura, tinha namorado aqui [no Norte], o que não ajudou. Mas acabei por gostar. Também não sou muito exigente.

14. Envolveu-se um bocadinho com a associação académica?

Não frequentei muito a Associação Académica, não. Saía muito, mas não propriamente para as atividades académicas. Frequentei muito as repúblicas e os cortejos. Latadas, não falhei nenhuma! Fui a todas! (risos) E, atenção, gostei muito do meu tempo em Coimbra. No primeiro ano, nos primeiros meses, é que foi talvez mais difícil. Às vezes idealizamos coisas que depois não são bem assim, não é? A primeira casa em que fiquei também não era a casa de que gostava. Depois mudei para uma de que gostava mais. A partir daí, gostei muito e tenho muito boas memórias do meu tempo em Coimbra, sem dúvida nenhuma.

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15. Envolvia-se na organização de eventos, como a Feira dos Minerais ou saídas de campo?

Na altura, nós éramos um curso muito pequenino. Não havia outros polos. A Economia estava lá em cima, a Medicina era no hospital velho, a Farmácia era ali, tudo era ali. Nós éramos um grupo muito pequenino, portanto nem tenho ideia de haver grande organização, nem mesmo na Geologia, nem nada no nosso departamento.

16. Havia algum sítio que vocês gostassem particularmente de ir para saírem, para se divertirem?

A Praça da República era o ponto de encontro. Aqueles cafés, o "Tropical", por exemplo. Nunca me esqueço de, sendo recém-caloira, o professor [João Carlos] Namorado me dizer: "A menina, vi-a naquele antro do Tropical!". E eu fiquei muito assustada. Depois ele disse a seguir: "Mas não se preocupe, que eu também estou lá todos os dias!" (risos). Era um sítio onde toda a gente parava.

17. Na sua vida profissional atual, qual é a atividade que mais prazer lhe dá?

Projeto, sem dúvida. Fazer um projeto de Geotecnia. Nós fazemos muitas obras de grandes infraestruturas públicas: estradas, caminhos de ferro, barragens, pontes, túneis... Gosto de todas! Fazemos a componente de Geologia Geotécnica. Gosto muito de comboios, mas gosto de todas as obras, no geral. Gosto muito da parte do trabalho de campo e, sobretudo, da conceção das soluções. Quando estamos a fazer uma obra deste género, estamos, de alguma maneira, a querer domar ou controlar as formações, os geomateriais. Numa perspetiva geotécnica, temos de entender qual é o comportamento geomecânico e hidrogeológico dessas formações. Para isso, é fundamental perceber um bocadinho como é que aquele maciço se formou, evoluiu e chegou até aos dias de hoje. Isto é uma coisa em que, muitas vezes, os colegas que vêm da Geotecnia e não têm formação em Geologia têm mais dificuldade. Olham para o maciço e veem um ângulo de atrito, uma coesão, um módulo de deformabilidade, mas sem verem esse contexto geológico. Naturalmente, veem outras coisas que se calhar nós também temos dificuldade em ver. Dei aulas no Minho e na [Universidade] Lusíada durante uns anos e dizia muitas vezes aos alunos e às equipas que coordenava que uma boa solução é, de alguma maneira, aquela que consegue rentabilizar, otimizar, aproveitar ou ir ao encontro do comportamento natural das formações que estamos a tratar, e não contrariá-lo. Por exemplo, se estiver a fazer um projeto de um sistema de drenagem subterrânea, é preferível tentar aproveitar um caminho natural de escoamento do maciço do que criar uma barreira e ter de impermeabilizar esse sistema, obrigando a água a encontrar um caminho alternativo. Normalmente, daqui resultam soluções mais eficientes e, sobretudo, mais económicas. Esta conceção é, para mim, a parte de que gosto mais.

18. Há algum projeto, alguma obra, que tenha sido particularmente difícil?

Sim, tive obras desafiantes. Houve uma engraçada, cujo projeto não era da COBA, mas em que fizemos a assistência técnica. Era uma variante em Sangalhos e a obra em si não tinha nada de especial. Mas um dia, quando a escavação, com cerca de oito metros de altura naquele troço, já estava feita e íamos escavar a caixa do pavimento, ligam-me da obra muito aflitos: "Engenheira, Engenheira, encontrámos aqui uma coisa que parece ser petróleo!" E eu: "Epá, petróleo? Agora estamos ricos e não sabemos... Queres ver?" (risos) Chegámos lá e tínhamos intercetado um enorme nível de depósitos vegetais antigos. Era um nível de lignite, com muitos restos vegetais muito bem preservados, alguns já com algum grau de carbonificação. Tinha troncos com metros de comprimento que se conseguiram preservar debaixo daquelas formações. Era datado do início do Quaternário, do Plistocénico inferior. Há ali algumas zonas da região Centro com formações desse género. Depois fizemos uma série de estudos e percebemos que, abaixo da cota do pavimento, aquele nível ainda tinha cerca de 15 metros de espessura. Conservou-se porque estava confinado entre estratos de uma argila muito sobreconsolidada e muito impermeável, que isolou aquele material. Nós, ao fazermos a escavação, retirámos essa capa superior de argila e deixámos o depósito completamente exposto, sujeito a um processo de decomposição acelerado. E o nosso pavimento apoiava-se ali. Claro que esta situação me deu um certo gozo. Na altura, estava a fazer o meu doutoramento em aterros sanitários — não tem nada a ver, era sobre o comportamento geomecânico dos aterros — e, depois de andarmos ali a pensar, e de termos chamado também o Departamento de Arqueologia da Faculdade de Letras para caracterizar os restos vegetais, acabámos por optar por voltar a selar o depósito. Ou seja, repusemos a situação inicial com geomembranas, membranas e geogrelhas, naturalmente fazendo um reforço estrutural do pavimento. A filosofia foi voltar a fechar o sistema e construir drenagens superficiais para impedir a infiltração da água. Inicialmente, chegou a pensar-se em fazer uma laje, viadutos, estacas, soluções pesadas... Nós demorámos, se calhar, mais tempo a pensar e a caracterizar o problema do que a construir a solução. E a solução acabou por ser barata. Aquilo está feito há mais de 20 anos e nunca deu problema nenhum. Mas isto tem muito a ver com aquilo de que falava há pouco: primeiro perceber o que lá está, porque estava lá, como conseguiu manter-se durante todos aqueles anos, e tentar aproveitar essas condições. São situações que não acontecem todos os dias, ainda por cima exatamente à cota do pavimento. Ia fazer o quê? Aquela massa vegetal toda ia dar assentamentos brutais. E, ainda por cima, não há nenhum modelo geomecânico que permita calcular aqueles assentamentos e a sua evolução no tempo. Claro que, como eu vinha de estudar sistemas de confinamento e a deformação por decomposição nos aterros sanitários, fiz ali um mix e pensei: "Deixa lá inventar aqui um bocado! E se eu tratasse isto como se fosse meio um aterro? Não é um aterro, é uma estrada... mas não faz mal. Depois faz-se um reforço..." E aquilo funcionou. Portanto, esta parte deu-me imenso gozo.

"(...) ligam-me da obra muito aflitos: "Engenheira, Engenheira, encontrámos aqui uma coisa que parece ser petróleo!" E eu: "Epá, petróleo? Agora estamos ricos e não sabemos... Queres ver?" (risos)

19. Na sua vida profissional, consegue identificar algum momento que possa ser considerado um embaraço ou um falhanço?

Não. Houve momentos mais difíceis, como este que acabei de contar, dos "petróleos", ou outros projetos com situações menos lineares de resolver, mas que são desafios. A ida para a Colômbia, naturalmente, também teve os seus desafios. Passei lá vários momentos difíceis, que deram luta. Uma pessoa sente-se insegura, mas tive de os resolver. Foram quatro anos e meio e estava lá sozinha. Fomos chamados muitas vezes para conceber soluções e resolver problemas de rotura de taludes, mas, felizmente, nunca houve acidentes com pessoas.

20. O que é que lhe dá menos gozo?

A burocracia. Algumas coisas administrativas e alguma parte da promoção comercial. O marketing, a divulgação que naturalmente temos de fazer, apresentações... Quando temos uma direção comercial, isso faz parte, mas, em termos de satisfação pessoal, não me dá grande realização. Os mercados da América Latina são extremamente burocráticos, muito mais do que nós. Para qualquer coisa que seja preciso fazer, a burocracia é muito pesada. E acaba sempre por passar por mim, nem que seja para validar, perceber como funciona. É uma coisa que tem de ser feita, naturalmente, mas não me dá gozo.

"Os colegas [da Geotecnia, não geólogos] veem um ângulo de atrito, uma coesão, um módulo de deformabilidade. (...) Nós vemos também a história geológica daquele maciço."

21. Tem algum hobby fora do mundo da engenharia geológica? Ou algum talento?

Talento, não tenho. Gosto de ler, de viajar. Gosto muito de conviver com os amigos. Uns jantares, uns passeios, um bom vinho... Acho que um geólogo, como dizia o professor Nabais [Conde], tem de gostar de vinho, café e caminhar, não é? (risos) Gosto disso tudo. E gosto cada vez mais de comboios, de viajar de comboio.

22. O que é que mais gosta de ler?

Leio de tudo. Desde que me conheço, desde a adolescência, não consigo adormecer sem ler. Até posso nem ler nada, até posso estar ali a cair de sono, mas tenho aquele ritual de pegar num livro... E eu leio na cama, não é nos comboios, é na cama. Gosto de policiais, de romances históricos. Biografias, nem tanto. E livros sobre temas atuais.

23. E da área profissional, há alguma publicação de que goste muito?

Nas publicações, no geral, fascinam-me as cartas geológicas. A cartografia é uma coisa de que gosto muito. Aliás, acompanhei e fui responsável técnica pela Carta Geotécnica do Porto, na primeira e na segunda edição. Desde sempre gostei de mapas, de acompanhar o meu pai a guiar e ver os caminhos nos mapas, de fazer caminhadas e seguir os percursos nas cartas militares. Sempre me fascinou a capacidade de representar, num espaço tão pequeno, a Geologia, com aqueles símbolos todos. Dizia: "Uau, que paciência, que rigor, que detalhe!" Quanto aos livros, talvez o Ingeniería Geológica, do [Luis González de] Vallejo. É um livro completo, não muito aprofundado, mas que aborda todas as áreas. É bom para consulta, para os alunos, e depois, a partir daí, aprofundar com outras obras. É um livro bastante completo e didático.

"Sempre me fascinou a capacidade de representar, num espaço tão pequeno, a Geologia, com aqueles símbolos todos. Dizia: "Uau, que paciência, que rigor, que detalhe!"

24. Se pudesse escolher um geológo ou engenheiro geólogo que admire muito, quem escolheria?

É muito difícil dizer. Na faculdade, seriam os que já referi anteriormente. Na fase profissional, seria o doutor Ricardo Oliveira. Se for ao nível dos grandes nomes, se calhar escolheria um [Alfred] Wegener ou um [Harry] Hess, toda essa gente ligada à tectónica de placas e à deriva dos continentes. Fascina-me um bocado toda essa área. Portanto, estamos a falar de escalas e de coisas muito diferentes. Dos mais jovens, vocês [equipa da entrevista: André Santos, Inês Pereira e Sofia Pereira]. (risos) Por outro lado, para mim, os professores Lopo Mendonça e Nabais Conde foram pessoas muito importantes para me despertar e fazer interessar pelo curso. O doutor Ricardo Oliveira, nitidamente, marcou toda a minha vida profissional, não só em termos de ensinamentos na área da Geotecnia e na área empresarial, mas também como referência enquanto pessoa, a todos os níveis. Diria que, basicamente, são essas as pessoas mais importantes. E depois, naturalmente, vários colegas.

25. Gosta de viajar? Já escolheu o destino pela Geologia?

Viajar por causa do gosto pela Geologia, não. Agora, dizer que a Geologia é o motivo de imensas paisagens fantásticas, não tenho dúvida nenhuma.

26. Então qual o sítio mais impressionante que já visitou do ponto de vista geológico?

Não consigo escolher só um... Sei lá... Na Turquia, a Capadócia e Pamukkale; a Grande Barreira de Coral; os fiordes chilenos; o Death Valley [EUA], com as sequoias; o nosso Douro Internacional e o Douro Vinhateiro; o [deserto do] Atacama; o mar das Sete Cores, na Colômbia... Enfim, são sítios que, se não fosse a Geologia, nenhum deles era o que é.

27. Se pudesse viajar para assistir a um evento geológico, em segurança, qual escolheria?

Se calhar ia ali para o fim do Cretácico, para a extinção K-Pg [Cretácico-Paleogénico ≈66Ma]. Primeiro, ia acabar com as discussões sobre o que é que se passou ou deixou de se passar. Havia muita coisa, foi uma altura animada. Era um bocado perigoso… mas, também, tudo para trás era perigoso. (risos) Até hoje é perigoso. 


Intraclasto

Santa Bárbara, protegei-nos... dela

Como intraclasto, a Cristina trouxe-nos um conjunto de fotografias da sua primeira obra subterrânea: o túnel da Régua, em meados da década de 1990. Esperava-se uma história sobre Geotecnia, Mecânica das Rochas e escavações. Afinal, a primeira dificuldade da obra nem sequer era geológica. Na companhia do doutor Raul Pistone, especialista em obras subterrâneas da COBA e uma das suas grandes referências, a Cristina entrou no túnel... e os operários começaram todos a sair. Não por causa de uma rotura iminente nem de um problema de estabilidade do maciço. Muitos eram antigos mineiros espanhóis e acreditavam que a presença de uma mulher numa mina — ou, de forma mais abrangente, no mundo subterrâneo — dava azar. A obra prosseguiu, a superstição acabou por ceder, mas, pelo sim, pelo não, Santa Bárbara continuou a ocupar um lugar de honra à entrada do túnel durante toda a empreitada. No final, houve padre para benzer a obra e uma garrafa de champanhe partida na inauguração, como manda a tradição dos navios. Entre crenças, santos, bênçãos, espumante e uma jovem engenheira, o túnel mantém-se de pé e a única coisa que caiu foi a superstição.


Geomanias

Rocha preferida? Granito

Mineral preferido? Quartzo, mas também gosto muito da moscovite

Fóssil preferido? Amonite

Era, Período, Época ou Idade preferido? Cenozoico

Unidade litoestratigráfica favorita? Complexo metamórfico da Foz do Douro

Afloramento ou corte favorito? Foz do Douro, Porto

Recursos minerais metálicos ou não metálicos? Não metálicos  




Trabalho de campo ou de gabinete? Campo

Pedra mole ou pedra dura? Pedra dura

Diáclase ou DiaclaseDiaclase


Teaser da Entrevista