
Joana Rodrigues
Fevereiro 2026
COMUNICAÇÃO DE CIÊNCIA
SÓCIA APG Nº A1367
Natural do Porto, seduzida pela natureza não-viva, acabou na Geologia. Pianista por formação paralela, é apaixonada por geoconservação, ordenamento e comunicação de ciência. Começou professora, mas foi como geóloga no Geoparque Naturtejo que descobriu que a comunicar é que a gente se entende. Fala rápido, sonha a cores e defende o património geológico a sorrir.
"Não é que toda a gente tenha de ser excelente comunicador, ou que toda a gente tenha de o fazer. Há pessoas que estão bem no laboratório e no campo, mas é importante, faz parte da responsabilidade profissional. Sendo que a nossa área, mais do que qualquer outra, está muito ligada a muitos dos problemas e desafios que a nossa sociedade e o nosso planeta enfrentam. Portanto, nós temos alguma responsabilidade de dar respostas, mas não precisamos fazer todos podcasts e escrever livros de banda desenhada"
Uma tarde de agosto cinzenta pelo fumo emprestado de um incêndio distante contrastava com a colorida e sorridente Joana Rodrigues, entre as pedras que tornou suas ao longo de duas décadas em terras Naturtejo. Nascida no Porto, desde cedo mostrou um talento especial para fazer escolhas inesperadas: deixou o piano e o canto e foi tocar e dar voz às pedras. Começou por ser professora de ciências e, a bem dizer, continuou, apenas mudou o público e a sala de aula: dos geoparques de cá lá para fora, foi-se dedicando crescentemente ao património geológico. Foi então que percebeu que comunicar ciência é tão importante quanto a própria ciência e que convencer alguém que só queria comprar laranjas de que a Geologia é inescapável exige mais sagacidade do que a exibida nos debates políticos… e sem truques de teleprompter. Mas a comunicação da ciência é como a fotografia: não basta ter uma boa máquina. A Joana percebeu-o e está prestes a terminar um doutoramento que une ciência, comunicação e a arte de persuadir decisores vários a pensar em rochas. E precisamos muito de Joanas. Venham conhecer esta geotagarela, que vive de novidades à escala semanal e nunca perde a oportunidade de surpreender com ciência quem menos espera. E se a vida lhe der limões? Sem problema: ela falará de pedras.
Entrevista
São Pedro de Vir-a-Corça, agosto de 2025
1. Nome, a data e o local de nascimento.
O meu nome é Joana Rodrigues, nasci no Porto, a 17 de fevereiro de 1982.
2. Conte-nos, de forma simples, para leigos – como se fosse para a minha mãe –, o que faz profissionalmente?
O meu trabalho foca-se em duas vertentes. Por um lado, na parte do património geológico, na geoconservação, e o meu objetivo tem sido trazer o património geológico para as políticas de ordenamento, para o desenvolvimento local. Tentar que o património geológico passe a estar contemplado, da mesma forma que a biodiversidade já está, na nossa legislação. Tentar chamar à atenção de todos os agentes locais, quer sejam decisores políticos, empresários, os próprios agentes das autarquias, toda uma grande variedade de atores, para que percebam que o património geológico é importante e que deve ser considerado. Por outro lado, isso depois levou-me a que começasse também a trabalhar mais na área da comunicação. Comecei pelo património, onde tentamos preservar aquela parte mais importante da geodiversidade, aqueles elementos da história do nosso planeta que devem ser preservados porque é nesse sítio que melhor conseguimos contar a história. O facto de eu ter de mostrar isso às pessoas, e argumentar porque é que devemos preservar e porque é que devemos contemplar isto quando estamos a pensar no nosso ordenamento, na ocupação do território, etc, levou-me a começar a focar-me na área da comunicação. E o que eu tento fazer é dar voz à Geologia: o que faz a Geologia, porque é importante, porque é que a Geologia tem de ser incorporada nas várias vertentes da vida e porque é que a geodiversidade também é importante e ainda elencar todos os serviços que a geodiversidade traz ao nosso bem-estar e ao bem-estar do planeta, o porquê de eles também serem importantes. Ou seja, resumindo, é um pouco dar voz à geodiversidade invisível, à Geologia que é pouco considerada e ao património geológico que ainda é desconhecido.
3. Em que ano e onde entrou no curso de Geologia?
Entrei em Geologia na Universidade do Porto, em 1999.
4. Porque é que escolheu Geologia? E como reagiu a família?
Contrariamente ao que toda a gente estava à espera, que sempre acharam que eu iria para a área das humanidades, ou quanto muito para a área das artes, Geologia caiu assim um bocado do nada e, de facto, as pessoas ficaram um bocado admiradas. A partir do secundário comecei a gostar muito, entusiasmei-me muito com a natureza, com o meio ambiente, mas não gostava ou não tinha aquela afinidade que as pessoas têm pelos animais e pelas plantas. E eu vivia com um dilema, vivi um ou dois anos com este dilema, que era: eu gosto da natureza, mas aborrece-me estar ali a ver a lagartixa. E então surgiu, já não sei exatamente como, a Geologia, a geodiversidade. É uma parte da natureza. E foi assim que apareceu como uma paixão arrebatadora: a Geologia. Quando fui professora, aliciava-me bastante mostrar aos alunos, desde cedo, que a Geologia era parte da natureza e que era interessante e era emocionante, ainda que os currículos fossem muito quadrados para aquilo que eu pretendia. Quando comecei a trabalhar em património geológico, vi que tinha uma vantagem, que era a articulação com muitas áreas. Em muitos anos de geoparque eu tive de trabalhar com todo o tipo de pessoas, por exemplo, com produtores que têm quintas, e a articulação da produção agrícola, do solo, da água, a introdução dos geossítios em rotas culturais… foi aí que percebi que a Geologia podia ter uma aplicação concreta e impacto em muitas áreas transversais. Isso acho que me realizou. (risos)
5. Foi logo no primeiro que pensou que tinha feito bem em escolher Geologia, ou ainda demorou?
Foi! Eu confesso que me senti um bocado perdida ao longo do curso, pensava "Eu gosto muito disto, mas não me via a fazer assim nada". Demorei a encontrar o que gostava. Aliás, foi um processo. Desde o ensino, passando pelo património, e depois a comunicação, não foi assim de imediato. Eu sabia que era "A Geologia", mas faltou-me o ângulo! (risos)
6. Nos tempos de estudante universitária, foi uma aluna média, boa ou muito boa?
No tempo da licenciatura era média e tímida. Quando entrei no mestrado, comecei a ter melhores notas e a ser mais interventiva. Acho que foi o misto entre maturidade e paixão que me fez ser mais aplicada.

Aulas de campo de Geologia de Portugal, com o professor Tomás Oliveira [Universidade do Porto]
7. E envolveu-se em atividades extracurriculares?
Sim, cheguei a colaborar numa das feiras dos minerais e nós, no Porto, tínhamos as oficinas pedagógicas de Geologia, no Palácio de Cristal, que também foram uma excelente escola. Havia lá um espacinho, uma salinha, em que recebíamos escolas todas as semanas e fazíamos atividades, principalmente sobre aplicação de minerais, ou qual a aplicação da Geologia no geral, curiosidades, etc.
8. Tem algum colega do mesmo ano que tenha ficado também pela Geologia?
Tenho, mas não são famosos. (risos) Eu tenho muitos colegas que estão em Angola, em Moçambique, etc. Dos colegas mais velhos, se calhar conhecem o Romeu [Vieira], o Carlos Almeida ou a Eva Lima, dos Açores. De Lisboa, do meu ano, havia a Rita Ferreira, que agora vive cá, que era casada com o João Geraldes, que infelizmente já morreu. Estiveram na Mongólia. Mas não, não tenho assim muitos no meu ano que sejam mais conhecidos. No ano a seguir ao meu, sim, a Joana Ribeiro, a Patrícia Santos, o Nuno Durães…

"(...) vivi um ou dois anos com este dilema, que era: eu gosto da natureza, mas aborrece-me estar ali a ver a lagartixa. E então surgiu (...) como uma paixão arrebatadora: a Geologia."
9. Qual a disciplina que mais gostou e quem é que a lecionava?
Durante a licenciatura foi Geologia de Portugal, com o professor Tomás Oliveira, porque foi a primeira disciplina onde comecei a ligar mais as coisas, tudo, todas as coisas aborrecidas que se aprendia em petrologia ígnea ou petrologia metamórfica, ou recursos minerais, ou até de Geologia de Portugal. Começavam a juntar-se e a criar assim alguma lógica. E íamos para o campo e o professor Tomás Oliveira tinha uma forma de contar histórias, e tinha sempre muitas para contar, o que tornava as coisas interessantes. Mesmo que muitas vezes eu não percebesse metade do que ele estava a dizer. Mas o entusiasmo dele contagiava e a forma como ele via a Geologia, também. Era, ao mesmo tempo, um ponto de vista clássico, da História, foi muito inspirador. No mestrado foi a disciplina de Estratégias de Conservação, com o professor [José] Brilha, porque foi a primeira vez que comecei a ver de forma mais organizada e mais sistemática que o património também é uma área de investigação, que tem as suas metodologias, que também já se fazia alguma coisa mesmo em 2005 – muito menos do que hoje, mas já se fazia muita coisa interessante em Portugal. E foi bastante marcante.

"E o que eu tento fazer é dar voz à Geologia (...) dar voz à geodiversidade invisível"
10. Quando é que começou a enveredar por esta área da geodiversidade e da comunicação de ciência?
Inicialmente, quando entrei em 1999 no Porto, era para ir para a área cientifico-tecnológica. Entretanto, em paralelo com o estudo da Geologia, estava a fazer o curso de conservatório de piano, para aí o sexto grau. Eu também percebi rapidamente que não ia ser pianista, mas interessava-me muito a parte da musicologia, da história, da divulgação. Fui a muitos concertos nos anos 90, no Porto, e, mais tarde, na fase de Capital Europeia da Cultura, houve de facto muita oferta, muitos concertos para jovens, a tentar introduzir à música clássica pessoas que não gostavam. E eu via-me muito a ir assim nessa onda. Lá está, na área da comunicação e da divulgação. (risos) O conservatório também me deu alguma capacidade de trabalho, porque eu, a partir do décimo ano, não tinha vida. Tinha a escola, com o secundário com o horário completo, e depois ia todos os dias quase até às nove da noite para a escola de música, fora as horas a estudar piano. Depois ainda andei no canto… (risos) No canto lírico! Foi uma altura em que tinha história da música, acústica, composição, formação musical, coro, portanto, era muito intenso. Fora as horas que tinha de estar a estudar em casa. Então, achei que se calhar a Geologia s.s. iria consumir-me muito e que talvez fosse interessante ir para o ramo educacional. Até porque eu tinha alguma curiosidade sobre o ensino, sou filha de uma professora de Português. De facto, o quarto e o quinto anos da licenciatura nesse ramo educacional deram-me até muitas competências que hoje me são bastante úteis. Se calhar, se tivesse feito ao contrário seria mais difícil, isto é, depois de ter feito uns estudos mais científicos passar para a parte da comunicação. Portanto, essa escolha deu-me algumas bases. Depois, comecei a fazer o Mestrado em Património Geológico e Conservação em 2005. Foi o primeiro mestrado na área e já se ouvia falar, mais ou menos, destes temas. Por exemplo, estava em processo de candidatura o Geoparque Naturtejo, que viria a ser o primeiro geoparque em Portugal. Já havia algumas iniciativas, com o professor Galopim de Carvalho, o professor José Brilha, e na Universidade do Minho já estavam a fazer algumas coisas. Até confesso que quando me fui inscrever para o mestrado, havia outro de Ordenamento do Território e senti-me um bocado dividida. Mas depois de uma série de acasos, fui para património geológico e, realmente, foi a partir daí que descobri esta paixão que foi crescendo com o mestrado. Depois do mestrado, surgiu a oportunidade de fazer um estágio no Geoparque Naturtejo e daí fui seguindo, até que comecei também a colaborar com associações como a ProGEO [International Association for the Conservation of Geological Heritage]. Mais recentemente, como a comunicação foi tendo progressivamente mais espaço na minha vida profissional e académica, também comecei a colaborar com outras entidades, como a Ciência Viva, a EGU [European Geosciences Union], que inclui um grupo de comunicação, ou a Associação Portuguesa de Comunicação de Ciência. Mesmo a parte da comunicação de ciência, para a Geologia, era muito pouco conhecida e há pouca gente a trabalhar esta vertente. Ainda que muitos dos nossos colegas geólogos façam comunicação no seu dia a dia, continua a ser algo que está renegado ou fica relegado para o tempo livre, para fazer um bocadinho de promoção à entidade, ou só para responder aqui a um convite que alguém fez para desenrascar. Felizmente, as pessoas têm vindo a reconhecer um bocadinho mais a importância desta área. Não é que toda a gente tenha de ser excelente comunicador, ou que toda a gente tenha de o fazer. Há pessoas que estão bem no laboratório e no campo, mas é importante, faz parte da responsabilidade profissional. Sendo que a nossa área, mais do que qualquer outra, está muito ligada a muitos dos problemas e desafios que a nossa sociedade e o nosso planeta enfrentam. Portanto, nós temos alguma responsabilidade de dar respostas, mas não precisamos fazer todos podcasts e escrever livros de banda desenhada. Cada um tem de encontrar qual é a melhor forma de passar o seu conhecimento. Mas há pessoas que fazem isso profissionalmente e, portanto, há várias dimensões: entre quem tem de fazer o mínimo e que pode fazer caso se sinta confortável ou, de facto, quando são coisas com outra escala, quando estamos a falar de coisas estratégicas, com campanhas, com comunicação institucional, então nesse caso já há profissionais que podem fazer isso melhor.
11. A verdade é que foi andando lado a lado com esta temática, começou quando esta área estava a começar e foi crescendo com ela, culminando agora no doutoramento.
Bom, e espero ter contribuído de alguma forma. E é curioso, porque eu comecei a fazer o doutoramento em 2019, quando já tinha mais de 10 anos de trabalho. Primeiro como professora, porque eu fui professora de ciências no início da minha carreira! (risos) Comecei como sendo professora, do 5º ao 12º ano, e aí o meu trabalho durante quatro anos foi comunicar com os alunos do ensino básico e secundário. Mas os quatro anos em que eu dei aulas foram um bocadinho uma desilusão. E foram-no pelo sistema em si, não pela relação com os alunos, mas o próprio sistema era um bocado fechado e quadrado para o que eu gostava de fazer. Depois, durante estes anos todos no Geoparque Naturtejo, o meu dia a dia é comunicar, quer seja para as pessoas que vivem aqui nas aldeias, quer seja para os colegas que estão na academia, quer seja para os políticos, quer seja para as entidades nacionais, o ICNF ou o Turismo de Portugal. Precisam de perceber que a geodiversidade e os geoparques podem entrar nas políticas nacionais. Eu cheguei à conclusão que o meu dia era passado, praticamente, a comunicar! E eu sabia muito pouco. O que eu sabia era o que eu achava que funcionava bem, ia aprendendo, retive alguma coisa das minhas aulas de didática e de psicologia do desenvolvimento, mas, de facto, sentia que me faltava mais. Será que o que eu estou a fazer, com tanto esforço, com tanta dedicação, tem impacto? Resulta? Se calhar já alguém descobriu que isto pode ser feito de uma maneira muito mais fácil, com muito mais impacto. E foi daí que surgiu, então, a minha vontade de começar a estudar mais a sério a comunicação.
12. E qual é o seu público favorito? Para quem mais gosta de falar?
É muito difícil! (risos) Porque todos têm desafios diferentes. Em termos práticos, durante 16 anos no geoparque, lidei com muitos professores, muitos alunos e com programas educativos diferentes. Mas há um público mais fácil: as pessoas que procuram. Quando é um público que vem e diz "Olhem eu quero fazer uma visita", por exemplo, "À rota dos fósseis de Penha Garcia", ou "Quero ir ver as pedras parideiras", esse é um público que já vai interessado. E esse, eu costumo dizer que é um público até mais ou menos fácil. Atualmente, desafia-me mais estar, por exemplo, no meio de um mercado, no meio de uma cidade, e falar. As pessoas vão comprar laranjas e eu vou falar dos solos e das rochas, a partir das laranjas. Ou, como faço muitas vezes aqui no geoparque, uma atividade de prova de águas. As pessoas ou vão ao mercado, ou vão fazer termas, vão beber o copinho de água, porque faz parte do dia a dia, e a pessoa introduz a questão da água subterrânea: porque é que esta água faz bem ou porque é que esta água tem certas propriedades. Ou quando a pessoa está no mercado a comprar os legumes, saber porque é que esta água é especial. Ou porque é que estamos a utilizar esta rocha neste monumento e não estamos a utilizar outra? Ou seja, eu gosto muito destes contextos em que as pessoas não estão à espera de ter de lidar com ciência e de quando chegam à conclusão "Afinal isto, de que falo todos os dias, com que lido todos os dias, tem a ver com a Geologia".

"(...) gosto muito destes contextos em que as pessoas não estão à espera de ter de lidar com ciência e de quando chegam à conclusão "Afinal isto, de que falo todos os dias, com que lido todos os dias, tem a ver com a Geologia"

13. Naquilo que é a sua vida profissional, qual a atividade que mais prazer lhe dá e qual dá menos?
As que menos dão são fácies: as burocracias, as reuniões, gerir projetos, a parte dos orçamentos… Essas coisas, como responder a emails, não é? (risos) E reuniões, zooms e zooms e zooms. Agora que as pessoas já não falam ao telefone, passaram a fazer reuniões! (risos) O que mais prazer me dá…. normalmente são coisas novas. E nisso tenho tido muita sorte, ao longo de tantos anos de profissão, quase todas as semanas aparece alguma coisa que eu nunca fiz e vou ter de fazer! Eu gosto muito de olhar para o potencial de alguma coisa e tentar tirar o máximo, tentar polir, lapidar – agora como associação aos recursos minerais. (risos) Gosto de olhar, pode ser para um projeto ou para um sítio, ou para uma atividade que não está explorada, e pensar "Isto pode ser uma coisa espetacular!". Isso é o que me dá mais prazer. E, principalmente, se forem coisas inovadoras, fazer coisas diferentes. O que, por um lado, também me deixa muito desconfortável, porque a parte menos agradável no trabalho que eu faço – em que tenho de introduzir a geodiversidade no desenvolvimento local – é que eu muitas vezes vejo-me em contextos em que não percebo nada, com entidades de turismo, de agricultura, de gestão florestal. Por um lado, isso é entusiasmante, mas eu sentir-me sem pé, às vezes é um bocadinho desagradável. Imagina o que é estar numa reunião do Turismo de Portugal sobre gestão de produto turístico. O que eu sei de produto turístico é de fazer turismo, como utilizadora! (risos) Tenho alguma experiência de trabalho, do dia a dia, mas o meu conhecimento é muito reduzido. E custa-me chegar ali, com as minhas opiniões, quando estou a tratar com profissionais. E isso, às vezes, é estimulante, mas outras, passo ali algumas agonias.

"(...) nós esquecemo-nos, mas o professor Galopim de Carvalho foi agraciado pelo Presidente da República precisamente pelo que fez no património geológico e na comunicação! Quantos geólogos é que temos assim agraciados? Ainda por cima nestas duas áreas!"
14. Há algum geólogo, contemporâneo ou não, que admire muito?
Obviamente o professor Galopim de Carvalho, por todas as razões. Nunca foi meu professor, tive uma aula de mestrado com ele, mas é o pioneiro nas duas áreas em que eu trabalho: no património e na comunicação. Portanto, além de ser uma personagem inspiradora, abriu caminho para o que eu posso fazer hoje em dia. E mais, nós esquecemo-nos, mas o professor Galopim de Carvalho foi agraciado pelo Presidente da República precisamente pelo que fez no património geológico e na comunicação! Quantos geólogos é que temos assim agraciados? Ainda por cima nestas duas áreas! E continua a publicar, nas redes sociais, em jornais, livros, etc. Mas também admiro muito o meu professor de Cristalografia e Mineralogia, o professor Frederico Sodré Borges. Foi meu professor logo no primeiro ano e aquela entrada para a faculdade, em que era tudo tão diferente, e ele tinha uma mente e um cérebro organizado de forma tão diferente, tão genial… ainda que muitas das vezes eu não percebesse do que é que ele estava a falar. E isso era muito assustador, por um lado, às vezes era só bom estar a olhar. Era fantástico. (risos)
15. Qual é a sua publicação preferida na área das geociências?
O livro Geomonumentos, do professor Galopim de Carvalho. Por duas razões: por um lado, porque é uma obra pioneira da geoconservação em Portugal. O livro é de 1999! Por outro lado, porque eu comprei o livro quando estava no segundo ano da faculdade, ou no terceiro, numas férias. Estava a passear por Portugal e encontrei o livro, naquela altura em que estava perdida dentro da Geologia, não sabia o que é que me fascinava mais. Eu olhei para aquilo, "Geomonumentos", está aqui uma compilação de sítios relevantes para a história do nosso planeta, está aqui em Portugal. Que tem valor científico, mas que tem outro valor patrimonial, isto é genial! E, mais tarde, veio a ser a base do meu trabalho. Isto é uma relíquia!

Durante a estadia no Brasil, 2013-2014.
16. Qual o evento, ou o momento, mais marcante da sua carreira?
Tenho tido vários, felizmente. Trabalhei um ano no Brasil, em 2013-2014, na Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul, onde estive envolvida em vários projetos relacionados com áreas de conservação da natureza e uma ideia, um projeto, de geoparque. E foi marcante porque eu estive ali um ano num contexto completamente diferente. Mato Grosso do Sul não é o Rio de Janeiro, não é São Paulo, estava ali num contexto muito específico, no pantanal. E trabalhar com as populações indígenas: mundividências diferentes, prioridades diferentes, formas de ver diferentes. Isso marcou-me bastante. A oportunidade surgiu porque eles tinham um projeto de geoparque, que já tinha sido avaliado. Antes quem avaliava era a Rede Internacional de Geoparques, e não tinham tido muito sucesso porque era uma área muito grande: 30 000 quilómetros quadrados, ia-se de avião de uma ponta à outra! Eu ia de carro e demorava oito horas de uma ponta à outra do geoparque. E conheci, através de congressos, um dos responsáveis, que veio a uma conferencia de geoparques, e surgiu então uma hipótese de ir um ano para lá, pois havia umas bolsas de investigação. Foi uma aventura!
17. E um momento profissional mais embaraçoso, complicado ou um falhanço, há?
Momentos embaraçosos é o pão nosso de cada dia. Porque eu falo muito rápido e com muita paixão, digamos assim, por isso dizer 100 anos, ou 100 milhões de anos ou 10 milhões de anos ou cinco, sai-me assim normalmente. Há contextos em que até nem tem assim tantos problemas, mas há outros em que passo grandes vergonhas, de facto. À parte desses, com que eu já passei a conviver, já estou em paz comigo própria, há este. Há uns tempos estava a dar formação a empresários, de como introduzir o património natural na sua oferta turística, produtos locais, artesanato, durou vários dias. E falei, contei a história geológica, foi muito interessante a interação. E no último dia, no final, uma senhora disse "Eu gostei muito, acho isto maravilhoso, para quem acredita". Isto já foi há uns anos, se fosse hoje se calhar já estava preparada, já tinha algumas técnicas para dar resposta – fiquei congelada! Porque não tinha argumentos que pudessem responder. Se calhar hoje tinha tentado enquadrar as coisas de outra maneira, tinha tido mais cuidado na forma como ia apresentar, como ia fazer a construção do conhecimento até chegar ao fim. O enquadramento, a contextualização, é muito importante no processo científico. Mas, na altura, a minha única resposta foi tentar separar a parte mais religiosa, mas foi muito complicado. Mas tenho um falhanço, se calhar mais frustrante. Há dois anos estava em Marraquexe, quando houve um tremor de terra – 6.8 de magnitude – e eu já era geóloga há quase 20 anos, portanto, já sabia muito bem o que tinha de fazer, o que se devia fazer. E quando me apercebi que era um tremor de terra, entrei em pânico. Felizmente, estava com alguns colegas que, não sendo geólogos alguns deles, são dos Açores e, portanto, já fizeram, experimentaram e tiveram simulacros. E, então, fizemos todos os procedimentos, seguimos todas as regras. Mas no momento em que eu me apercebi que aquilo era um tremor de terra, congelei e olhei para ver, "Vou-me atirar daqui da janela". Isso é um falhanço profissional. (risos) Estávamos a acabar de jantar, num daqueles restaurantes todos em madeira, uma construção muito frágil. Tínhamos acabado o longo processo, de quase uma hora, de dividir a conta, porque éramos muitos, e quando me levantei comecei a sentir o sismo e lembro-me de pensar "Está a passar um camião…". Mas a rua era deste tamanho [gesticulando com as mãos], não passavam camiões ali! Estávamos com dois colegas dos Açores que não eram geólogos, mas sabem bem como agir. Portanto, do grupo, com geólogos que correram lá para fora aos gritos, nós ficámos debaixo de uma ombreira. Os empregados do restaurante desapareceram todos! Nós a vermos os quadros e os copos todos a abanar, debaixo de uma ombreira uma porta, agarrados, ouviam-se muitos gritos… Depois o pó começou a entrar pelo o restaurante, pelas escadas acima, e alguém disse, "Foi uma bomba!". E nós ficámos: se é uma bomba, não vamos para fora, vamos ficar cá dentro. Mas se isto foi um tremor de terra, vamos para fora, porque isto vai cair! (risos) E depois chegámos lá fora, como havia muitos edifícios que ruíram e caíram pequenas pedras, havia muitas pessoas ensanguentadas, muitos gritos… Metade do nosso grupo, com quem estávamos, ficou no hotel e, apesar do susto, foi mais pacífico.

"As paisagens dos Açores são qualquer coisa de impressionante. Já estive no Brasil, Argentina, China, estes são assim os países mais espetaculares que visitei. Mas, ainda assim, os Açores conseguem bater tudo."
18. Via-se a fazer outra coisa na área das geociências ou fora dela?
Sim, via-me a fazer muitas coisas fora da área das geociências. Na área da comunicação, de certeza. Via-me, também, a fazer alguma coisa na área artística. Gosto muito de música, continua a ser uma grande paixão. Acho que isso podia ter sido um caminho. (risos)
19. Há algum hobby extra Geologia, algum talento menos conhecido para além do piano?
Não é um talento, é uma aptidão que eu tenho, não lhe chamemos talento. (risos) Muito pouco, agora toco muito pouco. Neste momento, por razões logísticas, como estou a mudar de casa, tenho o piano há uns três anos longe de mim. E também porque quando se faz uma tese de doutoramento, aos 40, sobra muito pouco tempo para fazer coisas. Nem ler, nem regar a horta, nem jardinagem, caminhadas, fica tudo um bocadinho para segundo plano, já me estou a esquecer um bocadinho de hobbies. (risos) Nem dançar! Gosto muito de dançar, de festivais de dança, gosto muito.
20. Qual o local mais bonito que já viu por causa da Geologia?
Felizmente tenho visto bastantes, por trabalhar em geoparques há alguns anos. Uma das vantagens dos geoparques é que normalmente a Geologia é muito bonita. Aliás, todo o património geológico tem-me permitido ver coisas muito bonitas. Mas confesso que, se calhar, os Açores continuam a estar no meu coração. As paisagens dos Açores são qualquer coisa de impressionante. Já estive no Brasil, Argentina, China, Islândia, Canadá, estes são assim os países mais espetaculares que visitei, paraísos naturais maravilhosos. Mas, ainda assim, os Açores conseguem bater tudo. Já fui às ilhas todas, a algumas já fui várias vezes! Passei os meus 30 anos no Corvo! (risos) No dia em que fiz 30 anos nadei no Oceano Atlântico, no Corvo.
21. Se pudesse viajar no tempo geológico e assistir a um evento concreto, qual seria?
Gostava de ir ao fim do Paleozoico, porque acho que deve ter sido uma coisa assim cinematográfica, não é? (risos) Acho que é assim um momento apocalíptico, de devastação, tenho alguma curiosidade por esse momento geológico. Ou então, se calhar, não ia tão longe, não me importava de ir ver a erupção dos Capelinhos, em 1958-59. Também deve ter sido espetacular, ver nascer ali um bocado de terra. E os relatos que há, da admiração das pessoas… deve ter sido também muito interessante.

Intraclasto
Geogatilhos, dinossauros utilitários e outras desculpas perfeitamente válidas

Como intraclasto, a Joana trouxe-nos um conjunto de objetos que permitem contar uma boa história: uma pedra da calçada, um granito com olhos (e esta, Streckeisen? Ah pois!), uma estaurolite da Serra da Freita, um cristal de quartzo do Gerês, um xisto aleatório (sim, já sabemos, "há xistos e xistos" ;) ), um peluche de trilobite e um inevitável boneco de dinossauro. Mas, claro, o truque não está nos objetos; está no facto de servirem de desbloqueador de geoconversa. Não que a Joana precise de ajuda para falar, mas às vezes é preciso hipnotizar o ouvinte primeiro: cristais com pontinhas perfeitas que provocam imediatamente um "Uau, isto é valioso?" ou xistos em modo massa folhada para explicar camadas de tempo geológico acumulado. Ou um dinossauro, por exemplo, que serve não como fim, mas como meio. Usa-se o bicho para chegar onde realmente interessa: sedimentação, tempo geológico, areia que virou pedra e paisagens que mudaram sem pedir licença. No fim, a Geologia revela-se como aquilo que realmente é: omnipresente, importante e, contra todas as expectativas do público (não nossas), mesmo fixe! Só é preciso um gancho. E alguém disposto a contar uma história. A Joana.
Geomanias
Rocha preferida? Pedra Pomes
Mineral preferido? Malaquite
Fóssil preferido? Amonite, do ponto de vista estético. Mas para contar uma boa história, tem de ser um trilho de pegadas! Quaisquer pegadas são boas para fazer uma boa história!
Unidade litostratigráfica preferida? Grupo das Beiras
Campo, gabinete ou laboratório? Desde que seja com um megafone, qualquer um
Era, Período, Época ou Idade preferido? Carbonífero
Afloramento ou corte favorito? Praia da Galé, Fontainhas
Pedra mole ou pedra dura? Dura.
Recursos minerais metálicos ou não metálicos? Metálicos.
Diáclase ou diaclase? Diaclase.
